Valor Economico (SP)
Luiz Sérgio Guimarães, de São Paulo
Indicadores americanos positivos sobre ampliação da renda e dos gastos dos consumidores em dezembro e o aumento da atividade industrial em janeiro provocaram uma redução no grau de aversão global a risco. Os grandes investidores diminuíram a procura por títulos referenciados em dólar e a moeda caiu mundo afora. No Brasil, foi interrompido forte movimento ascendente. Após nove dias seguidos em alta, durante os quais acumulou valorização de 6,68%, o dólar fechou ontem em queda de 1,27%, cotado a R$ 1,8610. A queda fornece um alívio aos investidores que estão efetuando o registro de derivativos de balcão e o hedge dessa posição "vendida" em dólar.
Para o economista Luiz Rogê Ferreira, especializado em derivativos, a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN), por meio da Resolução 3.833, baixada no dia 28 de janeiro, de obrigar o registro dos derivativos de balcão fechados no exterior irá ter a consequência de pressionar a cotação do dólar para cima sempre que for necessário se fazer o hedge localmente. Parte do deslocamento de alta descrito pelo dólar no final da semana passada já foi atribuída a essa busca por proteção. O especialista, diretor do site Investcerto, explica que o fato de a operação ser feita no exterior, sem registro local, não impede de o player, ao se ver ameaçado pela alta do dólar, buscar a proteção. E como faria isso? Comprando futuros de dólar, dólar à vista ou opções sobre dólar ou sobre futuro de dólar. E isso ele poderia fazer tanto nos mercados locais quanto no exterior. "Se a operação de hedge for feita aqui, irá pressionar o dólar aqui", diz Rogê.
Na hipótese de a empresa ter de fazer o registro da operação localmente, a partir de agora se terá, segundo o economista, três possibilidades: 1) operações sem registro que já possuam hedge feito fora do Brasil (trata-se do "player" mais prevenido); 2) operações sem registro que não possuam hedge; 3) novas operações. No primeiro caso, como o player será obrigado a registrar a operação, é possível que queira fazer o mesmo com seu hedge, para dar transparência total às suas operações frente aos acionistas locais, às autoridades, aos concorrentes e às agências de risco. Então, provavelmente iria desfazer o hedge lá fora e o faria de novo aqui dentro, pressionando de alguma forma a cotação do dólar, do futuro, ou das opções sobre dólar. "Não acredito que este possa ser o caso de grandes empresas internacionalizadas como uma Vale ou uma Petrobras, por exemplo. Elas têm suas operações monitoradas internacionalmente e suas operações são alvo da atenção e do controle do mercado global, sujeitas às normas do lugar onde instalaram subsidiárias", observa Rogê Ferreira.
No segundo caso, se o "player" não tinha hedge e pretende constituí-lo, provavelmente vai optar por fazê-lo aqui, já que foi obrigado a registrar a operação domesticamente, com a exceção feita às empresas internacionalizadas. No terceiro caso, deve acontecer idêntico procedimento, ou seja, a escolha do hedge deve recair sobre o mercado local, para ter o registro e o hedge em bloco, em um só lugar, de novo com a exceção feita às empresas internacionalizadas.
Para os operadores de câmbio será muito difícil detectar o volume e quantidade de hedge que está sendo fechado para atender à exigência do CMN. Na verdade, só com cruzamento de informações entre Cetip, BM&F (swaps, futuros, opções, posições vendidas a descoberto em opções de dólar) e posições à vista registradas no Banco Central se poderia pensar em ter mais transparência do que está sendo feito. Para mostrar como é complicada a tarefa, os operadores lembram que nem o BC teve condições de detectar o perigo dos derivativos depois que a crise de 2008 empurrou a moeda para R$ 2,40.
O propósito das operações de hedge é de neutralizar o risco e a exposição a movimentos de preços do dólar. Depois que o dólar pulou de R$ 1,7670 no dia 18 de janeiro para R$ 1,8850 no final do mês, as empresas vendidas em derivativos de balcão se sentiram ameaçadas e resolveram recorrer ao hedge. Este pode ser feito via futuros. Trata-se do que o mercado chama de "hedge português". É o hedge simétrico , que apenas trava a situação no pé em que está no momento em que é feito. E há o hedge tido como o mais inteligente, assimétrico, feito com opções. Rogê Ferreira explica que como as operações e a exposição já existem, então cabe aos tomadores em câmbio "travar" suas perdas incorridas até o momento, fazendo swaps cambiais (ativados no dólar), comprando futuro de dólar, opções de dólar ou, em última instância, caso desejem sair do risco cambial, adquirir dólar à vista
No entender do diretor-executivo da NGO Câmbio, Sidnei Nehme, a decisão do governo de obrigar o registro dos derivativos foi "corretíssima". Com a medida, raciocina o economista, o governo "procura eliminar as operações de gaveta que encobrem especulações e exposições elevadas a risco por parte de empresas". A perda de atratividade do real como moeda para especulação e a total transparência determinada pelo BC para as operações com derivativos envolvendo moedas estrangeiras, irão, na opinião de Nehme, contribuir para "um preço mais justo e equilibrado da moeda americana no mercado brasileiro".
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