Folha de S.Paulo (SP)
GIDEON RACHMAN
DO "FINANCIAL TIMES"
A Europa ganhou algum tempo com o resgate de 750 bilhões. Mas o problema de longo prazo permanece.
A maior parte da União Europeia vive acima de suas posses. Os deficit governamentais estão descontrolados, e a dívida do setor público, em ascensão. Caso os governos não utilizem para controlar seus gastos o tempo que obtiveram, os mercados voltarão a ficar perigosamente inquietos.
Infelizmente, eleitores e políticos europeus estão despreparados para a era de austeridade que os aguarda.
A Europa poderia continuar a ser o lugar com as mais belas cidades, o melhor vinho, a mais rica histórica cultural, as férias mais compridas, os melhores times de futebol. A vida para a maior parte dos europeus jamais foi tão confortável.
A estratégia era excelente, mas trazia uma grande falha. A Europa não tem como arcar com o custo de sua confortável aposentadoria.
A crise financeira grega serve, infelizmente, como exemplo extremo de um problema europeu mais amplo. Os investidores vêm contemplando nervosamente os níveis de dívida e os deficit orçamentários de Espanha, Portugal e Irlanda.
Mas nem os quatro grandes países da Europa -Alemanha, França, Itália e Reino Unido- estão imunes a preocupações, em razão das dívidas e deficit.
E um dos motivos para a amargura da Alemanha quanto à necessidade de resgatar a Grécia é o conhecimento de que Berlim já enfrenta dificuldades para manter suas contas.
É verdade que os cidadãos da Letônia e da Irlanda já engoliram a necessidade de cortes de salários e pensões. Mas experimentaram pobreza em época recente, seguida por expansão intensa e insustentável. Seus cidadãos sabem que os últimos anos foram um tanto irreais.
Como ilustram os tumultos em Atenas, no entanto, nem todo europeu reage de forma tão estoica a fortes cortes de orçamento. Muitos consideram que aposentadoria antecipada, assistência médica gratuita e seguros-desemprego generosos são direitos fundamentais.
Deixaram há muito de perguntar como essas coisas eram pagas. É essa sensação de que tudo é um direito que torna tão difíceis as reformas.
Mas, caso os europeus não aceitem a austeridade agora, no futuro terão de encarar algo mais chocante: moratórias nacionais e colapsos bancários.
Para muitos europeus, isso é coisa de América Latina. A descoberta de que a Europa Latina -e talvez também a Europa setentrional- pode colidir contra os fatos financeiros será um choque horrível.
O crescimento no tamanho e no poder da UE alimentou uma perigosa sensação de complacência. Para os países do centro e do sul da Europa -que aderiram depois do núcleo central-, "Bruxelas" foi vendida como a apólice de seguros definitiva.
Assim que tivessem aderido à UE, todos poderiam aspirar às vidas relativamente confortáveis e estáveis de franceses e alemães. E o método funcionou durante anos, com a alta dos padrões de vida em países como Espanha, Grécia e Polônia.
Apólice de seguro
Nos últimos anos, a unidade europeia também vinha sendo alardeada como apólice de seguro para os membros fundadores da União. Nicolas Sarkozy e Angela Merkel falam de uma Europa que "protege".
A ideia era que uma União abarcando 27 membros seria grande o bastante para proteger o modelo social único que existe na Europa contra as incertezas da globalização. Em seu nível mais fundamental, a UE decerto protege.
Mas, embora os europeus já não temam Exércitos estrangeiros, começam a temer os detentores estrangeiros de seus títulos de dívida. A existência da Europa como "superpotência do estilo de vida" depende de ampla oferta de crédito.
O resgate do final de semana representa um último salva-vidas lançado aos governos europeus que possam precisar dele. Mas, apesar de toda a conversa sobre solidariedade europeia, um dos custos dessa linha de crédito será o agravamento das tensões no seio da UE.
Já há muitos protestos na Grécia quanto à perda de soberania nacional, só equiparados à amargura na Alemanha sobre o custo do resgate aos irresponsáveis europeus do sul.
Na semana passada, conversei com um membro da elite da UE. Ele sacudiu a cabeça diante das amargas recriminações trocadas entre alemães e gregos e da forma pela qual a crise "lançou os dois povos um contra o outro". Isso, disse, é o mais perto que temos da guerra, na Europa moderna.
Vamos esperar que sim. Mas os europeus estão descobrindo que o "projeto europeu" não oferece proteção contra a dureza do mundo externo. As coisas ainda podem ir horrivelmente mal mesmo no jardim murado da União Europeia.
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Tradução de PAULO MIGLIACCI
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