14.12.09

Buffett viu o abismo no ano de investir perigosamente

14 de dezembro de 2009

Valor Economico (SP)

Scott Patterson, The Wall Street Journal

Warren Buffett acredita que seus melhores negócios durante a maior crise da economia americana desde o Crash de 1929 podem ter sido os que ele não realizou.

Buffett fechou a porta a uma oportunidade atrás da outra durante o período mais tenebroso de sua longa carreira. Esse impulso, diz ele, o deixou com o poder de fogo financeiro de que ele precisava no mês passado para concretizar a maior transação de sua carreira - a aquisição da empresa ferroviária Burlington Northern Santa Fe Corp. pela Berkshire Hathaway Inc. por US$ 26,3 bilhões.

Numa série de entrevistas ao Wall Street Journal, Buffett fez seu mais completo relato de suas negociações, incluindo ansiosos telefonemas que recebeu de empresas em dificuldades como Freddie Mac, Wachovia Corp. e Morgan Stanley.

"Comprei minha primeira ação em 1942, e essa montanha-russa foi pior do que qualquer coisa que já vi", diz o investidor americano, de 79 anos. "Não fizemos todas as coisas sagazes que poderíamos. Não fizemos nada realmente idiota."

Em 28 de março de 2009, Buffett, o presidente do conselho da Berkshire, recebeu um telefonema de Richard Fuld, então diretor-presidente do Lehman Brothers Holdings Inc. Fuld queria saber se Buffett injetaria US$ 4 bilhões no banco de investimento para estancar suas perdas.

Naquela noite, em seu escritório em Omaha, no Estado de Nebraska, Buffett examinou o relatório anual do Lehman. Na capa, anotava os números das páginas em que achava informações preocupantes. Quando terminou, a capa estava repleta de números. Resolveu não investir.

Seis meses depois, o Lehman quebrou.

"Todo mundo estava atrás de dinheiro naquela época", lembra Buffett.

Ele não disse não a todos. Investiu US$ 5 bilhões no Goldman Sachs Group Inc. e US$ 3 bilhões na General Electric Co. Mas para os acionistas da Berkshire talvez a grande história sejam os negócios que ele deixou passar.

"Não acho que Buffett receba o devido crédito por todas as jogadas que deixa de fazer", diz Paul Howard, analista da Janney Montgomery Scott. "Ele recebe muitas oportunidades."

Alguns investidores ousaram fechar grandes acordos durante a turbulência do mercado, mas foi pior para eles. A TPG, uma das maiores firmas de private equity do mundo, perdeu US$ 1,35 bilhão comprando o banco Washington Mutual Inc. No fim de 2007, investidores de Abu Dhabi despejaram bilhões no Citigroup Inc., cujas ações desabaram.

Este relato dos acordos que Buffett não quis realizar durante a crise foi montado a partir de entrevistas com ele e representantes de algumas empresas que o abordaram.

Os pedidos de socorro financeiro começaram em 15 de março de 2008, um sábado. Buffett recebeu uma ligação na sede da Berkshire de J. Christopher Flowers, conhecido investidor de private equity. Flowers e uma equipe de banqueiros tentavam costurar na última hora a compra do Bear Stearns & Co., o combalido banco de investimentos.

Depois de ouvir a proposta por uns dez minutos, Buffett disse que não estava interessado. No dia seguinte, o J.P. Morgan Chase & Co. fechou acordo para comprar o Bear.

Duas semanas depois, Buffett rejeitou o pedido de Fuld, do Lehman. Fuld não respondeu a pedidos de entrevista.

Enquanto o mercado imobiliário piorava, empresas oneradas por títulos garantidos por hipotecas começavam a cambalear. Pouco depois, os banqueiros do Morgan Stanley que representavam a Freddie Mac, a gigante americana das hipotecas, contactaram Buffett propondo um investimento. Ele achou que os problemas da Freddie Mac eram graves demais. "Disse não rapidinho àquele pedido", lembra.

O Departmento do Tesouro, que é o ministério da fazenda dos Estados Unidos, assumiu depois o controle da Freddie e de sua empresa-irmã, a Fannie Mae. Um porta-voz da Freddie não quis comentar o pedido a Buffett.

Buffett lembra de setembro de 2008, quando a crise financeira ganhou força, como um dos meses mais agitados de sua carreira. Tudo começou com um pedido de Robert Steel, que passara recentemente a ocupar a presidência executiva do Wachovia Corp. Ele queria um investimento de até US$ 10 bilhões. Buffett, que achava que o Wachovia tinha mergulhado irresponsavelmente no mercado de hipotecas de alto risco durante o boom imobiliário, disse não ao pedido de Steel.

O Wachovia terminou comprado na bacia das almas pelo Wells Fargo & Co., do qual a Berkshire é acionista. Um porta-voz do Wachovia não quis comentar.

Em 12 de setembro, Robert Willumstad, então diretor-presidente da seguradora American International Group Inc., telefonou a Buffett pedindo um investimento de uns US$ 5 bilhões.

Buffett diz que sabia muito bem que a AIG precisava de recursos rapidamente. "Não perca tempo comigo", lembra-se de ter dito ao diretor-presidente da AIG.

Willumstad lembra que Buffett "basicamente disse que a empresa era complicada demais".

Mas Buffett concordou em estudar uma oferta por parte dos ativos de seguro patrimonial da AIG. Na mesma noite, Willumstad ligou novamente. "E a empresa inteira?", lembra-se de ter perguntado a Buffett, se referindo à divisão patrimonial inteira da AIG. Ele pediu US$ 25 bilhões.

Buffett disse que ia estudar as informações sobre o acordo. Rapidamente concluiu que era grande demais. A Berkshire teria de tomar muito dinheiro emprestado, o que poderia ameaçar sua cobiçada nota de crédito "AAA".

No dia seguinte, Buffett voou para Edmonton, no Canadá, para um show de caridade com Seal e Paul Anka para famílias de crianças que precisam de transplantes. Por volta das 18h, recebeu uma ligação em seu hotel do presidente do conselho do Barclays PLC, Robert Diamond Jr., e seu assessor Michael Klein, ex-banqueiro do Citigroup Inc. Os banqueiros tentavam fechar um acordo de última hora para comprar o Lehman, que estava à beira da concordata.

As autoridades britânicas não aprovariam tamanha aquisição sem o aval dos acionistas, disseram eles a Buffett, o que poderia levar vários dias ou mesmo semanas.

As autoridades temiam que as contrapartes do Lehman fossem entrar em pânico e se recusar a fazer negócio com o banco. Será que Buffett garantiria as posições do Lehman, por uma comissão, até o voto dos acionistas?

Buffett precisava sair para o show. Pediu aos banqueiros que lhe enviassem um fax com os detalhes do acordo. Quando voltou ao hotel, por volta da meia-noite, não encontrou nenhum fax, e o acordo morreu.

Klein tinha deixado um recado no celular de Buffett. Mas como o investidor não usa muito o celular, não ficou sabendo da mensagem.

Ele diz que só a ouviu dez meses depois, quando sua filha, Susan Buffett, a descobriu. Ele não quis discutir o teor do recado de Klein e disse apenas que ouvi-lo naquela noite não teria gerado um acordo. Diamond e Klein não responderam a pedidos para que comentassem.

No mesmo fim de semana do show, outro acordo com a AIG estava em gestão. O executivo Ajit Jain, que comanda a divisão de resseguro da Berkshire, negociou com um grupo de investidores liderado por Flowers e a Kohlberg Kravis Roberts & Co., a gigante nova-iorquina de private equity. Eles tentavam montar um acordo para propiciar resseguro a algumas operações da AIG, algo que aliviaria um pouco os problemas de falta de capital da seguradora.

No domingo, já em Omaha, Buffett achou que era provável que o acordo fosse concretizado e foi jantar no Happy Hollow Club, um country club local, com o co-fundador do Google Sergey Brin e sua mulher, Anne. Ele esperava poder revisar os termos do acordo depois disso. Mas o acordo foi por água abaixo porque os problemas financeiros da AIG eram graves e complexos demais. Naquela mesma semana, o governo americano anunciou um pacote de US$ 85 bilhões para resgatar a AIG.

A partir daí, Buffett começou a se preocupar com a integridade do sistema financeiro inteiro. Em seus telefonemas, Buffett, normalmente loquaz, parecia menos tagalera e até soava tenso, segundo uma pessoa que conversava habitualmente com ele na época.

As ações dos bancos de investimento Morgan Stanley e Goldman Sachs estavam caindo, por temores de que seriam os próximos a quebrar. O mercado de commercial papers, que ajuda a financiar as operações cotidianas das empresas americanas, estava congelando. Em 16 de setembro, o Reserve Primary Fund, importante fundo de renda fixa, revelou que sofrera grandes perdas, em parte devido às aplicações em commercial papers do Lehman.

Se o mercado de commercial papers fechasse completamente, mais empresas importantes do setor financeiro e talvez até gigantes como a GE poderiam ir à bancarrota, diz Buffett, "porque seus cheques não seriam compensados". Isso causaria pânico nos fundos de renda fixa do país, que tinham patrimônio de uns US$ 3,5 trilhões, porque alguns deles tinham commercial papers. O caos que resultaria disso, concluiu Buffett, poderia quebrar os mercados financeiros mundiais e ameaçar a Berkshire.

"Achei que a situação era algo que nunca tinha visto antes, e o público e o Congresso americano não entendiam completamente

a gravidade" dos problemas,lembra. "Pensei: estamos realmente diante do abismo."

Numa festa de aniversário para uma abastado amigo de Omanha naquele mesmo mês, vários participantes perguntaram a Buffett se os fundos de renda fixa estavam seguros. Ele achou as perguntas preocupantes, porque sugeriam temores disseminados sobre a segurança de fundos há muito considerados invulneráveis.

"Quando pessoas que dirigem um Rolls-Royce se preocupam com seus cofrinhos, é óbvio que há um problema", diz ele.

Mas à medida que o governo entrou em ação, lembra Buffett, ele sentiu-se mais confiante de que a crise seria resolvida.

No fim de setembro, Buffett decidiu atacar. O Goldman Sachs precisava de capital. O banco já tinha feito várias ofertas a ele. Nenhuma o atraiu. Mas ele continuava aberto a novas ofertas, em parte porque conhecia as operações do Goldman, já que trabalhou com o banco muitos anos em vários negócios. Em 23 de setembro, Buffett deu sua cartada.

A Berkshire comprou US$ 5 bilhões em ações preferenciais da Goldman com dividendo anual de 10%, assim como warrants para comprar US$ 5 bilhões de ações a US$ 115 cada. Agora as ações estão em US$ 165.

Pouco depois, Buffett aceitou comprar US$ 3 bilhões em ações preferenciais da GE com dividendo anual de 10%. Ele também ganhou o direito de comprar US$ 3 bilhões em ações ordinárias da GE a US$ 22,25. A ação da GE está agora em torno de US$ 16.

Buffett se arrepende de algumas decisões que tomou durante a crise financeira. Ele diz que se esperasse até março de 2009 para investir seu capital, quando o mercado chegou ao fundo do poço, talvez tivesse faturado alto.

"Cometi muitos erros", diz. "Não maximizei as oportunidades oferecidas pelo caos. Mas, no fim, acho que deu tudo certo."



The Wall Street Journal Americas

Nenhum comentário: