Valor Economico (SP)
Crise: Preocupação dos investidores volta a derrubar cotação do euro
Brian Blackstone, The Wall Street Journal, de Frankfurt
O Banco Central Europeu anunciou que comprou € 16,5 bilhões (US$ 20,9 bilhões) em títulos soberanos durante a primeira metade da semana passada, mas o comunicado não conseguiu diminuir as preocupações maiores dos investidores com o esforço da Europa para restaurar a confiança em meio à atual crise de dívida. O euro chegou brevemente ontem à menor cotação frente ao dólar dos últimos quatro anos, e o juro dos títulos gregos subiu. Os juros dos títulos de outros países da parte problemática da União Europeia ficaram estáveis, num sinal de que as aplicações do BCE nos títulos soberanos conseguiram estabilizar esses mercados.
Mesmo assim, embora tenha sido suficiente para estabilizar os juros dos países que enfrentam mais riscos, os € 16,5 bilhões não foram interpretados como a ação vigorosa de apoio que alguns economistas esperavam. "Não é uma medida agressiva", diz Marco Valli, economista do UniCredit Group. "É preciso muito mais para estabilizar o mercado", disse Valli.
Os € 16,5 bilhões envolvem aplicações concluídas até sexta-feira. Como demora até três dias para fechar esse tipo de transação, é provável que a maior parte das aplicações tenha ocorrido na segunda-feira e na terça-feira. O BCE não discrimina suas aplicações em títulos por país ou vencimento. No início da semana passada o BCE estava comprando títulos de Portugal, da Espanha, da Itália, da Grécia e da Irlanda, disseram pessoas do mercado.
Para compensar essas aplicações, o BCE informou que vai oferecer aos bancos, por uma semana, um juro de até 1% nos depósitos feitos no banco central, muito mais do que os bancos recebem pelo sistema habitual de depósitos do BCE. "Esperamos que a demanda seja boa."
Valli nota que os € 16,5 bilhões representam pequena fração da dívida de médio e longo prazo da Grécia, de Portugal, da Irlanda e da Espanha. Se as autoridades queriam mesmo emitir um sinal mais forte de seu apoio, precisariam aumentar esse montante para € 70 bilhões, diz ele.
Continuam a pairar dúvidas mais amplas sobre a credibilidade do BCE e dos governos europeus, o que tem derrubado o euro. A moeda usada pelos 16 países da zona do euro chegou a bater em US$ 1,23 ontem, a cotação mais baixa desde abril de 2006. "O BCE pode ser obrigado a se tornar o investidor de última instância dos títulos soberanos dos países periféricos. Do ponto de vista da credibilidade, isso não é exatamente bom para o BCE", nota Win Thin, estrategista de câmbio da Brown Brothers Harriman.
O BCE precisa manter um equilíbrio um tanto difícil, dizem analistas. Se as autoridades comprarem títulos agressivamente demais para socorrer a periferia, podem impulsionar a inflação, um temor particularmente pronunciado na Alemanha, cujo presidente do banco central, Axel Weber, foi contra o programa de aplicação em títulos soberanos. Mas se não agirem com a firmeza suficiente, podem simplesmente adiar a moratória da Grécia e a disseminação da crise para Espanha, Portugal e outros países. O euro já sofreu diante da escala gigantesca da reação europeia à crise grega, dizem analistas. Além do pacote de € 110 bilhões para socorrer a Grécia, os governos europeus prometeram 750 bilhões para proteger a Espanha, Portugal e outros países do contágio. Isso pode expor países mais sadios financeiramente, como França e Alemanha, ao risco de crédito da Grécia e outras nações.
Embora muitos analistas achem que o euro subiu demais no ano passado, quando superou US$ 1,50, a rapidez de sua depreciação pegou alguns deles de surpresa, refletindo uma reviravolta impressionante para o BCE. Alguns meses atrás, esperava-se que o BCE começasse a elevar os juros no meio do ano, bem antes do Federal Reserve, o banco central americano, numa prova de suas notórias credenciais de combate à inflação.
Agora é o Fed que deve aumentar os juros primeiro, e muitos economistas já preveem que o BCE só deve aumentar os juros em 2011, o que contribuiu ainda mais para o declínio do euro. A economia americana cresceu a um ritmo anualizado de 3,2% no último trimestre, quatro vezes o registrado na zona do euro.
O declínio do euro deve ajudar a diminuir um pouco essa diferença. Por outro lado, a depreciação da divisa pode ser boa para a economia. Ela torna os preços dos países que usam a moeda - incluindo as em dificuldades no sul do bloco, como Grécia, Portugal e Espanha - mais competitivos nos mercados mundiais. A desvalorização também pode compensar parte das pressões inflacionárias que assolam algumas economias. Os preços ao consumidor na Espanha caíram mês passado quando excluídos alimentos e combustíveis, na primeira vez em que o país registra esse tipo de declínio.
A cotação do euro já está impulsionando a economia alemã, movida a exportações. Após uma lenta recuperação no ano passado e no início de 2010, a Alemanha parece estar a caminho de crescer este trimestre a um ritmo anualizado entre 3% e 4%, graças principalmente às exportações.
Muitos economistas dizem que para a Europa se recuperar em meio à crise de dívida, o euro precisará em algum momento atingir a paridade com o dólar. John Higgins, analista cambial da consultoria Capital Economics, acha que o euro pode valer o mesmo que o dólar no meio do ano que vem. A moeda europeia não exibe essa cotação desde 2002.
Esse tipo de declínio, em que a moeda cai alguns centavos por mês, seria uma bênção para a Europa, porque tornaria suas exportações mais competitivas, diz ele. "Você não quer entrar numa situação em que o declínio é diário; aí ele passa a se autoalimentar e se torna algo desestabilizador", diz Higgins. Se os bancos centrais asiáticos, que detêm trilhões de dólares em reservas internacionais, resolvessem trocar o euro pelo dólar, o declínio da moeda poderia se acelerar ainda mais, dizem analistas.
Apesar de todos os benefícios em termos de estabilidade e juros baixos, uma desvantagem de integrar a união monetária é que os países perdem a opção de desvalorizar suas moedas quando há problemas, o que lhes permite tornar suas exportações mais baratas e diminuir o endividamento.
A depreciação de cerca de 15% do euro frente ao dólar desde dezembro já ajuda, dizem economistas, especialmente nos mercados em que as empresas europeias concorrem com fabricantes americanos e chineses. Mas isso também não torna a Grécia mais competitiva que os outros países da zona do euro, como a Alemanha, o que limita os benefícios.
"No fim das contas, o declínio do euro deve beneficiar a zona do euro, mas não necessariamente significa que esses países (periféricos) vão receber uma fatia maior desses benefícios", diz Higgins.
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