O Globo (RJ)
Taxa média subiu para 41,1% ao ano, influenciada por alta na Selic. Atraso em pagamentos recuou para 6,8%
Patrícia Duarte
BRASÍLIA. A queda da inadimplência não evitou que os juros praticados pelo sistema financeiro continuassem em alta. A taxa média cobrada das famílias passou de 41% para 41,1% ao ano em abril, movimento que se acentuou em maio, informou ontem o Banco Central (BC). Até o último dia 13, subiu para 41,6%. Para as empresas, o cenário se repete, com os juros médios cobrados estáveis em 26,3% em abril, mas já em 26,8% na primeira metade deste mês.
A retomada do aumento da Taxa Selic em abril — quando o Comitê de Política Monetária elevou os juros básicos de 8,75% para 9,50% ao ano — contribuiu para o ajuste. Isso porque influencia o custo de captação atual e dos próximos meses dos bancos e sua expectativa sobre a evolução futura da inadimplência.
Além disso, o BC avalia que pode estar havendo um incremento, no momento, das operações em modalidades de crédito mais caras, como cheque especial e cartão de crédito. A taxa média de juros é fortemente influenciada pelo volume.
BC vê procura maior por linhas de crédito mais caras
Para o chefe do departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, o mercado de juros no país mostra hoje apenas uma “pequena elevação”: — Houve uma procura pelas modalidades mais caras — afirmou Lopes.
O aposentado Geraldo Guimarães, de 67 anos, desistiu de tomar um financiamento quando consultou a taxa de juros. Já endividado, ele foi ontem a uma financeira do Centro do Rio em busca de um novo empréstimo: — O corretor calculou que, se eu pegasse R$ 5 mil emprestados, pagaria quase o dobro no final das prestações. Desisti.
Não dá nem para tentar em outra financeira, os juros são abusivos em todas. O funcionário me disse que seriam juros de 12% ao ano. Já estou com a corda na garganta, não posso me enforcar ainda mais.
Pelo sexto mês seguido, houve queda n inadimplência (atraso de pagamento superior a 90 dias), que chegou em abril a 6,8% para o consumidor final, ainda muito longe do patamar mínimo, de 5% do total emprestado, atingido em janeiro de 2001.
Já os spreads — diferença entre quanto o dinheiro custa para os bancos e quanto as instituições cobram do tomador final — para pessoas físicas caíram, passando de 29,7 para 29,5 pontos percentuais em abril, o menor patamar histórico. Na prévia de maio, permaneciam no mesmo nível.
— Temos ainda mais espaço para reduções na inadimplência — ponderou Lopes.
O mercado, porém, é cético.
O economista da consultoria Tendências Alexandre Andrade lembra que o movimento da Selic é de alta até o fim do ano (a média dos analistas prevê taxa a 11,75% em dezembro), o que acaba alimentando as incertezas dos bancos sobre a inadimplência, uma vez que os empréstimos vão ficando cada vez mais caros. Quando sobe o risco de calote, aumentam os spreads.
— Num contexto de aumento de juros, é normal que haja incertezas nas condições de pagamento das pessoas. Esse movimento de redução dos spreads deve ser revertido até meados do ano — afirmou Andrade.
Taxa do cheque especial subiu para 161,3% ao ano
Por conta dos juros altos, o auxiliar de escritório Luís Fernando de Castro, de 33 anos, não conseguiu se livrar de uma dívida de R$ 300 no cartão de crédito. Ele tentou parcelar em três vezes, mas o total pago chegaria a quase R$ 400: — Os juros são abusivos.
Não sei o que fazer.
Segundo o BC, a taxa de juros média do cheque especial foi a que mais cresceu em abril, passando de 160,3% para 161,3% ao ano, enquanto os juros do crédito direto ao consumidor (CDC) para bens duráveis caíram 0,5 ponto percentual, para 49,7%. Já os juros médios cobrados nos empréstimos consignados, com desconto em folha de pagamento, atingiram o piso histórico, de 26,9% ao ano, em abril.
Lopes, do BC, lembrou que as recentes medidas tomadas para regular o desconto em folha — que cria uma senha para os aposentados do setor público, a fim de evitar que extrapolem o valor da parcela do salário (30%) que pode ficar comprometida — podem frear um pouco a expansão da modalidade.
— Mas ainda há espaço para crescer na esfera privada — acrescentou ele.
O volume de crédito consignado, em abril sobre março, teve expansão de 2,3% no setor público, chegando a 4,7% no segmento privado. Já o volume de crédito total do país fechou o mês passado em R$ 1,468 trilhão, com crescimento de 1,1% no mês. Este número equivale a 45,2% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país ao longo de um ano).
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