Valor Economico (SP)
De São Paulo
O cenário favorável à indústria brasileira para 2010 traz embutido um grande desafio a ser vencido, que é a apreciação do real. Há o risco de que uma parcela considerável dessa expansão de demanda seja desviada para o exterior, com aumento das importações.
"A excessiva valorização cambial é o principal obstáculo à construção de um novo ciclo de crescimento econômico no Brasil sustentado na demanda doméstica, via aumento de consumo e de investimentos", avalia Fernando Sarti, professor do Instituto de Economia/Unicamp, na apresentação que faz hoje no seminário "Perspectivas do Investimento no Brasil: Indústria, Infraestrutura e Economia do Conhecimento", em São Paulo. Segundo Sarti, experiências recentes mostram que a forte valorização cambial vivenciada pela economia brasileira desde 2003 reduziu os efeitos de encadeamento intraindustrial e da indústria com a economia.
"Nosso temor é o seguinte: a economia brasileira deve voltar a crescer com os investimentos previstos para infraestrutura, para extração de petróleo e gás na camada do pré-sal, para a construção civil e também para aumentar a capacidade produtiva local. Mas se a oferta de bens e serviços vier do exterior, a indústria brasileira pode perder uma oportunidade histórica de engendrar um padrão de desenvolvimento próprio, de gerar mais emprego e de criar um mercado doméstico forte. Trata-se de uma decisão estratégica que temos que enfrentar", afirma Sarti.
Para José Ricardo Roriz Coelho, diretor do departamento de competitividade e tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a valorização cambial funcionou muito bem no período da estabilização da economia, tendo um papel preponderante para que Brasil pudesse manter a inflação sobre controle. "Mas hoje é um dos mecanismos de competitividade de vários países que concorrem conosco. E o Brasil foi um dos países que mais valorizou o câmbio depois da crise econômica, isso tirou a competitividade do mercado brasileiro de exportação e aumentou as nossas importações. É um problema muito sério que temos que atacar."
O obstáculo do câmbio é importante, assim como o custo do dinheiro e a tributação, mas isso não diz tudo, analisa o professor Fernando Sarti. "É preciso pensar em outros instrumentos que possam aumentar a capacidade competitiva da indústria brasileira", sustenta. "Se o câmbio não está ajudando, podemos aumentar nossa capacidade de escala, capacitar mais empresas e grupos nacionais para enfrentar a concorrência internacional", diz ele, citando como exemplo a compra das Casas Bahia pelo Grupo Pão de Açúcar.
"Esse processo de consolidação no grande varejo poderia reforçar a inserção comercial lá fora de pequenas e médias empresas em setores pouco exportadores, como as indústrias de alimentos, bebidas, têxtil, vestuário, calçados e de insumos básicos. Ou seja, a consolidação pode ser um instrumento estratégico para ampliar a capacidade produtiva das indústrias e fortalecer nossa competitividade no plano externo", afirma. (G.C.)
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