2.12.09

Indústria do aço encolhe nos EUA

02 de dezembro de 2009

Valor Economico (SP)

Robert Guy Matthews, The Wall Street Journal, de Hennepin, EUA

Sem muito alarde, a indústria siderúrgica americana está encolhendo.

As usinas que sobreviveram à liquidação e trocaram de mãos no decorrer de várias recessões estão fechando as portas, numa tentativa de criar uma indústria menor e mais eficiente. A ArcerlorMittal, que comprou alguns anos atrás uma siderúrgica americana com várias usinas, lidera essa tendência e acredita que pode produzir mais com menos nos Estados Unidos usando um número reduzido de usinas e aproveitando mais a capacidade.

Outras siderúrgicas paralisaram fábricas ou cortaram a produção, mas não fecharam definitivamente nenhuma fábrica. A siderúrgica russa Evraz Inc. informou este mês que ainda não tem data certa para reabrir sua fábrica de tubos em Portland, no Estado do Oregon, paralisada desde julho. A U.S. Steel anunciou no mês passado que ia paralisar duas fornalhas em suas usinas nos Estados de Illinois e Indiana para manutenção, principalmente, mas as fornalhas poderiam seguir paralisadas ainda mais tempo por causa da queda sazonal na demanda. Outra empresa russa, a Severstal, paralisou sua usina em Warren, Ohio, e cortou a produção em algumas de suas maiores operações nos EUA.

A producão americana de aço aumentou em relação a um ano atrás, mas continua longe de robusta. No sábado passado, as usinas do país operavam a 63% da capacidade, em comparação com 51% no mesmo ponto de 2008.

Siderúrgicas com operações americanas, como a U.S. Steel, a ArcelorMittal e a Nucor Corp., começaram a ver uma recuperação de suas ações e perspectivas de vendas, com muitos analistas achando que os estoques caíram o suficiente para provocar uma retomada das compras a partir do ano que vem.

O diretor-presidente da Arcelor, Lakshmi Mittal, diz que os EUA não oferecem crescimento suficiente e o investimento da empresa vai se focar nos países emergentes. Mittal disse que a siderúrgica, que tem sede em Luxemburgo e é a maior do mundo, pode cortar produção permanentemente nos EUA e ainda assim manter a participação do mercado. Entre os cortes que planeja estão a usina em Lackawana, Estado de Nova York, que já foi da falecida Bethlehem Steel, e a usina de Hennepin, Illinois, que já foi da LTV Corp., siderúrgica liquidada e cujos ativos foram comprados pelo investidor nova-iorquino Wilbur Ross.

O fechamento da usina pegou de surpresa metalúrgicos que sobreviveram a várias crises. Aqui em Hennepin, cidade rural com 750 habitantes, os trabalhadores tinham aprovado um novo acordo trabalhista poucas semanas antes de a empresa anunciar o fechamento. Depois do anúncio, eles tentaram encontrar algum comprador e impedir a ArcelorMittal de remover os equipamentos. Também acionaram o sindicato United Steelworkers, que auxiliou os trabalhadores num recurso malsucedido contra a decisão. O próprio sindicato estava numa posição delicada, tentando preservar os empregos de uma usina maior da Arcelor que iria absorver a produção da Hennepin.

Nos últimos quatro meses, dezenas de metalúrgicos demitidos têm feito piquete diante dos portões lacrados da usina, com cartazes que perguntam "Por que fechar a gente, nós geramos dinheiro para você". A única esperança deles - reconhecidamente tênue - é que a Arcelor ceda à pressão da vigília e reabra a usina, ou que a demanda suba o suficiente para forçá-la a fazer isso. Eles não conseguem entender por que uma usina produtiva e lucrativa - alegação que a Arcelor não contesta - deveria ser fechada. "Se esta usina não estivesse ganhando dinheiro, você não ouviria nenhuma reclamação minha", diz Ken Chambers, que trabalhou lá 42 anos. "Mas nós demos lucro e isso aí é simplesmente ganância."

A ArcelorMittal nega que a decisão seja motivada por ganância. A empresa afirma que está aumentando a eficiência e não pode continuar operando uma usina com tanta capacidade ociosa nas atuais condições econômicas. A Hennepin operou ano passado em média a 50% da capacidade. "Neste cenário, não podemos sustentar operações periféricas como a Hennepin e, portanto, tomamos a difícil decisão de fechar a usina", informou a empresa.

Os metalúrgicos demitidos recebem 80% do salário-base durante os primeiros seis meses após a demissão, 60% no semestre seguinte e 40% durante o segundo ano inteiro. Eles também continuam com algum tipo de plano de saúde, em média por 30 meses, e alguns benefícios da aposentadoria por dois anos. Eles ganham ainda a chance de trabalhar em outra fábrica da ArcelorMittal se houver uma vaga e forem qualificados para ocupá-la.

Até o momento, há poucas opções em siderurgia ou com outros empregadores locais. A usina, mesmo com uns 240 metalúrgicos, era a maior empregadora da área e as outras grande empresas locais, como uma fabricante de máquinas e uma usina elétrica, não estão contratando. A consequência disso é que a maioria dos empregados demitidos ainda não encontrou um novo emprego. Eles não querem se mudar e deixar para trás suas propriedades e o estilo de vida rural.

A Arcelor informou que o fechamento não está relacionado aos trabalhadores ou sua produtividade. Em vez disso, ela reflete sua nova estratégia. Mittal disse que a empresa está tentando se reconfigurar para que metade de sua produção venha de países em desenvolvimento. Atualmente 40% vêm desses países.

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