Paulo Paiva
PÓS-CRISE
Com encomendas em alta, empresas cancelam férias e governo fala em crescimento de 10%
Você já era nascido em 1979? Naquele ano, a Suggar, fabricante mineira de eletrodomésticos, iniciou suas atividades. Desde então, sempre concedeu férias coletivas a seus funcionários em dezembro e janeiro. Neste ano, não haverá férias na Suggar. O excesso de encomendas, resultado do crédito farto e aumento de renda do consumidor, fez a empresa rever seus planos e quebrar sua tradição de décadas. Não é a única. No polo calçadista de Nova Serrana, Centro-Oeste mineiro, as empresas decidiram cortar 15 dias nas férias coletivas dos trabalhadores. Montadoras como a Fiat também estão refazendo cronogramas. Reflexo desse processo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, previu ontem que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro pode crescer até 10% no terceiro trimestre – quase uma taxa anualizada chinesa. Isso pode dar ao país um crescimento anual de 1% este ano, um percentual gigantesco comparado aos dados negativos que deverão marcar Estados Unidos e Europa. A indústria está de volta ao jogo. E, pelo visto, para ficar.
'Não é hora de perder dinheiro'
Marta Vieira
O tradicional recesso de Natal e ano-novo será bem mais curto este ano ou ficará limitado aos dias da festa em fábricas de diferentes setores que driblaram a crise, a exemplo das indústrias de calçados e eletrodomésticos. Há 30 anos em atividade, pela primeira vez a Suggar Eletrodomésticos, de Belo Horizonte, não concederá férias coletivas aos empregados no mês que vem e janeiro, para dar conta de atender os pedidos do varejo. Na região de Nova Serrana, polo da produção mineira de calçados no Centro-Oeste do estado, metade das 900 unidades fabris vai reduzir o período de paralisação das máquinas em 15 dias, informou o Sindicato Intermunicipal da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova).
“Não é hora de perder vendas. A manutenção preventiva pode esperar”, afirma José Lúcio Costa, dono da Suggar, convencido de que a produção baterá recorde em dezembro, impulsionada pelos efeitos positivos da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e a injeção dos recursos do 13º salário. A fábrica está trabalhando com toda a sua capacidade durante 24 horas por dia e só deve fechar as portas em 25 de dezembro e 1º de janeiro. A prática comum nesta época do ano era a paralisação de 22 de dezembro a 10 de janeiro.
A reação das encomendas à indústria já indica volumes de pedidos superiores ao do ano passado também nos setores de alimentos e vestuário, segundo Lincoln Gonçalves, presidente do Conselho de Política Econômica da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). “O mercado está reagindo positivamente e as empresas que demoraram a reativar as suas linhas de produção agora têm de correr para atender o Natal da retomada”, diz o empresário.
O Sindinova refez as projeções para o balanço da produção de 2009 de um crescimento estimado anteriormente em 3% para os atuais 10%, informou o presidente da instituição, Ramon Alves do Amaral. O maior incentivo à produção, que saiu de 380 mil pares por dia até junho para 410 mil pares diários este mês, foi a sobretaxação adotada pelo governo para a importação de calçados similares aos fabricados no pólo industrial. “Algumas fábricas já têm pedidos para entrega até janeiro”, afirma Amaral. As férias coletivas, que tradicionalmente ocupavam todo o mês de janeiro, ficarão restritas a uma quinzena em pelo menos 50% das fábricas.
No setor automotivo, a Fiat informou que decide até a segunda semana de dezembro se encurtará o recesso ou suspenderá a paralisação nesta época do ano. O Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, Igarapé e São Joaquim de Bicas informou que a jornada dos trabalhadores da montadora e do seu cinturão de autopeças têm excedido no mínimo 8 horas extraordinárias por semana. “Pedimos fiscalização do Ministério do Trabalho e novas contratações nas empresas”, disse o presidente da instituição, Marcelino da Rocha.
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