Apesar da elevada dívida e da fragilidade política, especialistas afirmam que o país sairá da situação atual e que não há razões para tanto pessimismo dos mercados
A Itália tomou o lugar da Grécia no centro das atenções dos investidores, e as bolsas passaram a oscilar de acordo com os ventos que sopram de lá. No último pregão, as quedas foram expressivas em mercados acionários de todo o mundo, diante das incertezas em relação ao futuro do país. Para economistas, entretanto, apesar dos problemas italianos, com destaque para a elevada dívida, a economia é sólida e o país não deverá terminar em default (calote).
Na quarta-feira, a alta dos juros dos títulos da dívida soberana da Itália e as preocupações com o futuro político do país assombraram os mercados financeiros globais. O principal índice de Milão perdeu 3,78%. O aumento dos juros pagos pelos papéis significa que o risco é maior, e é consequência de um movimento de venda. “Tecnicamente, isso significa um maior risco de default, mas se olharmos os fundamentos do país, observa-se que a Itália não vai quebrar,” diz Ricardo Torrres, professor de finanças da Brazilian Business School (BBS).
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Em Roma, na Itália, homem lê jornal com manchete sobre promessa de renúncia de Silvio Berlusconi
“O que acontece é que os rumores são espalhados de tal forma que a profecia, algumas vezes, acaba se autorrelizando. Mas a Itália tem condições de sobra para sair dessa situação,” diz Torres, ainda que afirme que os problemas da Itália não se resumam ao alto endividamento.
A Itália tem uma dívida de 120% do Produto Interno Bruto (PIB, que são as riquezas geradas pelo país). Embora seja um volume grande, de cerca de 1,9 trilhão de euros, segundo o Banco da Itália, a maior parte – cerca de 90% - está nas mãos dos próprios italianos, o que facilita o refinanciamento.
“Assim, na próxima vez que a dívida da Itália tiver que ser refinanciada, o governo pode contar com um conjunto de investidores nacionais, o que países como a Grécia e Portugal, não podem,” diz Salvatore Cantale, professor de finanças do instituto de estudos de negócios suiço IMD Business School.
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Banca D'Itália, o banco central italiano: apesar de dívida de 120% do PIB, economistas não acreditam em calote
Em relação à dívida italiana que está fora do país, os economistas destacam que a liquidez é grande, o que é um outro ponto favorável, pois os detentores sabem que podem vender ou comprar a qualquer momento. Os títulos da Itália são os terceiros mais líquidos do mundo, atrás apenas dos norte-americanos e japoneses, segundo Antonio Carlos Alves dos Santos, coordenador do curso de Economia Internacional da PUC-SP.
Entre os pontos positivos da economia italiana que devem ajudar o país a enfrentar sua pesada dívida, os economistas destacam também um forte sentimento de nação entre os cidadãos, além do baixo endividamento das famílias e da existência de uma classe média rica no país.
“A Itália é um exportador líquido, é coeso no sentimento de nação, 94% das famílias têm casas próprias, sem financiamentos. O povo italiano não tem a dívida dos norte-americanos,” diz Torres.
Além dos fatores econômicos que devem permitir que a economia italiana fique saudável, os economistas também acreditam que os demais países europeus farão de tudo para evitar um eventual calote italiano. “Isso não é porque a Itália tem amigos na zona do euro. Mas sim porque se a Itália quebrar, muitos bancos na zona do euro também vão quebrar,” diz Cantale, do IMD.
Munida desses bons fundamentos, a Itália deverá superar o problema da dívida, suas consequencias e outras questões que devem alimentar discussões e provocar sentimentos de incertezas nos próximos meses, na opinião dos economistas.
Um dos problemas é a perspectiva de menor crescimento econômico do país, segundo o economista da PUC. “Se a economia cresce, tudo bem, pois a divida tende a diminuir em relação ao PIB. Mas este não é o caso. Com as medidas de austeridade, o crescimento deve cair e a recuperação tende a ser mais lenta,” diz o economista.
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Consumidores italianos são pouco endividados e 94% das famílias têm casa própria, diz economista
Ainda assim, o Banco da Itália afirmou na última semana ter como garantir o pagamento de uma dívida a um juro de 8% durante os próximos dois anos, mesmo com um cenário de estagnação da economia do país.
Outra ponto negativo da economia italiana é o baixo índice de produtividade quando comparado à Alemanha e aos Estados Unidos, comenta Santos. A situação mais crítica é o nordeste do país, no entorno de Veneza. No entanto, diz o economista, o país tem alguns grandes grupos fortíssimos, como a Fiat, e diversos grupos familiares em boa situação.
A fragilidade política é outro aspecto negativo e, em um momento como o atual, que a Itália está no centro das atenções globais, estes problemas vem à tona, segundo os economistas.
“O Estado é lerdo e ineficiente, o sistema político não é moderno e a corrupção é problemática,” diz Alves. As expectativas em torno da promessa de saída do primeiro-ministro Silvio Berlusconiacabam tornando o cenário ainda mais tenso. “Qualquer país sem cabeça fica um tumulto,” diz Torres.
Mas a solução virá quando a próxima liderança do país for formada, na visão do economista da BBS. “Até que o Berlusconi saia e que outro governo esteja pronto e indique que continuará cortando gastos, o mercado vai seguir com uma alta volatilidade,” acrescenta.
Espanha e França
Assim que a nuvem de preocupações e rumores em torno da Itália passsar, é provável que outro país europeu entre em cena. Na opinião dos economistas, podem ser a Espanha e a França.
“Passada a Grécia, dois países poderiam ser a bola da vez. O primeiro foi a Itália, que tem uma política ineficiente e uma divida alta. O alvo vai passar pela Espanha e, em seguida, será França, cujas preocupações serão relacionadas com o sistema financeiro ou então de uma forma mais geral para a economia do país,” diz Torres.
Ele afirma que a França tem diversos bancos com grande exposição aos título gregos e que pode perder sua classificação de “AAA”, que significa um alto grau de confiança para investimentos. Além disso, o presidente Nicolas Sarkozy enviou ontem ao parlamento seu plano de austeridade, o que também deverá ser fonte de preocupações, acrescenta o especialista.
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