Jornal do Brasil (RJ)
Primeiro Caderno
NÃO DEIXA DE SER CURIOSO QUE enquanto o Brasil, na última quinta-feira, comemorava a taxa de desemprego de 6,8%, registrada em dezembro, a mais baixa desde 2002, quando o IBGE iniciou a série estatística, o governante do país mais rico do mundo acabava de anunciar, na véspera, que a maior prioridade de sua administração em 2010 será a geração de postos de trabalho.
Em seu aguardado primeiro discurso sobre o Estado da União, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, lembrava que o pior da tempestade – a grave crise econômica que o país enfrentou e levou de roldão o resto do mundo – já passou. Mas ainda resta o cenário de devastação. O principal a reconstruir, afirmou Obama, é a retomada do patamar de emprego. Hoje, um em cada 10 americanos está à procura de trabalho.
Essa é uma das principais razões para a queda de popularidade do presidente americano. Depois de aparecer como um fenômeno eleitoral, Obama tem, segundo as pesquisas, apenas 50% de aprovação, o que faz dele o segundo mais mal avaliado presidente dos Estados Unidos ao fim do primeiro ano de governo. Para quem chegou carregando tantas esperanças, é uma perda vertiginosa de prestígio. Vale lembrar, contudo, que apesar de todo o alvoroço e a impressão de uma eleição arrasadora, a vitória sobre o republicano John McCain foi bem menos folgada do que se esperava.
Parte da culpa desta atual impopularidade é do próprio Obama. Outra parte não, já que ele herdou da administração desastrosa de George W. Bush um país mobilizado em duas frentes de batalha desgastantes, no Iraque e no Afeganistão, e a crise financeira, a maior desde o crack da Bolsa de Nova York, em 1929, que fez americanos perderem não só seus empregos, como suas residências. Em seu discurso, repleto de referências a histórias e conversas que travou pessoalmente com cidadãos comuns em vários estados do país, Obama citou a pergunta de uma criança, como a expressão da angústia de uma nação: “Por que eu tenho que sair da minha própria casa?”.
Mas a herança maldita do governo Bush não incluiu só os efeitos imediatos da crise que caiu no colo do sucessor, mas também todo um arcabouço viciado de instituições e regras do sistema financeiro. É esse mercado desregulado, em que grandes bancos pegam o dinheiro do cidadão e do poupador comum para jogá-lo num arriscado cassino, que Obama tem – mais corajosamente do que demagogicamente – tentado coibir. Por causa disso, dessa disposição de enfrentar interesses poderosos, incrustrados no establishment de Washington e seus lobistas, o presidente enfrenta resistências cujas fontes primárias estão nos setores mais conservadores da sociedade americana. São as mesmas forças que impedem a aprovação de sua ousada reforma do sistema de saúde, algo inspirado e que aproximaria os Estados Unidos de um modelo de Estado de bem-estar social, tipicamente europeu e de influência socialista.
Em virtude destes movimentos de oposição e de uma desconexão com os eleitores, admitida como falha pelo próprio presidente, Obama perdeu as rédeas curtas que tinha da situação.
No primeiro ano, sua obrigação foi salvar os bancos da quebradeira. Neste segundo, o desafio será devolver à população os 7 milhões de empregos perdidos na crise.
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