Tony Barber, Financial Times, de Bruxelas
A dívida pública da União Europeia poderá aumentar até 2014 para 100% do Produto Interno Bruto (PIB, a produção econômica de um ano inteiro), a menos que os governos tomem iniciativas firmes para restaurar a disciplina fiscal. Este é o teor do alerta que será transmitido hoje aos ministros das Finanças da UE.
A mensagem austera está contida numa análise da Comissão Europeia, que ressalta a veloz deterioração nas finanças públicas da UE, causadas pelas medidas de emergência adotadas ao longo dos 12 meses passados para salvar o setor financeiro da Europa e para combater a recessão econômica.
O estudo da Comissão será discutido pelos ministros das Finanças da zona do euro de 16 países em conversas informais e, depois, num encontro de acompanhamento que acontecerá hoje, com a participação de todos os 27 ministros da UE.
Na sua mais recente previsão econômica semestral, publicada na semana passada, a Comissão previu que a dívida pública da zona do euro poderá aumentar para 84% do PIB no próximo ano e para 88,2% em 2011. Mas o novo documento pinta um cenário ainda mais sombrio.
A Comissão afirma: "Projeções baseadas num cenário de crescimento retornando à rota de longo prazo de antes da crise mostram que, sem consolidação, a proporção da dívida bruta em relação ao PIB para a UE como um todo poderá atingir 100% do PIB já em 2014 e continuar aumentando".
Ainda em 2007, a dívida pública da região de moeda única equivalia a apenas 66% do PIB, mas, mesmo a esse nível, estava acima da meta de 60% estabelecida para países que aspiravam ingressar na zona do euro.
A despeito de preocupações crescentes sobre a forte expansão no endividamento, os líderes da UE concordaram em uma cúpula em outubro que a natureza frágil da recuperação econômica da Europa recomendava postergar as tentativas de atingir a consolidação fiscal até 2011.
O novo estudo da Comissão apoia essa posição, dizendo: "Um derretimento financeiro e uma perda generalizada da confiança foram evitados. Mas o nível de incerteza permanece elevado e ainda há riscos de ocorrerem diferenças nas reações negativas entre o setor financeiro e a economia real".
Em relatório divulgado ontem, o Conselho de Lisboa, um instituto de pesquisas com sede em Bruxelas, recomenda que os governos da UE limitem as despesas em dois pontos percentuais abaixo do crescimento do PIB nominal a partir de 2011.
"Os pacotes de incentivos estabelecidos para o próximo ano são necessários e também apropriados. Mas chegou a hora de começarmos a ficar atentos de novo", disse Michael Heise, principal autor do relatório, que é o economista-chefe da seguradora Allianz. "Precisamos aprender as lições do passado e não podemos permitir que outra bolha se desenvolva."
A Comissão identifica cinco países que estão particularmente em risco - Grécia, Irlanda, Letônia, Espanha e o Reino Unido - porque suas finanças públicas ficarão sob a tensão resultante de vastos aumentos nos custos das pensões e serviços de saúde, bem como dos elevados déficits orçamentários desencadeados pela crise.
Este é particularmente o caso da Grécia, que enfrenta o segundo maior aumento em gastos relacionados com idade de toda a UE, enquanto seu extremamente alto quociente de endividamento se soma a preocupações em torno de sustentabilidade, diz a Comissão.
A Grécia, país membro da zona do euro desde 2001, irritou seus parceiros no mês passado, quando o recém-eleito governo socialista revelou a existência de um buraco enorme nas suas finanças que não havia sido comunicado por seu antecessor conservador.
As projeções da Comissão da semana passada estimaram que a dívida pública da Grécia pudesse disparar para 135,4% do PIB em 2011 - um nível sem precedentes na zona do euro.
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