O Globo (RJ)
Declaração foi resposta à ideia de taxar importações argentinas de alimentos
Eliane Oliveira
BRASÍLIA. A irritação do governo brasileiro com os rumores de que a Argentina poderia proibir as importações de alimentos que são produzidos pela indústria local foi demonstrada ontem pelo secretário de Comércio Exterior, Welber Barral.
— Qualquer medida tem que ser fundamentada. Não é porque o sub do sub do sub teve uma ideia mirabolante que nós vamos sair tomando medidas sem avaliação — disparou Barral, referindose, sem citar nomes, ao secretário de Comércio Exterior argentino Guillermo Moreno.
Segundo técnicos do governo e empresários brasileiros, Moreno seria o autor da ameaça publicada com destaque na imprensa argentina. Barral disse ainda que, se a Argentina confirmar a intenção de taxar produtos, o Brasil poderá “apertar um botão” e pagar com a mesma moeda, dificultando o ingresso de produtos daquele país.
Barral enfatizou que as autoridades brasileiras têm como princípio a reciprocidade no comércio exterior. Com essa declaração, ele deixou claro que, se confirmada a ameaça, o Brasil poderá repetir o que fez no ano passado, ao selecionar uma série de itens que passaram a entrar no país pelo regime de licença não-automática, levando até 60 dias para o desembaraço das mercadorias.
— Ninguém pode dizer que somos complacentes no comércio exterior. Na visão do governo brasileiro, as relações internacionais são de reciprocidade.
O Brasil tem um mecanismo eletrônico de controle de importação. É um botão — advertiu.
Brasil importa US$ 2 bi e vende US$ 500 milhões
Para dar uma ideia do poder de força do Brasil em relação aos argentinos, o secretário de Comércio Exterior disse que a exportação de alimentos para o mercado vizinho equivale a um quarto do que é importado de lá. Ou seja, o Brasil exporta US$ 500 milhões e importa US$ 2 bilhões. A margem de retaliação, portanto, é desfavorável à Argentina.
De acordo com o secretário, oficialmente a medida tem sido desmentida pelo governo argentino, inclusive pela presidente daquele país, Cristina Kirchner. Ele acrescentou que tem ouvido apenas relatos de exportadores brasileiros, que se dizem preocupados com a possibilidade de as autoridades argentinas realmente criarem mais uma barreira ao comércio bilateral.
— Por enquanto, o que vemos são problemas considerados normais. Por exemplo, de 500 caminhões que passam do Brasil para a Argentina, ontem (anteontem) havia apenas oito parados na fronteira, devido a problemas burocráticos, como a falta de determinado documento — disse Barral.
Junto com a secretária-executiva da Câmara de Comércio Exterior, Lytha Spíndola, Welber Barral divulgou um balanço da área de defesa comercial do governo. O resultado não surpreendeu. Do total de medidas aplicadas pelo Brasil contra práticas desleais, a China está em primeiro lugar, com 25 casos, seguida por Estados Unidos (8) e Índia (5).
— A China é, no mundo, o país mais investigado em termos de comércio e a principal razão para isso são os preços baixos. Já os EUA são nosso segundo maior parceiro comercial e, quanto mais intenso o intercâmbio, maior o número de contenciosos — explicou.
Brasil está na mira dos países vizinhos
Outro dado é que, enquanto o Brasil arquivou quase todos os processos abertos contra a Argentina, os vizinhos abriram, somente no ano passado, dez investigações envolvendo produtos brasileiros. São exemplos talheres de aço inoxidável, fios de acrílico, pneus de bicicletas e tintas para impressão.
Segundo Barral, a explicação para essa diferença é que a pauta de exportações brasileiras para a Argentina é mais diversificada que a de importações daquele país.
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