Estado de Minas (MG)
ENTRADA LIBERADA
Dólar desvalorizado abre espaço para negócios que trazem de fora desde mercadorias a partir de R$ 1 a têxteis e eletrodomésticos. Em 4 anos, número de empresas na atividade cresceu 35%
Zulmira Furbino
O Brasil se transformou no paraíso dos importadores. A valorização do câmbio, ou seja, o aumento do valor do real frente ao dólar, deixa os exportadores de manufaturas acuados e amplia o espaço para a importação. Entre 31 de dezembro de 2005 e o mês passado, a moeda americana acumula desvalorização de 34,06% frente à brasileira. Só este ano, a desvalorização chega a 25,10%. Dados da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB) ilustram a disparidade que essa situação provoca no país. O Brasil tinha, até outubro, 18.815 empresas exportadoras ante 31.527 importadoras. Em dezembro de 2008, eram 20.408 exportadoras no país. Em menos de um ano, portanto, 1.593 deixaram a atividade.
A quantidade de exportadores vem caindo há quatro anos e a de importadores só aumenta. Em 2005, havia 1,2 importadora para cada exportadora no país. Hoje, levando-se em conta os números divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio exterior (Mdic), essa proporção aumentou para 1,7. De 2005 para cá, o número de exportadores cresceu 3% ante um salto de 34,7% no total de importadores. “O problema é que a estatística do governo para a exportação está inflada com cerca de 3 mil empresas que vendiam ao exterior via correio e por isso foram consideradas exportadoras. Até exportador de queijo via correio está sendo computado oficialmente”, sustenta o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro. Isso quer dizer que, retirando da conta esses exportadores de fundo de quintal, o número de empresas brasileiras dedicadas à atividade cairia para 15.198 até setembro deste ano. Isso representa um recuo de 24% no total de exportadores brasileiros num período em que os importadores fazem a festa.
Lúcio Costa, presidente da Suggar, fabricante de eletrodomésticos, nunca escondeu sua empolgação desde que descobriu que comprar eletrodomésticos na China e trazê-los para o Brasil – devidamente identificados com a marca da Suggar – era uma saída perfeita para aumentar sua capacidade de competir com os concorrentes. E o melhor: ainda dava lucro. Em 2009, a Suggar está completando o seu terceiro ano como importadora. “No primeiro ano, nosso faturamento aumentou em R$ 70 milhões. No segundo, em R$ 174 milhões e este ano em R$ 220 milhões. Somando com a fabricação própria, chegaremos a R$ 500 milhões”, comemora. Hoje, há 75 mix de produtos da Suggar. Apenas nove deles produzidos no Brasil. Os outros 66 são importados.
Thaís e Henrique Dufflles são irmãos. Ela, psicóloga. Ele, professor de educação física. Desempregados durante seis meses, os dois resolveram montar um negócio: uma loja de produtos com preços a partir de R$ 1 no Hipercentro de Belo Horizonte, aberta há uma semana, para aproveitar a maré das vendas do Natal. O pai deles, sócio-investidor, vendeu um apartamento na Serra, Zona Sul de Belo Horizonte, para capitalizar o negócio, no qual boa parte dos produtos vendidos são importados da China. O investimento gira em torno de R$ 100 mil e o retorno é esperado em 18 meses. “Fizemos um estudo de mercado e chegamos à conclusão de que valia a pena”, diz Thaís. Assim como os dois irmãos, muitos outros empreendedores brasileiros resolveram apostar suas fichas na importação.
Mas a situação dos exportadores é desanimadora. Principalmente levando-se em consideração que uma das metas do Plano de Desenvolvimento da Produção (PDP), lançado com pompa e circunstância pelo governo federal em maio de 2008 – na presença de 11 ministros –, era aumentar em 10% o número de empresas exportadoras. Júnior César da Silva, fabricante de calçados em Nova Serrana, chegou a exportar um terço de sua produção. Hoje, esse número não passa de 5%. As exportações foram iniciadas no município em 1999. No auge da atividade, em 2006, a venda de calçados brasileiros para o exterior chegou a US$ 12 milhões. Hoje, esse volume caiu para US$ 3 milhões. Em 2006, um calçado fabricado em Nova Serrana custava US$ 6 no mercado internacional e competia praticamente de igual para igual com um chinês, que valia US$ 5,50. Agora, o produto nacional custa US$ 14 e o chinês, em torno de US$ 7. “Isso fez muita gente perder mercado”, conclui o empresário.
Um negócio imperdível
O empresário Lúcio Costa, dono da Suggar, estava no Rio de Janeiro, quando lhe ofereceram a Faet, fabricante de eletrodomésticos portáteis como liquidificadores, batedeiras, secadores e ventiladores, com sede no Rio de Janeiro, por R$ 1. Isso ocorreu há cerca de 15 anos, quando a empresa tinha uma dívida enorme com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Lúcio não quis fechar negócio e, a se levar em conta a reviravolta que a Faet conseguiu promover em suas contas, tem motivos para ter se arrependido. “Hoje , a Faet fatura cerca de R$ 400 milhões ao ano”, conta uma fonte do setor que pediu para não ser identificada. A guinada só foi possível, segundo essa mesma fonte, porque, como ocorreu com a Suggar, a Faet também descobriu as maravilhas que o dólar desvalorizado frente ao real poderia fazer pela sua saúde financeira.
O mesmo começa a ocorrer com a Colortêxtil, fabricante de malhas com unidades em Belo Horizonte, Itabirito, na Região Central de Minas, e uma no Sergipe. Flávio Roscoe, presidente da empresa, diz que há muitos anos importa produtos básicos. Este semestre, porém, partiu para a importação do produto acabado. “Não tinha como competir”, justifica. “Estamos fazendo um teste. Dando tudo certo, já estamos montando uma importadora.” Se não houver problemas com a importação da malha pronta, a Colortêxtil deixará de gerar cerca de 80 empregos diretos no Brasil. Antes, quando a matéria-prima passou a ser importada, a fábrica demitiu 100 pessoas e passou a operar somente com parte da capacidade instalada. “É claro que o Brasil está virando o paraíso dos importadores”, atesta.
Frederico Martini, dono da Domus Importação e Exportação, especializada em operacionalizar esse tipo de negócio, surfa nessa tendência. Fundada há oito anos, a empresa está em crescimento constante, mas a importação sempre foi o carro-chefe. Este ano, 78% do faturamento de R$ 3 milhões será proveniente de importações. “Todo mundo quer ser importador”, diz o consultor de negócios internacionais da Federação da Indústria do Estado de Minas gerais (Fiemg), Alexandre Brito. Ele tem razão, mas quem descobriu o filão há mais tempo já tem resultados consolidados.
É o caso da Hudson Imports Company, distribuidora de artigos importados para casa e realizadora do Bazar Hudson, que acontece três vezes ao ano no Bairro Jardim Canadá, em Nova Lima. “Importar é muito fácil e existe um grande interesse do público por artigos vindos de fora”, explica a diretora comercial da empresa, Luciana Chagas de Assumpção Faria. A empresa vem crescendo em média 15% desde que foi fundada e aposta que as vendas deste fim de ano serão boas. “O dólar tem impacto direto nos preços dos produtos que comercializamos”, afirma. Só o faturamento do bazar, que a cada edição tem duração de três dias, responde por 21 dias de receita da distribuidora. “Passam por lá de 6 mil a 7 mil pessoas. É extremamente lucrativo”, diz Luciana. Ela comemora a escolha acertada feita quando o presidente Fernando Collor de Mello promoveu a abertura do mercado brasileiro. “Começamos com dois funcionários. Hoje são 32 pessoas diretamente envolvidas, além de 42 representantes no Brasil.”
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