Folha de S.Paulo (SP)
Demanda e produção se acomodam após estímulos fiscais concedidos na crise
LUCIANA COELHO
DE GENEBRA
A recuperação econômica continua em curso, mas está perdendo ritmo e pode já ter entrado em uma fase de acomodação, sobretudo no Brasil e em outros países emergentes, apontam dados da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento da Europa).
A organização -que reúne cerca de 30 países ricos e monitora também a economia de outros que não integram o grupo, como o Brasil- divulgou ontem seu Índice Composto dos Principais Indicadores para fevereiro. Os gráficos traçam um quadro distinto dos que têm sido descritos com euforia sobre a força da recuperação e, principalmente, sobre o equilíbrio da retomada nas regiões.
Até então, os emergentes, com destaque para os asiáticos, saíram na frente na retomada. Mas, pelo último índice da OCDE, é notadamente nesses países -China, Brasil e Rússia e, um pouco menos, Índia- que a linha da recuperação abandona a forma de diagonal (alta ininterrupta) mantida desde o segundo trimestre de 2009 para começar a se horizontalizar em dezembro (estagnação).
Ou seja: por ora, a alta continua ocorrendo, pois os indicadores ainda são positivos, mas a velocidade cada vez menor.
"Você pode ver que a curva é muito sutil. Se isso realmente se confirmar, a direção do indicador começa a mudar", disse à Folha por telefone Gyorgy Gyomai, chefe da unidade de indicadores cíclicos da OCDE, responsável pelo índice. "Não necessariamente isso indica que haverá um ponto de virada logo à frente, mas fica claro que é uma possibilidade."
A mesma tendência se repete no caso de dois países europeus, a França e a Itália, que também perdem fôlego, enquanto EUA, Alemanha e Japão continuam a uma velocidade de retomada expressiva.
As curvas brasileira e chinesa são as mais nítidas (esta em patamar mais alto). "Nesse sentido, no Brasil a recuperação pode fazer uma pausa temporária em breve, ou, no pior cenário, se reverter, embora ainda seja cedo para ter certeza."
Uma das possibilidades, segundo Gyomai, é que a demanda esteja começando a se acomodar após a alta vinda com a recuperação, e a produção industrial entre em um ritmo menor. As medidas de incentivo fiscal ao consumo tomadas durante a crise (como a redução de IPI, no Brasil) tornam esse movimento mais provável.
Outra é que o otimismo dos investidores "não tem como seguir em alta para sempre", diz. O indicador congrega de dados relacionados diretamente à produção (como exportações) a pesquisas com o empresariado sobre expectativas e negócios.
O Brasil e a Índia são os únicos analisados (entre membros do G7 e grandes emergentes) cuja trajetória ainda é de recuperação, não de expansão. Gyomai adverte, porém, que os números são incipientes, e uma revisão, com dados mais completos, poderá virar o cenário.
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