Valor Economico (SP)
De Volta: Custo projetado de resgate de dívidas cai para apenas uma fração
Deborah Solomon, The Wall Street Journal
O socorro do governo americano a empresas e mercados financeiros cambaleantes começa a parecer bem menos caro ou duradouro do que se temia.
À medida que empresas que pareciam zumbis alguns meses atrás passam a pagar os empréstimos que conseguiram durante a crise, o custo projetado do resgate está encolhendo a apenas uma fração das estimativas anteriores. Funcionários do Departamento do Tesouro dizem que a conta deve chegar a US$ 89 bilhões, que incluem o Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp), injeções de capital nas hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, garantias de empréstimos da Administração Federal de Habitação e medidas do Federal Reserve, o banco central, como compra de títulos lastreados por hipotecas e apoio ao mercado de commercial papers.
Funcionários do Tesouro estão cada vez mais otimistas de que até a seguradora American International Group (AIG) pode caminhar por conta própria dentro de um ano, com autoridades discutindo meios de o governo se desfazer de sua participação de 80% na companhia, segundo pessoas a par da situação. A AIG está para pagar o empréstimo que conseguiu do Fed por meio de vendas de ativos que captarão US$ 51 bilhões.
As discussões ocorrem quando o Tesouro planeja vender sua participação de US$ 32 bilhões no Citigroup e a General Motors prepara-se para devolver o investimento de US$ 6,7 bilhões que o governo fez nela e para fazer uma oferta pública de ações em alguns meses. As duas empresas podem estar livres das cordas do governo este ano.
Apenas um ano atrás, o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) e o Escritório de Administração e Orçamento estimavam que o socorro custaria no total mais de US$ 250 bilhões. No mês passado, porém, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, disse que os resgates somariam "menos de 1%" do PIB. A projeção de US$ 89 bilhões é 42% inferior ao custo da crise das instituições de poupança no fim dos anos 80 e início dos 90.
O custo menor que o esperado reflete a rápida estabilização dos mercados financeiros, que ajudaram as empresas a devolver o dinheiro dos contribuintes - muitas vezes com lucro - e permitiram ao governo gastar menos em alguns programas de ajuda do que previa originalmente. O governo também está recebendo dividendos, pagamentos de juros e outras rendas relacionadas ao resgate que variam de 5% anualmente sobre US$ 1,5 trilhão em dívida da Fannie Mae e da Freddie Mac a US$ 4 bilhões da venda de warrants que obteve para comprar ações dos beneficiários do Tarp.
Mas os custos diretos do resgate são eclipsados pelo maior impacto político e econômico, dizem muitos especialistas. É provável que se levem muitos anos para que os EUA se recuperem da debilidade econômica, da receita tributária perdida e do tumulto político alimentados pela crise financeira.
"Se você olhar para o custo de uma crise financeira (...) os custos do resgate costumam ser apenas uma pequena parte dele", diz Kenneth Rogoff, um professor de economia da Universidade Harvard e coautor de um livro de 2009 sobre crises financeiras.
Por exemplo, o governo ainda está fornecendo um suporte crucial aos mercados financeiro e imobiliário. E há uma gritante exceção à tendência encorajadora de empresas controladas pelo Estado que voltam a se reerguer: as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, com US$ 125,9 bilhões em injeções diretas do governo, devem depender dos cofres federais durante anos. Elas têm uma linha de crédito ilimitada dos EUA.
De acordo com o CBO, as perdas relacionadas às carteiras de investimento da Fannie Mae e da Freddie Mac estão projetadas para totalizar US$ 370 bilhões até 2020, embora o valor vá flutuar dependendo da saúde do mercado imobiliário. A ampla revolta com os resgates complicou a capacidade do governo Obama de avançar seus projetos em Washington, inclusive sua proposta reforma da regulamentação financeira. "Como você estabelece um preço para a fúria populista que está poluindo toda a política econômica?", diz Anil Kashyap, economista da Universidade de Chicago que criticou o socorro pelo governo.
Economistas dizem que os problemas financeiros e econômicos subtraíram centenas de bilhões de dólares em receita fiscal. Impostos de renda de pessoa física e jurídica desabaram, enquanto os impostos sobre ganhos de capital engasgaram junto com o mercado acionário. A receita do governo americano para 2009 foi de US$ 2,1 trilhões, cerca de US$ 200 bilhões abaixo dos níveis projetados pelo CBO.
Ainda assim, dos US$ 245 bilhões que o Tesouro investiu nos bancos americanos, US$ 169 bilhões foram devolvidos até agora, e as autoridades estimam um lucro no final de US$ 8 bilhões. Em fevereiro, o governo americano recebeu US$ 13,7 bilhões em dividendos, juros e outras rendas, junto com US$ 4 bilhões em dinheiro de warrants.
Funcionários do Tesouro estão agora discutindo a futura independência da AIG, embora muitas pessoas dentro e fora do governo considerassem que a seguradora fosse permanecer sob controle governamental durante anos. A AIG deve devolver US$ 51 bilhões ao Federal Reserve Bank de Nova York com o dinheiro das vendas de duas subsidiárias de seguro de vida na Ásia. O Fed de Nova York espera recuperar outros US$ 32 bilhões com títulos antes detidos ou garantidos pela AIG que estão agora no balanço do Fed.
Diretores do Tesouro, que possui US$ 48 bilhões em ações preferenciais da AIG, estão debatendo a melhor maneira de o governo se desfazer de sua participação de 80% na seguradora, segundo pessoas a par das discussões. Numa das situações em consideração, o governo americano poderia converter sua participação em ações ordinárias que seriam então vendidas a outros investidores. Uma medida parecida está em curso no Citigroup.
Se o governo terá lucro ou não com sua participação na AIG vai depender basicamente do valor da ação da seguradora.
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