Valor Economico (SP)
Trabalho: Sindicatos criticam medidas de austeridade, mas acham improvável que elas sejam revertidas
Marcos de Moura e Souza, de São Paulo
Um misto de revolta e resignação. É assim que trabalhadores e sindicatos europeus estão reagindo aos cortes de gastos que diversos governos vêm anunciando nas últimas semanas para tentar reequilibrar suas economias.
Os gregos já organizaram três paralisações para protestar contra o pacote de austeridade; a principal central sindical da Espanha ameaçou na semana passada com uma convocação de greve geral; e ontem centenas de milhares de franceses saíram às ruas em diversas cidades do país.
"Os governos estão fazendo uma coisa muito arriscada, repetindo o que predecessores fizeram e repetindo o que presidente [Herbert] Hoover fez em 1931", disse ao Valor John Monks, secretário- geral da Confederação Europeia Sindical (Etuc, em inglês), de Bruxelas. O fantasma do ex-presidente americano (1929-1933) - criticado por medidas de austeridade no período da Grande Depressão - ressurge agora, segundo Monks, com o risco de minar renda e emprego.
Monks disse que a confederação planeja reunir em junho líderes sindicais de diversos países da Europa que integram da direção executiva da entidade. Fundada em 1973, a Etuc diz congregar 82 centrais sindicais em 36 países europeus. "Todos estamos sofrendo as mesmas pressões e o que vamos debater é se poderemos fazer algo conjuntamente."
Por enquanto, avalia Monks, "há um sentimento de resignação em alguns dos países do norte da Europa" pelo fato de os governos estarem implementando pacotes que dificilmente serão revertidos, mesmo com protestos e greves.
Além disso, as medidas de austeridade, continua Monks, fazem com que trabalhadores se sintam "fartos, deprimidos e bravos".
Em países como Grécia, Portugal, Itália, Reino Unido e França esse descontentamento vem se traduzindo em greves e protestos, em alguns casos, e críticas e ameaças de paralisação, em outros.
Na Espanha, a maior central sindical do país a Comisiones Obreras (CCOO) já convocou uma greve de servidores públicos para 8 de junho, ao lado da UGT, a segunda maior confederação de sindicatos espanhóis.
Numa carta enviada no dia 14 ao presidente Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, Monks disse que "os cortes que estão sendo aplicados são pró-cíclicos, deflacionários e vão aumentar o desemprego. O setor privado ainda está fragilizado e não conseguirá fornecer um crescimento compensatório. As conquistas sociais estão sendo minadas à medida que os cortes começam a atingir os salários, as aposentadorias, os gastos públicos e as condições trabalhistas".
Monks reclama que de modo geral os governos ignoraram entidades sociais e sindicais da Europa na elaboração de seus pacotes para conter seus déficits fiscais.
Um dos efeitos colaterais que mais preocupam as organizações de trabalhadores europeus é o desemprego. A taxa em alguns países está em 10%; em outros, como na Espanha, chega a 20%. Para Monks, os governos erram agora em reduzir gastos, congelar salários e alterar regras de aposentadoria.
"A Grécia, por exemplo, precisa ser encorajada a crescer. Acho que a UE deve dar algum tipo de ajuda financeira para uma mudança de direção do rumo das economias da Grécia, Espanha e Portugal", diz o líder sindical. "O que acho que é importante é que a UE ajude mais do que penalize esses países. No momento, a Grécia está submetida ao poder colonial de Bruxelas, ou Frankfurt ou Washington. E com outros países poderá ocorrer o mesmo."
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