29.4.10

Para ex-secretário da Fazenda, modelo é "bomba relógio"

29 de abril de 2010

Valor Economico (SP)

De São Paulo

Ruy Baron/Valor

Júlio Gomes de Almeida: elevação do consumo e taxa de câmbio valorizada provocam aumento "mirabolante" das importações
A demanda interna da economia cresce por todos os lados. As famílias ampliam o consumo e a demanda por crédito, as empresas, tendo a indústria à frente, aumentam a produção, a contratação de mão de obra e os investimentos, que, num primeiro momento, significam maior demanda por insumos e peças. Este é um crescimento "virtuoso", mas, sem controle, é uma bomba-relógio. Essa é a avaliação de Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda (2005-2007). Para o economista, se nada for feito para "controlar o ritmo", a bomba pode explodir em três anos.

O raciocínio de Almeida está calcado nos excessos provocados pela aceleração da demanda. Parte do consumo interno "vaza" para o mercado externo, reduzindo o saldo comercial e ampliando o déficit nas transações correntes. Nos primeiros três meses do ano, o endividamento externo bateu em US$ 12,1 bilhões, o valor mais alto para o período desde 1947, quando o Banco Central (BC) iniciou a série histórica. Apenas no mês passado, o déficit, de US$ 5 bilhões, foi superior a todo o déficit acumulado no primeiro trimestre de 2009, de US$ 4,9 bilhões. "Sem fazer uma reestruturação de nossa política comercial e econômica, não temos como sustentar um crescimento de dois dígitos da demanda", afirma. Segundo Almeida, a combinação entre elevação do consumo e taxa de câmbio valorizada provoca o aumento "mirabolante" das importações.

A valorização cambial, diz Almeida, é um dos principais fatores para diminuir o ímpeto da indústria nacional em exportar. "Os empresários ficam desanimados em ampliar investimentos na produção que será embarcada. Ele se apoia no mercado interno e diminui as vendas externas. Consequentemente, o saldo comercial cai, aumentando o rombo externo", raciocina. No auge da crise mundial, em dezembro de 2008, o dólar chegou a ser cotado acima de R$ 2,50. Ao longo do ano passado, o dólar caiu cerca 25,7%, passando de R$ 2,33 para R$ 1,73, oscilando em torno deste patamar desde então.

Analistas do mercado dizem que a aceleração da demanda explica a alta da inflação verificada no primeiro trimestre. O economista, no entanto, refuta que a aceleração de preços verificada nos primeiros três meses do ano se deu graças a problemas de oferta. "Não há sinal de inflação de demanda, mas resposta ao reajuste do salário mínimo", diz.

Para ele, a elevação de 0,75 ponto percentual realizada ontem pelo BC na Selic não causará impacto no processo de recuperação da atividade. "O que causa o superaquecimento do consumo não é o investimento, mas sim o crédito a pessoa física", diz. O ex-secretário da Fazenda avalia que controlar a concessão de crédito seria "mais eficaz" que elevar a Selic, ainda que, no médio prazo, o aperto monetário realizado pelo BC atinja o mercado, encarecendo os empréstimos bancários. (JV)

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