18.11.09

BCs reduzem apoio com retorno à normalidade

Valor Economico (SP)

Interbancário: Estratégias de saída agora estão mais firmes na agenda

David Oakley e Ralph Atkins, Financial Times

Os bancos centrais começarão a desatar uma série de medidas de "afrouxamento monetário" lançadas depois do colapso do Lehman Brothers em setembro do ano passado. Apoiadas no retorno à normalidade dos empréstimos interbancários, em que os bancos se financiam, tomando e emprestando recursos uns para os outros diariamente, por prazos de até um ano, as "estratégias de saída" estão agora firmes na agenda.


Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE), sinalizou este mês que em dezembro haverá o último leilão de empréstimos de um ano, na primeira de eliminação de medidas fora do padrão lançadas depois da quebra do Lehman. Os leilões de empréstimos de uma semana e um mês são comuns, mas os de um ano foram introduzidos pelo BCE apenas este ano, em resposta à crise financeira.


O Federal Reserve (Fed) também parou de comprar títulos do Tesouro americano e muitos estrategistas acreditam que o Banco da Inglaterra não deverá ampliar seu programa de alívio quantitativo de 200 bilhões de libras (US$ 336 bilhões), que envolve principalmente a compra de bônus do governo britânico.


A normalização dos mercados financeiros está refletida em indicadores como o spread entre a Libor de três meses e as taxas do overnight - uma medida de risco de crédito. Esses spreads diminuíram para cerca de 20 pontos-base para todas as principais moedas, níveis que haviam sido registrado pela última vez antes do colapso do Lehman. Depois que o banco quebrou, esses spreads saltaram para mais de 300 pontos-base, refletindo o aumento da aversão ao risco dos bancos em relação a outros bancos.


Outro sinal de normalização do mercado está no estreitamento entre as taxas dos empréstimos não securitizados e os securitizados. Em outras palavras, o custo da tomada de empréstimos sem garantias não está mais muito mais caro do que o custo da tomada de empréstimos com títulos garantindo as operações. Esses spreads também diminuíram para cerca de 20 pontos-base.


A principal arma do BCE no combate à crise financeira vem sendo oferecer empréstimos ilimitados aos bancos comerciais a partir de suas operações de liquidez. Os empréstimos concedidos aos bancos a partir de suas operações de liquidez somam no momento € 665 bilhões (US$ 995 bilhões) - muito mais que o volume normal normalmente concedido aos bancos comerciais. Isso vem permitindo a esses bancos se financiar com recursos do banco central, em vez de instituições privadas.


A extensão dos empréstimos do BCE também vem proporcionando estabilidade ao sistema. Dos € 665 bilhões, 80% estão na forma de empréstimos de um ano, dando aos bancos a confiança para emprestar, uma vez que eles não precisam rolar no curto prazo os próprios empréstimos que tomaram.

No entanto, o grande desafio para bancos centrais como o BCE é a maneira como eles vão sair desses programas. Os formuladores de políticas do BCE temem que manter as medidas "fora do padrão" por um período maior que o necessário possa encorajar a formação de bolhas nos preços dos ativos e proporcionar lucros excessivos aos bancos - podendo também representar riscos inflacionários no longo prazo.


O BCE, que provavelmente será o primeiro a desmantelar seus programas não convencionais de políticas, vai adotar uma postura gradualista em sua saída, afirmam analistas. Ele provavelmente continuará atendendo plenamente as demandas dos bancos por recursos em suas operações semanais de fornecimento de liquidez, mesmo acabando com as ofertas especiais de um ano. Entretanto, sair dessas políticas heterodoxas é uma coisa cheia de riscos. Don Smith, economista da Icap, uma corretora inter-dealer, diz que "a grande incógnita" é se os bancos privados irão preencher a "brecha de liquidez" assim que os bancos centrais começarem a retirar dinheiro do sistema financeiro.


"Os mercados interbancário certamente estão agora em uma situação muito melhor do que em qualquer outro momento desde a quebra do Lehman", acrescenta ele. "Em algum momento, os bancos vão emprestavam apenas no overnight, tamanho era o medo no mercado. Agora, há muito mais atividade, embora os empréstimos de mais de três meses ainda sejam esporádicos."


Richard McGuire, estrategista sênior de renda fixa da RBC Capital Markets, diz: "O BCE poderá começar a sair em breve de suas políticas heterodoxas, mas ele precisa fazer isso gradualmente. Isto é, ele precisa continuar fornecendo liquidez e suporte ao mercado, mas talvez em doses menores". Os bancos centrais estão ganhando confiança nos mercados financeiros. Mas com o próximo elo da cadeia de empréstimos na cadeira de empréstimos entre os bancos e as empresas e os lares ainda fraco, e a maior parte as economias ainda extremamente frágeis, analistas alertam que os bancos centrais precisarão empreender suas saídas com cautela.

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