Com 98% da apuração, Sebastián Piñera tinha 44% no 1º turno do pleito presidencial, selando inédita derrota da Concertação em 20 anos
Ex-presidente Eduardo Frei somava 29,6% dos votos e agora busca unir a esquerda para manter a coalizão governista na Presidência
THIAGO GUIMARÃES
ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO
O empresário Sebastián Piñera, 60, venceu ontem o primeiro turno da eleição presidencial no Chile, levando a direita no país à sua primeira vitória nesse pleito desde 1958.
Com 98,32% das mesas apuradas, Piñera tinha 44,03% dos votos, ante 29,62% do governista e ex-presidente Eduardo Frei (1994-1999), 67. Ambos dissidentes governistas, o independente Marco Enríquez-Ominami, 36, tinha 20,12%, e o comunista Jorge Arrate, 6,21%
O resultado impõe a primeira derrota presidencial em 20 anos à Concertação, aliança de centro-esquerda que consolidou a democracia chilena pós-ditadura Augusto Pinochet (1973-1990) mediante exitosa combinação de liberalismo econômico e políticas sociais.
A definição ficará para 17 de janeiro, em segundo turno em que Frei buscará unir a esquerda -dividida em três na primeira etapa- contra Piñera, o homem mais rico do Chile.
Mais do que prevista, a nova votação era antecipada até pela presidente Michelle Bachelet, após votar em colégio em Las Condes, a região mais rica de Santiago. "Todos sabemos que vai haver segundo turno."
Em frente ao colégio, um exemplo de como Bachelet não logrou transferir sua aprovação -que beira os 80%- a Frei. Eleitor da socialista em 2005, o engenheiro Ricardo Oliva, 69, votou ontem em Arrate, 68, egresso da Concertação. "É o único voto puro de esquerda."
A falta de renovação da Concertação -exposta na candidatura de um ex-presidente- pesou para dividir a esquerda, com candidaturas dissidentes do comunista Arrate e do independente Ominami. Aliada ao desgaste de 20 anos no poder, desenhou o cenário para a vitória da direita, unida no pleito.
Também explica o resultado o perfil adotado por Piñera, que explorou agenda liberal ao defender ideias como união civil homossexual e distribuição da pílula do dia seguinte.
A tranquilidade das eleições, com baixo registro de incidentes, denota consensos econômicos e sociais alcançados pela sociedade chilena, expressos também na campanha, que não opôs modelos antagônicos.
Mas, para o segundo turno, se projetava ontem cenário de maior confronto, com aposta da Concertação em temas como direitos humanos e a crítica a Piñera pela ligação entre negócios e política. "Não cremos que a força do mercado e do dinheiro deva primar numa sociedade", disse Frei ao votar.
Após o resultado, o ex-presidente fez mea-culpa e convocou eleitores de Arrate e Ominami. "Escutei a exigência de mudança." Piñera também acenou ao eleitorado de Ominami. ""Me identifico com a vitalidade e franqueza de Marco."
Ominami deixou seus eleitores em liberdade de ação e disse que "por agora" estará fora da Presidência. Disse que Frei e Piñera "são mais passado do que futuro", mas centrou críticas no empresário ao dizer que sua eleição seria um retrocesso.
Com Piñera dentro da votação histórica da direita no Chile, e Frei com maior margem para crescer, fica praticamente zerada a disputa que poderá levar a direita ao poder pela primeira vez em 20 anos no Chile.
Nenhum comentário:
Postar um comentário