1.2.10

"Temi por corrida contra o dólar", diz Henry Paulson

01 de fevereiro de 2010

Folha de S.Paulo (SP)

Ex-secretário do Tesouro diz que movimento, que não ocorreu, seria catastrófico

Em livro que está lançando, Paulson conta que governo analisou promover a fusão de grandes bancos como Goldman Sachs e Citigroup

DO "FINANCIAL TIMES"

Henry Paulson temia que houvesse uma "corrida" contra o dólar (venda maciça da moeda americana, o que derrubaria seu valor) durante a fase inicial do agravamento da crise financeira, quando as preocupações globais estavam voltadas para os EUA, diz o ex-secretário do Tesouro americano.
"Era uma preocupação real", conta Paulson às vésperas do lançamento do seu livro, "On the Brink" ("No Limite", em tradução livre). Para ele, o colapso do dólar seria "catastrófico". "Tudo que poderia ocorrer de ruim não ocorreu. Nunca tivemos a grande fuga do dólar."
Quando a crise ganhou tamanho e se tornou global com a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, o dólar se valorizou -mas Paulson tinha que enfrentar a tempestade de fracassos financeiros.
Ele temia que o Goldman Sachs e o Morgan Stanley fossem quebrar, junto com Washington Mutual e Wachovia.
O presidente do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, disse a Paulson que a instituição seria a "próxima" se os especuladores fossem bem-sucedidos na tentativa de derrubar o Morgan Stanley, segundo o secretário do Tesouro do governo Bush de 2006 a 2009 e que havia sido o antecessor de Blankfein à frente do Goldman Sachs.
O governo dos EUA explorou a possibilidade de fusão entre JPMorgan e Morgan Stanley, Goldman Sachs e Citigroup ou Goldman e Wachovia, mas optaram por tornar Morgan Stanley e Goldman Sachs bancos de varejo (eram bancos de investimento), o que lhes garantiu acesso a empréstimos do Fed (o BC dos EUA).
"Os bancos estavam sendo abatidos como moscas", disse. Como seu livro relata, Paulson lutava desesperadamente para que o Congresso aprovasse o Tarp (plano de ajuda aos bancos de US$ 700 bilhões).
Paulson afirmou que o momento da virada na crise ocorreu quando -já contando com o Tarp- os membros do G7 anunciaram, em 10 de outubro de 2008, intervenções amplas para garantir financiamento e acesso a capital aos bancos.
Três dias depois, ele pressionou as nove maiores instituições financeiras do país a aceitar US$ 125 bilhões em dinheiro do Tarp. "Acredito que esse foi o momento determinante."
Antes daquela semana, ele afirmou: "Estávamos sempre correndo atrás. Havia sempre algo maior do que a gente".
Ele disse esperar que seu livro transmita "o ritmo no qual as coisas estavam andando e o número de decisões que tiveram que ser tomadas em um espaço muito curto de tempo".
Paulson disse que ficou surpreso com a veemência da reação pública contra o resgate aos bancos. Afirma estar frustrado que as pessoas não prestem mais atenção aos desastres que foram evitados com ações feitas na hora certa, como quando os EUA assumiram o controle das gigantes de hipoteca Fannie Mae e Freddie Mac.
Em vez disso, a maior parte do debate se concentra no fracasso de impedir o colapso do Lehman e na decisão de resgatar a seguradora AIG.
Olhando para trás, Paulson está confiante de que, apesar das críticas, as grandes decisões foram as certas. "Esse revisionismo não entende o ponto central: tomamos as medidas importantes que impediram o sistema de entrar em colapso."

No livro, ex-secretário se defende e relata até gafe de Sarah Palin


JANAINA LAGE
DE NOVA YORK

Caso o governo americano não tivesse socorrido os bancos de Wall Street, o desemprego teria atingido a marca dos 25%, afirmou o ex-secretário do Tesouro Henry Paulson em entrevista à rede de TV CBS.
A entrevista fez parte da campanha de lançamento do livro "On the Brink", em que ele defende as operações de socorro e conta sua versão dos momentos cruciais da ação do governo durante a explosão da crise, em setembro de 2008.
Paulson classifica a taxa atual de desemprego, de 10%, como "o melhor resultado possível". A criação de vagas está hoje no topo da agenda doméstica do presidente Barack Obama, que viu sua popularidade cair à medida que a taxa avançava para um patamar de dois dígitos.
"Acredito que, se o sistema tivesse entrado em colapso, nós poderíamos facilmente ter visto uma taxa de desemprego de 25%. Penso que nós estivemos muito, muito perto disso", afirmou. Paulson elogia a atuação do governo Obama, mas avalia que é necessário um sistema regulatório melhor.
No livro, Paulson conta que manteve contato diversas vezes por telefone com o então senador Obama, candidato da oposição à Presidência, e diz ter ficado impressionado com ele. O mesmo entusiasmo não se repete quando narra o encontro com o republicano John McCain. Segundo Paulson, ele tinha pouco a dizer após ouvir a descrição das ações tomadas pelo governo George W. Bush.
Mas, na lista de desafetos políticos, a ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, ganha menção especial. Logo ao iniciar a ligação, ela chamou o ex-secretário de Hank (seu apelido), em vez de Henry, antes mesmo de se conhecerem. Ele diz ter se sentido desconfortável e afirma ter dúvidas de que ela tivesse compreendido a situação do sistema financeiro.
O livro dedica poucas páginas à carreira de Paulson em Wall Street, onde comandou o Goldman Sachs. Em compensação, conta como o relacionamento com a mulher, Wendy, o ajudou a lidar com a crise.
No período em que o Lehman Brothers se encaminhava para a falência, ele ligou para ela reconhecendo que estava com medo da situação. "Todo mundo está procurando por mim e eu não tenho a resposta." A mulher responde que ele não deveria ter medo. "Seu trabalho é refletir a mente infinita de Deus e você pode confiar Nele."

Nenhum comentário: