9.12.09

Crescimento ou bolha

09 de dezembro de 2009

Jornal do Brasil (RJ)

Gilberto Braga
PROFESSOR DE FINANÇAS DO IBMEC-RJ

Em setembro de 2008, ocorreu o epicentro do terremoto econômico, que, a partir dos problemas com o crédito imobiliário dos Estados Unidos, se transformou numa crise global sem precedentes desde 1929. Muitos pessimistas vaticinaram que o capitalismo tinha acabo e o mundo e os países não seriam mais iguais. Passado pouco mais de um ano, contando com a decisiva ajuda de ações econômicas governamentais de estímulo e desoneração tributária, o mundo já dá sinais de recuperação e alguns mercados internacionais já ensaiam uma pequena recuperação.

A economia brasileira não fugiu a essa tônica, com redução a do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e medidas de liberação do crédito bancário, o consumo interno cresceu e, de forma diferente das demais economias líderes e em desenvolvimento, o Brasil sofreu menos do que as nações com as quais usualmente é comparado e com quem têm as suas mais importantes rotas de comércio externo. Apoiado na sua confortável situação macroeconômica, a economia brasileira resistiu com a utilização de sua capacidade instalada e pode compensar e amenizar as perdas do setor exportador com a derrocada geral das commodities.

Devemos encerrar o ano de 2009 com um modestíssimo crescimento do PIB, ao redor de meio ponto percentual. Ou seja, foi um ano neutro sob a luneta do crescimento, em que todo o esforço ficou concentrado em atenuar os efeitos da crise econômica internacional. Essa média, no entanto, é relativamente enganosa, uma vez que no início do ano tivemos perdas no PIB, que estão sendo compensadas por altos ganhos no produto econômico nesse final de ano. Isolando-se a análise no último trimestre de 2009 é possível observar que a locomotiva do crescimento já partiu e que o trem da economia está nos trilhos.

Passado pouco mais de um ano do fatídico olho do furacão da crise, um novo e acalorado debate divide as atenções dos especialistas. Os apocalípticos defensores do fim do capitalismo fincam pé de que o mundo e, em particular, o Brasil, vivem uma bolha econômica. Trata-se de uma metáfora com a inocente bolha de sabão da infância, em que é possível infla-la um bom tempo, de tal forma que ela cresça e até que, sem consistência em seu conteúdo, estoure e a brincadeira acabe. Já os defensores da posição contrária vêm no momento atual as raízes de um novo período de crescimento sustentado da economia brasileira e que não se pode subestimar a capacidade do governo de lançar mão de medidas corretivas e estímulo.

O debate é dos bons e pode consumir muitos chopes, junto com a justa comemoração pelo hexacampeonato do Flamengo, sem que um grupo convença o outro. Sem querer me omitir e nem pender de forma inequívoca para um dos lados, a discussão pode ser sistematizada.

Um novo episódio de proporções internacionais certamente atingirá a econômica brasileira, razão pela qual o mercado trabalha com um olho fixo nos indicadores da economia dos Estados Unidos. No front interno, o problema está no esgotamento da capacidade instalada da indústria. O consumo está aquecido e o Natal de 2009 será um sucesso de vendas, sem que muitos segmentos consigam atender a todos os pedidos.

Perdemos um ano lutando contra a crise e agora que a consumo respondeu, temos limitações para expandir a oferta e atender a toda a demanda potencial.

O governo concedeu desonerações tributárias, estimulou as compras e agora que estamos pressionados com a falta de capacidade de produção, fixa-se um protocolo de retirada gradual das medidas adotadas.

Do ponto de vista conjuntural tudo faz sentido, mas do ponto de vista estrutural estamos perdendo uma oportunidade histórica de fazer reformas necessárias na economia.

Tudo o que está acontecendo evidencia como a carga tributária é anacrônica e injusta. O governo que diminuiu o IPI de diversos itens, em vez de perder os recursos anunciados, ganhou arrecadação com o crescimento das vendas. Trocou uma maior tributação individual por um ganho no aumento da receita com uma quantidade de vendas muito maior. Entre muitos chopes gelados, discutir se estamos num período de crescimento econômico ou de bolha de consumo não é o mais importante, a discussão que vale a pena é da Reforma Tributária. Só não se discute a felicidade da nação rubra negra e a justiça do seu título nacional.

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