Valor Economico (SP)
Relações externas: Cúpula com latinos vai enfatizar apoio a reforma em sistema financeiro global
Assis Moreira, de Genebra
A União Europeia (UE) se comprometerá com a América Latina a apoiar uma reforma global que dê mais voz e mais voto para os países emergentes nas instituições financeiras internacionais, conforme o "draft" ao qual o Valor teve acesso da declaração conjunta da Cúpula UE-América Latina e Caribe, na semana que vem em Madri.
Também numa carta ontem aos 27 países do bloco comunitário, o presidente da Comissão Europeia, José Durão Barroso, listou como prioritário alcançar "progressos substanciais" na reunião de líderes do G-20 em Toronto, em junho, para um "acordo ambicioso" sobre a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) ser concluido em novembro na Coreia do Sul.
O problema é quando se entrar nos detalhes sobre a disposição europeia. Aceitar dar voz e voto é uma coisa, mas aceitar perdê-los é outra. E Bélgica, Holanda e outros super-representados no FMI não dão sinais de abrir mão de seu poder em favor dos sub-representados, como o Brasil - pelo menos não ainda. Em todo caso, hoje é a UE, combalida pela crise do endividamento público, que recorre ao FMI e suas condicionalidades, enquanto a América Latina se saiu melhor da crise global.
A declaração conjunta dos 60 chefes de Estado e de governo da UE e da América Latina-Caribe reafirma o compromisso das duas regiões de lutar por reformas da arquitetura financeira e regulatória para garantir a estabilidade e solvência do sistema financeiro.
Mas o documento não cita outra grande prioridade dos europeus: a adoção de uma taxa global sobre as instituições financeiras para ajudar a prevenir crises no futuro. Barroso, e também o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, certamente enfatizarão o tema na conversa terça-feira em Madri.
Em sua carta aos países-membros da UE, Barroso insiste na necessidade de o G-20 chegar rapidamente a um acordo sobre regras de mais exigência de capital dos bancos, princípios de remuneração dos executivos e a taxa sobre os bancos. Insiste que a própria UE está pronta a acelerar o ritmo das medidas até 2012 e que "devemos levar nossos parceiros a fazer o mesmo" - ou seja, países que participam do G-20, como Brasil, Argentina e México.
A declaração dos líderes em Madri dará ênfase também ao reforço das relações econômicas UE-América Latina, através do relançamento da negociação do acordo de livre comércio da UE com o Mercosul, a possível conclusão do acordo comercial com a América Central, a confirmação política do acordo com o Peru e a Colômbia, além de sinalização para futuro acordo com o Caribe e ampliação dos entendimentos com México e Chile.
Outro tema da conversa entre os líderes será a busca de acordo global de combate à mudança climática, que voltará a ser negociado em Cancún (México) proximamente. Os europeus voltam a falar em aumentar seu compromisso de corte das emissões de gases de efeito estufa, de 20% para 30%, depois de terem se sentido "escanteados" em Estocolmo. No esboço de declaração conjunta, as duas regiões planejam se comprometer com um acordo "ambicioso" para manter a elevação da temperatura global abaixo de 2 graus centígrados.
No entanto, essa parte do texto continua sendo negociado por causa de diferenças dentro da América Latina. Cuba, República Dominicana, as ilhas do Caribe e outros apoiadores, como Bolívia, insistem em comprometimentos de controle maior da temperatura.
O terceiro grande tema será sobre a cooperação, e aí o Haiti estará no centro, inclusive por articulação do Brasil. Os europeus costumam reiterar que são os maiores doadores para o Haiti. A questão agora, porém, é que a crise do endividamento dos governos na Europa ameaça cortar a ajuda ao desenvolvimento dos países pobres.
Na declaração conjunta, a UE se compromete a alcançar o objetivo de dar 0,56% da renda nacional bruta para a ajuda ao desenvolvimento e chegar a 0,70% em 2015. Mas a Espanha anunciou corte de € 600 milhões em ajuda e deve continuar a destinar só 0,47% para os pobres, em todo caso superior aos atuais 0,42% da média europeia.
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