O Globo (RJ)
No Brasil, esforço para cortar emissões de carbono deve criar 1,13% a mais de vagas anuais nos próximos 20 anos
Vivian Oswald
BRASÍLIA. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê a criação de pelo menos 20 milhões de empregos verdes — aqueles que contribuem para a proteção do meio ambiente — até 2030 em todo o mundo. Desse total, 12 milhões serão na indústria de bioenergia, onde o Brasil é um dos protagonistas.
No caso brasileiro, os esforços para reduzir em 20% as emissões de carbono nos próximos 20 anos podem gerar 1,13% empregos a mais anualmente.
O emprego verde já é responsável por 2,65 milhões de postos de trabalho no país e vai continuar crescendo nos próximos anos. É praticamente o mesmo número de funcionários do setor da construção civil, o maior empregador do mercado de trabalho brasileiro.
— A economia brasileira não vai se desestruturar se continuar gerando empregos verdes — disse Paulo Sérgio Muçouçah, autor do estudo “Empregos Verdes no Brasil: quantos são? Onde estão? Como evoluirão nos próximos anos?”, apresentado ontem no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), e coordenador de Empregos Verdes e Trabalho Decente do Escritório da OIT no Brasil.
Segundo o relatório, o rápido aumento do interesse por energias alternativas terá um impacto significativo na criação de empregos verdes. O resultado econômico dessas mudanças será um mercado global de serviços e produtos verdes de cerca de US$ 2,74 bilhões em 2020.
Segundo o estudo, a expansão da oferta de emprego verde no Brasil foi relativamente pequena nos últimos três anos, porém constante. Foram 6,77% a mais de postos de trabalho em 2008, acima do percentual de aumento dos empregos convencionais, de 4,88%. Por isso, subiu para 6,73% a participação dos empregos verdes no total de vagas formais.
Setor de cana de açúcar deve demitir com mecanização São consideradas atividades verdes a produção e manejo florestal, geração e distribuição de energias renováveis, saneamento, gestão de resíduos e de riscos ambientais, manutenção, reparação e recuperação de produtos e materiais, transportes coletivos e alternativos ao rodoviário e ao aeroviário, além de telecomunicações e teleatendimento.
O estudo sugere ainda que o cultivo de cana de açúcar, um dos maiores empregadores do setor agrícola brasileiro, deverá pagar um alto preço para se adaptar às práticas verdes. Estimase que nos próximos três anos 90% da colheita serão feitos de forma mecanizada, o que reduziria o número de cortadores de cana dos atuais 180 mil para 70 mil. A mecanização é a alternativa às queimadas no setor.
Em virtude da tendência de mecanização da sua colheita, cerca de 50% da cana produzida na safra de 2008 no estado de São Paulo já foram feitos de forma mecanizada.
A adaptação do setor, segundo a OIT, vai elevar os custos de produção das usinas e a necessidade de investimentos para a compra de equipamentos. Cada máquina, segundo o organismo, substitui cerca de 80 trabalhadores no corte de cana e permite um aproveitamento melhor da matéria-prima, inclusive para a geração de energia elétrica a partir da queima da palha residual em uma etapa posterior.
O estudo diz que uma pequena parte dos trabalhadores que perderão o emprego poderá ser absorvida em novas ocupações dentro do próprio setor.
“Nem mesmo a expansão da produção de etanol para outras regiões, como os estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, parece ter condições de absorver todo este contingente de trabalhadores”, diz o documento.
Depois dos tributos verdes criados pelo governo federal para estimular as atividades com baixas emissões de carbono, a OIT recomenda a adoção de uma série de medidas para estimular a criação de empregos verdes. Entre elas, a inclusão nos financiamentos do programa Minha Casa, Minha Vida de equipamentos destinados a reduzir o consumo de energia e de água nesses edifícios. Entre eles estão sistemas de aquecimento solar, lâmpadas econômicas, medidores individuais de água e gás, dispositivos que economizam água e o plantio de árvores.
A OIT também defende a criação de um sistema para recolher velhos aparelhos eletrodomésticos descartados pela população. A troca se daria no momento em que o consumidor estivesse comprando máquinas novas.
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