12.11.09

Apesar de blecaute, há sobra de energia no país

O Globo (RJ)
Mônica Tavares e Henrique Gomes Batista

Há oito anos o problema era estrutural. Agora, causa foi falha na transmissão, mesmo com investimentos recordes


RIO e BRASÍLIA. O grande vilão da falta de energia na noite de terça-feira foi diferente do que causou o apagão de 2001. Se naquela vez faltava geração de energia elétrica, desta vez a causa foi o setor de transmissão. Há oito anos, os reservatórios das hidrelétricas estavam quase secos, e a ausência de linhas de transmissão impediu o governo de manejar a geração de onde havia superávit para onde havia déficit de eletricidade. Nesta semana, o blecaute foi causado por falhas na transmissão, apesar de o setor ter recebido investimentos recordes nos últimos anos.

Em 2001, o Brasil enfrentou um problema estrutural que levou tempo para ser sanado, e o governo teve de preparar um plano de contingência, baseado no acionamento de termelétricas, na reestruturação do planejamento (com a instituição de leilões de energia futura) e em um rápido investimento em linhas de transmissão. Agora, embora a ocorrência levante dúvidas sobre os investimentos que vêm sendo feitos em tecnologia, monitoramento e fiscalização na rede de transmissão, o problema foi pontual e rapidamente solucionado.

Não existe problema de geração de energia. Ao contrário, 2009 é um dos anos em que mais choveu nos últimos tempos. Os reservatórios de todas as regiões estão longe de gerar preocupação.

Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), até o último domingo o nível dos reservatórios das hidrelétricas na região Sudeste/Centro-Oeste estava em 68,78%; na Sul, em 94,18%; na Nordeste, em 63,13%; e na Norte, em 47,38%.

— A preocupação começa a acontecer quando o ano é de pouca chuva e quando o nível dos reservatórios fica abaixo de 20% — explica um técnico do governo, dizendo que a situação é confortável e que as térmicas foram pouco acionadas.

Consumo de energia elétrica diminuiu este ano

Outro aspecto que contribuiu para a pequena utilização das térmicas foi a queda no consumo de energia. A projeção da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) é que o consumo em 2009 ficará em um valor próximo a 390 terawatt/hora (TWh), ou 0,7% abaixo do ano passado, que chegou a 392,7TWh. Até o terceiro trimestre, o consumo registrava queda de 2,4% em relação ao mesmo período de 2008.

Por outro lado, o setor de transmissão de energia elétrica é um dos mais bem-sucedidos dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Segundo o último balanço, 23 das 82 novas linhas previstas já foram concluídas e outras 15 estão em obras. Mais 31 estão licitadas, aguardando o licenciamento ambiental, e o governo ainda aponta 13 novos projetos.

— Em nove anos saltamos de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão para 95 mil — disse Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib).

Ele lembra ainda que nenhum sistema é 100% confiável, embora acredite na qualidade da transmissão de energia: — É como o transporte aéreo.

Por mais que se invista em segurança e sistemas redundantes (espécie de backup), alguns incidentes com aviões ocorrem.

Claro que o objetivo é diminuir isso ao máximo — disse, afastando haver riscos para a realização da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 no Brasil.

Sistema permitiu restabelecimento rápido

José Cláudio Camargo, presidente da Associação Brasileira das Grandes Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), diz que o incidente foi uma infeliz coincidência. Segundo ele, nenhum país do mundo aguentaria a queda de suas três principais linhas de transmissão: — O sistema brasileiro é um dos mais elogiados do mundo.

Só o Canadá e a Noruega têm algo parecido. Foi uma fatalidade, e isso ninguém suporta.

Ele lembrou que a reação do sistema foi muito positiva e que, se por um lado a integração da rede pode ter contribuído para o aumento do problema — através do efeito dominó —, também favoreceu um restabelecimento que considerou rápido.

— O sistema de transmissão foi fundamental para uma rápida solução. Em praticamente três horas todo o sistema estava restabelecido e com energia de outras usinas, pois Itaipu só foi religada às 5h. Isso foi um sucesso.

Em 1994 houve um blecaute no estado de Nova York no qual se levou 36 horas para restabelecer o sistema — afirmou, lembrando que o Brasil é o país do mundo que mais recebe descarga atmosférica. — Temos raios todos os dias no sistema, o que é resolvido diretamente, e ninguém fica sabendo.

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