O Estado de S.Paulo (SP)
Declaração do presidente do BCE contribuiu para tensão no mercado
Jamil Chade, CORRESPONDENTE, GENEBRA
A União Europeia pode ter dado seu aval para o plano orçamentário da Grécia. Mas a medida não foi suficiente para conter os mercados. Ontem, um dia depois de Bruxelas praticamente colocar a economia grega sob tutela, os mercados do Velho Continente despencaram diante do temor de que uma nova crise esteja prestes a explodir: a da dívida. O euro sofreu sua pior queda em mais de sete meses e as bolsas registraram perdas acentuadas diante das dúvidas em relação à capacidade dos governos de bancarem seus gastos.
Espanha e Portugal, que são considerados os próximos alvos de incertezas, sofreram quedas de 5,9% e 5% respectivamente em suas bolsas de valores. Na Grécia, a queda foi de quase 3,3%. O euro atingiu sua taxa mais baixa em relação ao dólar desde maio de 2009.
O que mais gerou o pânico foi a declaração do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, apelando para que a Grécia adote "reformas profundas" para controlar seu déficit orçamentário. Para ele, o controle da dívida é "absolutamente crucial" para a estabilidade da zona do euro.
O mercado, acostumado com declarações diplomáticas de Trichet, não escondeu o susto diante do alerta do BCE e interpretou o discurso como um sinal de que o atual programa do governo grego não será suficiente para conter o déficit orçamentário que chega a 12,7% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para completar, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, reforçou o alerta. Para ele, os governos europeus precisam adotar medidas "dolorosas" para segurar os buracos em suas contas. Ele ainda apontou que nenhum governo deve ter a ilusão de que conseguirá escapar da crise sem pagar um alto preço.
Para evitar uma prolongação da recessão e a explosão do desemprego, governos adotaram amplos pacotes de resgate e incentivos. Agora, a constatação é de que o déficit atingiu níveis recordes.
O Fundo Monetário Internacional chegou a oferecer ajuda à Grécia. Mas insistiu que não acredita que Atenas vá declarar calote. "O governo adotou medidas necessárias mas extremamente difíceis para conter a crise", disse, em entrevista a uma rádio francesa.
Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda são apontadas como os epicentros da próxima crise. O nível das dívidas nesses países são equivalentes ou até superiores a seus próprios PIBs.
A União Europeia ordenou que todos ponham as contas em ordem até 2013.
Políticos europeus se apressaram em tentar acalmar os mercados. Jean Claude Juncker, chefe dos ministros de Finanças da zona do euro, garantiu que nem Espanha nem Portugal são ameaça para a estabilidade dos 16 países que usam a moeda comum.
Ontem, o Reino Unido manteve sua taxa de juros em 0,5%. O Banco Central Europeu também optou por manter inalterada sua taxa de juros de apenas 1%. Para o mercado, a opção dos bancos centrais reflete a falta de crescimento da economia europeia e as incertezas sobre a retomada.
PROTESTOS
Enquanto o crescimento não ocorre, governos se veem obrigados a cortar gastos sociais e aumentar impostos. O governo de Portugal já anunciou ontem que vai cortar postos de trabalho na administração pública e congelar salários.
Hoje, sindicatos de trabalhadores prometem tomar as ruas de Lisboa para protestar contra a política de corte de gastos.
Na Grécia, os planos do governo de congelamento de salários levou agentes da aduana a entrar em greve e fechar as fronteiras terrestres e dos portos do país. O abastecimento de gasolina deve ser afetado.
Já no interior, agricultores tomaram as estradas e impedem a passagem de produtos.
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