12.11.09

Insegurança e desconfiança

Jornal do Brasil
Primeiro caderno

AINDA QUE AS AUTORIDADES DE plantão insistam em considerar o sistema de energia brasileiro “moderno”, “informatizado”, de “última geração”, o apagão vivido na noite de terça para ontem é a prova de que o modelo do país é inapropriado e ineficiente. Logo nas primeiras declarações, técnicos e gestores do governo, como o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, justificaram o blecaute de proporções inéditas a questões atmosféricas. Chuvas e raios poderiam ter avariado alguma importante linha de transmissão de energia.

Ontem, as especulações foram confrontadas com a improbabilidade e, na hipótese de serem confirmadas, com o atestado de vulnerabilidade do sistema.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), não houve registro de qualquer fenômeno climático excepcional na região apontada como foco do problema. Houve um temporal, sim, que durou duas horas no fim da tarde, com ventos que atingiram 80 km/h. Algo normal para a época do ano. Um especialista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) afirmou que a chance de o blecaute ter sido causado por um raio seria mínima. Esse é o primeiro dado, que leva necessariamente à apuração de outras possíveis causas, como erros de operação.

Mas, mesmo que o apagão tivesse ocorrido por uma questão climática, isso só mostraria o quanto o sistema é precário. Não é aceitável que raios e chuvas locais, fenômenos redundantemente naturais, não extraordinários – como seria o caso de furações, tufões, ciclones etc – possam danificar uma linha de transmissão, causando transtornos e levando o caos à população de nove estados. O país não pode ficar novamente refém de situações como esta.

O apagão, desta vez, não foi ocasionado pela falta d’água. Os reservatórios estão cheios. Não houve um problema de geração, mas de distribuição. O blecaute de anteontem mostrou que esse é o outro lado vulnerável do modelo brasileiro. Em primeiro lugar, é preciso mais investimentos tecnológicos. Não é nada natural que o país inteiro fique à mercê de simples fenômenos naturais. Em segundo lugar, não é nada viável que o sistema dependa tanto de um tronco de linhas de transmissão, vindas da Usina de Itaipu. O blecaute não teria se espalhado se o modelo fosse em rede. Um dos grandes problemas, como apontou o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Adriano Pires, é que as linhas de transmissão são muito longas. A terrível impressão que este apagão deixa é a de que basta cortar um ou dois fios que o país inteiro para. E demora a voltar a funcionar. Foram horas de espera.

As autoridades afirmam que o modelo é seguro, pois a ocorrência de uma pane em uma das linhas leva ao desligamento de todo o sistema. Mas que segurança (técnica) é essa que gera, como consequência, uma brutal insegurança (física) a milhões de pessoas? No Rio de Janeiro, bandidos aproveitaram a falta de luz para fazer arrastões. O trânsito, com os sinais desligados, ficou caótico em todas as cidades atingidas. O abastecimento d’água foi interrompido. O sistema de telecomunicação entrou em pane.

Centenas ficaram presos em elevadores. Mortes em hospitais serão apuradas. Para um país com pretensão de ser uma moderna potência, é preciso escapar urgentemente da idade das trevas.

Que segurança (técnica) é essa que gera brutal insegurança (física) a milhões?

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