Folha de S.Paulo (SP)
Previsão de transição final neste ano é do presidente da Coreia do Sul e do G20
Mudança beneficia o Brasil, que tem papel de destaque nas discussões do grupo, mas enfrenta resistência de países ricos como o Japão
CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A DAVOS
A cúpula do G20 em novembro, em Seul, será "a transição final do G7 para o G20".
Palavra de Lee Myung-bak, presidente da Coreia do Sul e, neste ano, presidente também do G20, o clube das 21 maiores economias do planeta mais a União Europeia.
É uma boa notícia para o Brasil: o G20 é, por enquanto, a única instituição em que o país pode desfilar na comissão de frente dos grandes do mundo.
Na verdade, os próprios líderes do G20 já o haviam definido como "a principal instância para o debate da economia", durante a cúpula mais recente, realizada em Pittsburgh (EUA).
Mas o G7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo, resiste ao enterro. O governo japonês, por exemplo, não acha interessante trocar o exclusivo G7, no qual é o único país asiático, por um grupo maior e no qual participa a rival China.
O Canadá, o menor e menos ruidoso dos países do G7, está mais ou menos na mesma situação: se já é o menor no G7, quase desaparece no G20.
Por mera coincidência ou intencionalmente, o governo canadense, presidente de turno do G7/G8 (este inclui também a Rússia), fará, no meio do ano, duas cúpulas, em cidades diferentes. Primeiro, a do G8; depois, a do G20.
Pode dar-se o que já aconteceu em reuniões do G8 anteriores: os ricos se reuniam, discutiam o que tinham que discutir, soltavam o comunicado final e só depois chamavam os cinco países que passaram a ser convidados ao chamado G8 ampliado, entre eles o Brasil.
O presidente sul-coreano admite que "houve muita discussão sobre o alinhamento de interesses entre os países do G7 e os do G20", mas dá como certo que prevalecerá o clube maior. "Todos os países do G8 são também membros do G20, pelo que terão em mente, quando se reunirem, a posição que defenderão depois no G20, para não haver conflito de agenda", diz.
A agenda desse G20 consolidado é rica o suficiente para que Myung-bak diga que será um teste para "a moldura de cooperação internacional", que é a essência do grupo até agora.
A crise global, sincronizada, funcionou como cimento para a unidade do grupo, mas a tentação de cada país seguir seu caminho passa a ser forte, agora que a recuperação da economia se dá "em múltiplas velocidades", diz Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI.
Tome-se, por exemplo, o tema da reforma do sistema financeiro, que estará com toda a certeza na agenda das duas cúpulas do G20 neste ano. Os EUA saíram na frente com uma proposta ousada e polêmica. Strauss-Kahn apoia o pacote, mas diz que faltou coordenação com os demais países do G20.
Myung-bak, ao contrário, afirma que não acredita "em modelo tamanho único" porque cada país tem situações diferentes em seus bancos.
Outro item obrigatório da agenda é o que o jargão batiza de "estratégias de saída", ou seja, a retirada dos colossais pacotes de estímulo governamental à economia, responsáveis em grande medida pela recuperação em curso.
O Brasil, pela voz de Henrique Meirelles (BC), considera desnecessário manter os estímulos e defende que a economia volte a ter "voo normal" -sem as muletas dos pacotes.
Mas, nos demais países, não há segurança a respeito de qual é o risco maior, se sair já ou retardar a saída. Strauss-Kahn, que participa do G20 em nome do FMI, reconhece que há problemas em qualquer uma das duas decisões, mas prefere correr o risco de retardar a retirada, no que é acompanhado por Christine Lagarde, a ministra francesa da Economia.
Há mais temas complexos na agenda, suficientes para prever que as cúpulas em 2010 do G20 não serão nem plácidas, como foram, na maioria, as do G7/G8, nem fortemente solidárias como as de 2008/09.
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