Valor Economico (SP)
Justin Lahart, The Wall Street Journal, de Mobile, EUA
O lento desmanche de algumas partes da economia americana ficou visível semana passada na orla desta cidade portuária do Alabama, quando a maior parte do que sobrou do estaleiro Bender Shipbuilding & Repair Co. foi a leilão.
Enfileirados no chão de um dos carcomidos prédios da Bender e organizados do lado de fora estavam à venda 2.500 lotes com todo o tipo de equpamento, de rolos de correntes a uma máquina de 700 toneladas para dobrar vergalhões de aço.
A Bender, que em seus 91 anos construiu coisas tão díspares quanto o estádio de futebol americano da universidade local ou um navio de 69 metros para pescar atum, faliu em junho, uma entre milhares de empresas que fecharam as portas durante a recessão. O fracasso da Bender e sua liquidação ressaltam um aspecto distinto da crise atual: em registros que vão até os anos 40, em apenas uma ocasião os Estados Unidos eliminaram capacidade industrial líquida, e nunca tanta quanto agora.
O Federal Reserve, o banco central americano, divulgou sexta-feira que os EUA eliminaram em abril 0,1% da capacidade industrial em relação ao mês anterior, encolhendo o volume de produtos que as fábricas do país podem produzir quando usam toda a capacidade instalada. Isso significa que o total encolheu 1,7% em relação ao auge atingido no fim de 2008. Em comparação, os EUA eliminaram 0,6% da capacidade industrial após a última recessão, a única vez até então em que o país tinha feito isso desde a Segunda Guerra.
Mesmo com o enxugamento recente, os fabricantes americanos ainda enfrentam um excesso de máquinas e linhas de montagem ociosas. Eles operaram com apenas 70,1% da capacidade em abril, ante o mínimo de 65,1% a que chegaram em junho, mas ainda bem abaixo da média histórica, que é de 80,8%. A economia sempre teve alguma capacidade ociosa, mas a baixa média de utilização atual é incomum mesmo para um momento de recessão.
Algumas indústrias estão eliminando capacidade mais rapidamente que outras: as fabricantes de borracha e plásticos cortaram 4,8% desde o fim de 2008, enquanto as montadoras eliminaram 12% desde então.
Claro que sempre há empresas fechando as portas, mas normalmente há um número de novas fábricas mais que suficiente para manter a capacidade geral crescendo. Mesmo quando uma fábrica fecha as portas a capacidade produtiva continua lá, engavetada à espera do momento de vacas gordas. Só quando a fábrica é desmontada ou demanda reformas substanciais que o governo americano registra sua capacidade como eliminada.
O leilão da Bender atraiu 225 licitantes registrados e um número parecido de ofertas por computador.
Um punhado de interessados, a maioria em roupas casuais como jeans e camiseta, acompanhava o carrinho em que o leiloeiro Myron Browning ia de um lote ao outro.
O estaleiro em si não está desaparecendo, mas emergirá deste processo uma verdadeira sombra de seu tamanho original: a Signal International LLC, de Mobile, comprou a maior parte do terreno da Bender à beira-mar e boa parte de seu equipamento em janeiro por US$ 31,25 milhões, e está operando-o como uma firma de manutenção chamada Signal Ship Repair. Mas suas operações são muito menores e ela abandonou completamente a construção naval.
Num estaleiro em que antes trabalhavam quase 2.000 pessoas, a Signal Ship Repair emprega apenas 180 no momento, diz seu gerente-geral, Robert Beckmann. A Signal planeja expandir as operações e contratar mais pessoas, mas mesmo assim não precisa de todo o equipamento velho da Bender.
"Simplesmente não precisamos de todas essas ferramentas", disse ele. "Temos ferramentas suficientes aqui para ocupar até 1.000 pessoas."
Muitas dessas ferramentas nunca mais serão usadas, como 20 vagões de trem especiais que a Bender usava para levar os navios para a água. Esses foram vendidos como ferro-velho e devem ser moídos e derretidos para fazer novo metal.
A concorrência menor é algo que as empresas deveriam receber bem. Mas Steve Ganoe, dono do estaleiro St. Johns Ship Building em Palatkaville, na Flórida, que veio ao leilão em busca de uma chapa de metal, não tem tanta certeza disso.
Enquanto devorava um hambúrguer sentado numa válvula metálica gigantesca que iria a leilão, Ganoe disse temer que se mais estaleiros como o dele fecharem as portas ele enfrentará dificuldades para comprar os suprimentos de que precisa. "O cara que faz isto aqui ", disse ele, batendo com o nó dos dedos na válvula, "não sei o que ele fará" se não houver um número suficiente de clientes para que continue operando.
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