A diretora-gerente do
FMI,
Christine Lagarde, disse nesta sexta-feira (2) que a zona do euro
poderá ter uma década perdida caso não seja tomada uma ação rápida e
coletiva para combater a crise da dívida que atinge os países do bloco.
A entrevista da diretora do FMI vai ao ar na Globo News, no programa
Globo News Painel, neste sábado (3), às 23h.
Na visão de Lagarde, a demora para se chegar a uma solução para
resolver a crise da dívida que atinge os países europeus é parte do
processo democrático, "que precisa envolver todas as partes em todos os
passos".
Mas, segundo a dirigente do fundo, a Europa já sofre forte pressão dos
mercados, para quem, na avaliação de Lagarde, “não faz diferença
emprestar à Grécia ou à Alemanha".
“Se não houver uma solução rápida e abrangente e coletiva, logo a zona
do euro - e não só sou eu a dizer isso, posso ter sido a primeira -
corre o risco de ter uma década perdida. (...) a avaliação do mercado é
de que a zona do euro é uma zona econômica também, não faz diferença
emprestar à Grécia e à Alemanha", disse.
“Nós, assim como muitos outros, falhamos em reconhecer a crise
precocemente. Não me conforta o fato de que praticamente todos não
anteciparam, apenas um ou outro economista no mundo. (...) Nós não vimos
a crise que estava se formando”, disse a diretora.
Lagarde destacou pontos positivos da postura do FMI no reconhecimento, ainda que tardio, da crise.
“Fomos honestos o suficiente para reconhecer, e buscamos pessoas que
têm a tendência a criticar para que dissessem a nós o que fizemos de
errado, pedimos que nos apontassem por que não vimos a crise chegar.
Fizemos um relatório que ‘levantou a pele’ do FMI e o levamos a público,
nos arriscamos. Muitos outros não fizeram isso”.
A diretora disse que o objetivo do FMI é ser eficiente, mesmo que de forma mais discreta.
"Eu estou muito feliz que o FMI esteja no meio disso, mas de forma
efetiva, não necessariamente de uma forma visível", disse Lagarde.
Risco de contágio é concreto
Lagarde destacou a posição atuante do FMI no combate à crise citando os
exemplos de Itália, Portugal e Grécia, que atualmente estão sob
programas do Fundo.
“Dois desses três (países) estão procedendo conforme o plano; o caso da
Grécia é muito mais complicado do que pensávamos inicialmente. O risco
de contágio (para outros países europeus) que todos temiam agora é uma
coisa concreta”. Para Lagarde, a dificuldade que países como a Alemanha
têm enfrentado nos leilões de títulos é uma evidência de como a crise se
estendeu.
Brasil melhor que outros
Sobre a situação do Brasil na crise, Lagarde elogiou as políticas
tomadas pela presidente Dilma Rousseff e pelo ministro da Fazenda, Guido
Mantega, e citou o alto volume das reservas brasileiras como um dos
pontos fortes do país contra a crise.
“Não acho que qualquer país possa ficar imune se a crise crescer e não
for tratada, mas acredito que o Brasil está em situação melhor do que
outros”, na opinião de Lagarde, o país já enfrentou uma crise de forma
bem-sucedida e está habilitado a resistir a choques.
Questionada sobre se os líderes europeus não deveriam se preocupar mais
em resolver a crise da dívida imediata do que em discutir como evitar
que o problema volte a ocorrer no futuro, Lagarde disse acreditar que é
importante tratar das três questões.
“Não se pode concentrar energia em um dos pontos. Concordo que a dívida
deva ser a prioridade, mas depende também do que se faz em termos de
consolidação fiscal e estimulo à economia (...). E também medidas que
permitam o crescimento, porque sem crescimento é muito difícil resolver a
dívida”, afirmou.
Países no FMI
Questionada sobre as críticas que
recebe de que o FMI é considerado um órgão de liderança majoritariamente
europeia, Lagarde disse que, como dirigente do fundo, é o que define
como "animal do FMI". "Somos uma espécie única", brincou a diretora,
bem-humorada.