12.5.10

Crise agora é política

12 de maio de 2010

O Globo (RJ)

Detalhes de socorro dividem países europeus. Obama quer solução rápida

De El País e New York Times* WASHINGTON, BERLIM e BRUXELAS

Um dia após a euforia dos mercados com o anúncio do pacote de C 750 bilhões (quase US$ 1 trilhão) para evitar que a crise fiscal grega se espalhe pela Europa, as indefinições e divergências entre as nações do bloco, agora no campo político, voltaram a inquietar os mercados.

A Alemanha definiu ontem sua participação no esforço, reservando C 123 bilhões (cerca de US$ 160 bilhões) para o fundo de garantias de C 440 bilhões do plano. Autoridades da União Europeia (UE) pressionaram a França para que fizesse o mesmo. Por outro lado, numa declaração que foi considerada uma gafe diplomática, o ministro de Finanças do Reino Unido, Alistair Darling, disse que seu país não pretende “subsidiar o euro”. Já o governo dos EUA ao mesmo tempo que endossou seu apoio à UE, também pressionou os líderes europeus para que atuem com rapidez dentro do plano definido no último domingo.

O presidente Barack Obama conversou ontem o presidente de Governo da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, e com a chanceler alemã, Angela Merkel, que enfrenta forte resistência interna à participação da Alemanha no esforço. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, Obama disse que apoia as ações europeias, mas recomendou rapidez nas medidas para salvaguardar a confiança dos mercados e estabilizar a situação.

Alemanha pode ter que adotar cortes de gastos


A participação da Alemanha no pacote, embora já definida, ainda terá que ser apreciada pelo Legislativo do país. Ontem, os sociais democratas do SPD, da oposição, disseram que ainda não decidiram se vão apoiar ou não o aporte alemão no esforço da UE.

Líderes do partido disseram temer que a Alemanha acabe arcando com a maior parte da conta. O governo de Merkel está sob forte critica da imprensa conservadora alemã, que vê a ajuda à Grécia e demais países em dificuldade como um peso para os contribuintes alemães.

Thomas Oppermann, parlamentar do SPD, disse numa entrevista à TV alemã que o pacote ainda deixa muitas questões sem resposta.

Essas questões, acrescentou, terão que ser debatidas no Parlamento.

— O que acontecerá se outros países que receberem ajuda do pacote saírem fora? — indagou ele. — A participação da Alemanha vai aumentar? No pior cenário, os alemães podem acabar arcando sozinhos com os C 440 bilhões. Depois da crise do Lehman, depois da crise grega, estamos pela terceira vez tendo que aprovar um pacote que provavelmente sairá na conta do contribuinte alemão.

Outros parlamentares alertaram ainda que a participação de C 123 bilhões aprovada ontem pelo governo exigirá cortes radicais de gastos para equilibrar a situação fiscal da Alemanha. Esses cortes, que podem afetar programas sociais, também servem de munição para a oposição.


Reino Unido é acusado de ‘falta de visão’


Já o Reino Unido foi acusado por outros países da UE de “falta de visão” por ter se recusado participar do rateio para compor o pacote aprovado no domingo. Mais do que a ausência britânica, pesou o comentário do ministro de Finanças, Alistair Darling, que, numa entrevista à BBC na segunda-feira, afirmou que a participação financeira do acerto ficaria “inteiramente a cargo ao grupo de países da zona do euro” e que o Reino Unido não iria “subsidiar o euro”.

Jean-Pierre Jouyet, presidente da Bolsa de Paris e ex-ministro de Assuntos Europeus na gestão de Nicolas Sarkozy, sugeriu que o Reino Unido é quem poderá precisar de ajuda de seus vizinhos continentais para lidar com a crise relacionada ao seu alto déficit fiscal.

— Os britânicos certamente serão alvos (dos mercados) por causa das dificuldades políticas que enfrentam — disse Jouyet.

O ministro de Finanças da Suécia, Anders Borg, lembrou que uma maior deterioração das economias da zona do euro também afetaria o Reino Unido.

— Londres está bastante vulnerável a essas crises fiscais porque Londres é o centro financeiro da Europa — disse Borg.

Os EUA também estão preocupados com um possível contágio da crise europeia, justamente num momento em que o país dá sinais de recuperação do colapso global de 2008.

Ontem, uma autoridade sênior do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) alertou que o caos na zona do euro representa uma ameaça à economia americana.

— Os cenários potenciais na Europa podem afetar o crescimento americano — disse Jeffrey Lacker, presidente do Fed de Richmond.

— Ainda não está certo de que terá um impacto, mas (a crise) tem esse potencial.

* com agências internacionais

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