Correio Braziliense
Brasil S/A :: Antonio Machado
PIB cresce 6,1% em 2010, diz Bradesco. Emprego será recorde, renda aumenta e deficit externo explode
Já não há mais dúvidas, menos de um ano depois do sobressalto dos mercados globais e do apagão econômico que veio a seguir, que hoje no Brasil o problema não é sair da recessão, fantasma que assombra ainda mais de dois terços do mundo, EUA à frente, mas administrar a taxa de crescimento. A economia pegou força, talvez até demais.
Para 2009, o crescimento projetado ainda será pífio, coisa de 0,5% acima do Produto Interno Bruto (PIB) de 2008. Desempenho ruim, mas melhor que recessão, que, na prática, foi curta, dois trimestres — e pode nem ter acontecido. Isso só se vai saber daqui a dois anos, quando o IBGE concluirá a apuração final do PIB de 2009.
Garantido é que, salvo convulsões no cenário externo, sobretudo alguma surpresa negativa na China, a economia deu a largada para 2010 cantando o pneu. Na avaliação do departamento econômico do Bradesco, o PIB do próximo ano tende a crescer 6,1%, tanto quanto em 2007, conforme o número fechado do IBGE, e mais que a taxa de 2008, 5,8%. O ajuste fino da projeção será dado pelo desempenho do PIB do terceiro trimestre a ser anunciado pelo IBGE no dia 10.
Na prévia da equipe do economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros, o PIB deve ter crescido 1,8% do 2º para o 3º trimestre, o que significa expansão anualizada de 7,6% (supondo-se que a mesma taxa se repita pelos próximos quatro trimestres). O destaque será a retomada dos investimentos, além do desempenho da indústria e do consumo, dando o sinal de que o crescimento se esprairá para 2010.
O comportamento da indústria em outubro, conforme o termômetro do IBGE, sustenta os melhores augúrios. A produção industrial, a mais atingida pela crise global — que fulminou as exportações e pegou o setor com estoques elevados —, cresceu 2,2% sobre setembro, quando o aumento chegara a 1,8%. Foi o 10º resultado mensal positivo — em linha com as análises desta coluna, que já em janeiro descartavam a gravidade da crise no Brasil. A produção industrial está agora apenas 3,2% abaixo de seu nível em outubro de 2008.
Dos 27 setores industriais pesquisados, 21 já deixaram para trás qualquer sintoma de crise. A produção acumula aumento de 19,5% em relação ao piso, registrado em dezembro, e se destaca pelo avanço do segmento de bens de capital, o sinalizador fundamental sobre a sustentabilidade do novo ciclo de expansão. Não há risco adiante.
Seguro contra riscos
Expressão do ritmo dos investimentos na economia, com o setor de construção civil, a indústria de máquinas e equipamentos — isto é, bens de capital — , cresceu 5,9% em outubro, contra 5% em setembro. Mas a produção atual ainda se encontra 16% abaixo de seu recorde, em setembro de 2008. A expansão da capacidade de oferta é garantia contra risco inflacionário e deficits severos nas contas externas, ambos decorrentes da demanda correndo muito à frente da produção.
O que virá? Pode-se apenas deduzir. A sondagem conjuntural da FGV indica para novembro nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) da indústria de 82,9%, contra 82,5% em outubro. Cresceu de um mês para o outro, mas de modo comedido. Desde agosto, a taxa de ocupação se desacelera, o que não significa que perde força.
Inflação sob controle
Na conta da consultoria LCA, a produção da indústria vai recuar 7,5% este ano em relação a 2008, e crescer 9,5% em 2010. Na conta do Bradesco, tais desempenhos farão o PIB no último trimestre vir a fechar o ano ao ritmo de 9,1% anualizados — uma grande arrancada para o resultado de 2010. A taxa de desemprego neste cenário recua para a média anual de 7,6%. A renda cresce 2,7% acima da inflação, estimada pelo Bradesco em 4,7%. Seria pouco mais que a meta anual de 4,5%, com taxa cambial média de R$ 1,70. Tudo parece ajustado.
Deficit será o vilão
Outro dado vital, a taxa de investimento, que deve cair 11% este ano, baixando de 19% em 2008 para 16,9% a sua relação sobre o PIB, em 2010, daria um salto de 20%, voltando ao nível anterior de 19%.
Na simulação do Bradesco, coerente com as do Banco Central e do BNDES, para o crescimento sustentado do PIB, ou seja, sem grandes desequilíbrios, a taxa de investimento precisa chegar a 22%, o que seria alcançado daqui a três anos. Até lá, o crescimento e as suas sequelas precisam ser administradas. A inflação não será o vilão.
O deficit em conta corrente, estimado em US$ 63 bilhões para 2010 — 3,12% do PIB —, é o dado sensível. O Bradesco prevê que o BC vai subir a Selic em abril, puxando-a de 8,75% até 12,75%, em março de 2011, com juro real de 7,5%, menor que no ciclo anterior de alta.
Para não perder o pé
A Selic descongelada não estava nos planos do pessoal de mercado, já que não se vislumbra ameaça à inflação, e o presidente Lula não iria querer nada que embace a campanha da ministra Dilma Rousseff.
Com a economia crescendo em ritmo chinês, o panorama é outro. As importações vão aumentar mais que as exportações, e isso até pela retomada do investimento, grande demandante de bens importados.
Importante é que os juros não abortem o crescimento, o que exige grande controle fiscal pelo novo governo. Com um BC menos ativista que no passado, em 2010 e um governo mais espartano que o atual em 2011, o PIB não se abala. O Bradesco prevê alta de 4% para 2011.
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