Valor Economico (SP)
Bloomberg Businessweek
O mundo e suas empresas têm uma participação em cada pedacinho desse drama. Uma solução bem-sucedida para os problemas do euro sinalizaria realmente o fim da crise financeira mundial de 2008-09. Mas, se a Europa fizer um mau trabalho na recuperação do euro e sua economia afundar, empresas de todas as partes do mundo que vendem seus produtos para a Europa vão sofrer, com um contágio perigoso para os bancos e investidores não-europeus expostos às dívidas europeias.
A exposição direta dos bancos americanos à Grécia é bem pequena: apenas cerca de US$ 17 bilhões até o fim de 2009. Bem maior é o risco de um default da Grécia, que congelaria os mercados financeiros, uma vez que os grandes participantes ficariam preocupados tentando descobrir quem estaria no gancho por causa de dívidas ruins. Num sinal desse nervosismo, o prêmio que os bancos pagam para tomar empréstimos uns dos outros aumentou recentemente para cerca de 0,25 ponto porcentual sobre a taxa de swap overnight livre de risco. Isso é quatro vezes mais que o registrado no auge da crise em 2008. "Para mim, a maior preocupação é que estamos mudando de um problema de dívida soberana para problemas no setor bancário", afirma Pierre-Olivier Gourinchas, economista da Universidade da Califórnia em Berkeley.
O mercado de ações dos EUA está computando nos preços essas preocupações, com o índice Standard & Poor ' s 500 acumulando uma desvalorização de cerca de 8% desde o fim de abril. Embora as exportações para a Europa sejam pequenas demais para ter um efeito sobre a economia americana como um todo - elas respondem por apenas 1,7% do PIB -, certas empresas estão sentindo o aperto. Em 18 de maio, Bruce A. Carbonari, executivo-chefe da Fortune Brands, empresa do setor de produtos de consumo, disse em uma conferência telefônica com analistas que a participação da Europa no crescimento das receitas da empresa vai cair, provavelmente para a ponta mais baixa de um dígito. A United Technologies, que realiza cerca de um quarto de suas vendas na Europa, começou 2010 assumindo uma taxa de câmbio do euro a US$ 1,48. Agora ela prevê o euro a US$ 1,24. Isso torna mais caras as exportações dos EUA para a Europa e reduz o valor em dólares dos lucros obtidos em euros.
Mesmo assim, algumas companhias estão sendo rápidas, segundo afirma Robert Nardello, executivo-chefe da companhia operacional do grupo de private equity Cerberus Capital Management, cujas empresas na Europa e outras partes do mundo têm receita anual consolidada de US$ 50 bilhões. "Se você estiver tentando fazer negócios ou recomprar dívidas, a velocidade com que você faz as coisas precisa aumentar", diz. "Você precisa de um 'sim' rápido ou um 'não' rápido - não estamos num ambiente para um lento 'talvez'."
Líderes corporativos da Europa continuam demonstrando confiança na moeda única, que, apesar de sua desvalorização, está mais ou menos com o mesmo valor em relação ao dólar de quando foi lançada. "Estou convencido de que o euro tem capacidade de resistência e não vai ruir", afirma Dieter Zetsche, executivo-chefe da Daimler. A concorrente BMW está mudando seus acordos de compras para proteger seus lucros se o euro se recuperar. "O euro pode estar em baixa hoje, mas poderá voltar a subir amanhã", diz Herbert Diess, membro do conselho de administração da BMW encarregado das compras da companhia.
Não há dúvidas de que é necessário uma melhor governança. O estado atual tem sido uma confusão que mistura integração monetária com independência fiscal. Membros periféricos da zona do euro, incluindo a Grécia e a Irlanda, tomaram empréstimos e concederam empréstimos entre si, ao mesmo tempo em que perdiam competitividade nos custos. As regras que limitam o tamanho dos déficits enquanto parcela do PIB foram rotineiramente ignoradas, não só por esses países mas também pela Alemanha. A UE nem mesmo impôs multas previstas no Pacto de Estabilidade e Crescimento para os violadores.
Soluções extremas estão sendo apregoadas agora, mas veja isso: a zona do euro não vai se transformar em uma autoridade fiscal e de gastos unificada - nos Estados Unidos da Europa. Isso exigiria união política, algo impossível sob o Tratado de Lisboa (que é efetivamente a constituição da UE) e também politicamente impensável. Os europeus não estão dispostos a renunciar às suas soberanias.
O outro cenário extremo, a saída de um ou mais países do euro, também é difícil. Se algum dos países do sul da Europa deixar o euro, alerta Preston Keat, diretor de análises da consultoria Eurasia Group., isso "levaria a uma grande desvalorização da 'nova' moeda em relação ao euro. O serviço da dívida denominada em euro desse país subitamente ficaria mais caro, o que levaria quase que imediatamente a um calote". Um caos legal se seguiria, segundo escreveu ele em nota a investidores em 19 de maio, já que as empresas locais com contratos atrelados ao euro se veriam em meio a turbulências, e "todos os contratos - incluindo os salários pagos pelo governo, os depósitos bancários, bônus, hipotecas, impostos e quase tudo mais - teriam que ser redenominados na nova moeda. Em resumo, isso violaria todos os tipos de leis, tratados e regras - nos níveis nacional, da UE e internacional".
O futuro do euro repousa na disposição dos gregos, portugueses, espanhóis e irlandeses de absorverem o golpe agora, em troca dos benefícios da moeda comum, que incluem o livre comércio e investimentos que (no longo prazo) reduzem o custo de vida e melhoram os padrões de vida.
(Tradução de Mário Zamarian)
Nenhum comentário:
Postar um comentário