Valor Economico (SP)
Pós-recessão: Recuperação ainda é assimétrica; EUA avançam devagar, Europa patina e Japão é incógnita
David Wessel, The Wall Street Journal
A recessão mundial foi fabricada nos Estados Unidos. A recuperação está sendo feita na Ásia.
Dados da semana exemplificam bem esse contraste forte: a Tailândia informou que sua economia cresceu a um ritmo anualizado de 15,3% no quarto trimestre e Taiwan anunciou que a sua cresceu 18%. Mas a Alemanha divulgou que não cresceu no mesmo trimestre, e o único motivo por que não houve contração foi que a indústria local conseguiu aumentar as exportações para economias mais sadias.
"A contração foi muito sincronizada. Mas a recuperação? Cada vez menos", diz Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Veja a sala de recuperação da economia mundial. A primeira parada são as economias ricas e maduras: EUA, Europa e Japão. Nenhuma ainda recuperou a saúde, mas os EUA estão mais corados.
A economia americana está crescendo, graças a uma combinação de insulina (o estímulo fiscal e monetário) e açúcar (a ansiedade dos empresários de preencher estoques vazios). Pelo padrão de outras recuperações, todavia, o crescimento não é tão veloz.
Os consumidores americanos, agora mais parcimoniosos, hesitam em gastar. Os bancos não querem emprestar. As empresas não querem contratar. O governo não quer injetar mais estímulo. Mas economistas do J.P. Morgan Chase, mais otimistas que outros, preveem que o PIB americano voltará ao nível de antes da recessão em meados de 2010. Europa e Japão só devem atingir esse nível lá por 2012.
A Europa ainda parece adoentada. A recessão lá foi mais profunda, e o estímulo fiscal e monetário menos agressivo que nos EUA e na China. Suas empresas dependem mais dos bancos que as americanas, e os bancos europeus não têm sido - ou não foram forçados a se tornar - tão transparentes sobre suas perdas ou tão rápidos na hora de aumentar a reserva de capital.
E os pecadores da Europa, países que gastavam e tomavam emprestado bem mais do que podiam, estão sendo forçados à contrição: Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal. Como compartilham a moeda, o euro, e tiveram de ceder ao Banco Central Europeu a política monetária, não podem cortar a taxa de juros nem deixar a moeda desvalorizar para vitaminar as exportações. Agora sua capacidade de tomar empréstimo barato para suavizar a crise foi posta em xeque.
As únicas opções são as mais dolorosas: orçamentos austeros e cortes salariais para tornar as exportações mais atraentes. O Reino Unido pode se dar ao luxo de desvalorizar a libra esterlina, mas, como notou esta semana o presidente do BC britânico, Mervyn King, exportar para se salvar da crise depende do interesse europeu em comprar os produtos britânicos.
O Japão é o mais difícil de decifrar. Como outras economias dependentes da exportação, o país foi prejudicado quando os EUA pararam de comprar. As exportações japonesas para os EUA caíram 31% em 2009, em relação a 2008. Mas o Japão também está se beneficiando da proximidade com a China, que superou os EUA no ano passado e virou o maior destino das exportações japonesas. As vendas do país para a China em janeiro foram 80% maiores que no mesmo mês do ano passado, informou ontem o governo japonês. Essa expansão é três vezes maior que a das exportações para os EUA no mesmo período. O desempenho do Japão no quarto trimestre inspirou otimismo, mas a persistente ameaça de deflação e de paralisia política tornam seu futuro nebuloso.
A grande pergunta em relação a essas economias, apesar de tantas diferenças, é: à medida que o estímulo fiscal se esvai e se aproxima a hora em que os bancos centrais terão elevar os juros extraordinariamente baixos, será que o consumo e a demanda das empresas vão reavivar e sustentar a recuperação?
Passe agora à outra sala de recuperação, onde convalescem os mercados emergentes da Ásia. Não apenas eles já se levantaram do leito como também voltaram ao trabalho e ensaiam até umas flexões.
A China lidera a fila e mostra que uma vantagem de um governo autoritário é poder injetar doses gigantescas de estímulo rapidamente e ordenar aos bancos que emprestem. A política chinesa foi tão bem-sucedida que o BC do país está restringindo o crédito bancário para não estimular demais a economia e provocar bolhas.
Os outros países da região estão compensando um pouco do enfraquecimento das exportações aos EUA com mais vendas para a China, além de receberem um volume maior de turistas chineses. Entre as economias asiáticas, as mais ligadas à China - como Cingapura, Malásia e Cingapura - são as que cresceram mais rapidamente.
Mas os consumidores asiáticos também estão fazendo a sua parte. As vendas de automóveis na Malásia subiram 33% em janeiro, em relação a um ano atrás; as da Índia, 50%. Já nos EUA, as vendas de carros subiram só 6% em janeiro.
De fato, um marco foi alcançado sem muito alarde durante a crise. Os consumidores dos mercados emergentes, mais numerosos e prósperos do que há algumas décadas, gastaram mais que os consumidores americanos pela primeira vez na história moderna.
Os consumidores dos mercados emergentes devem responder este ano por 34% do consumo mundial, enquanto os americanos ficarão com 27%, calcula o J.P. Morgan Chase. Vinte anos atrás, a proporção era 23% e 29% respectivamente. "Não é exagero dizer que o consumidor dos mercados emergentes fez pelo mundo em 2009 o que o consumidor americano fez em 1998 [durante a crise financeira asiática]", diz o economista Bruce Kasman, do J.P. Morgan.
A Ásia não pode impulsionar sozinha o crescimento mundial. Sua economia continua depende das exportações, e isso significa que os emergentes asiáticos também acompanham atentamente a outra ala da sala de recuperação, na esperança de um renascimento do consumo e do investimento empresarial nas economias maduras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário