Estadao.com.br
Em evento em São Paulo, ex-presidente do BC ressaltou independência da autoridade na condução da política monetária
Ricardo Leopoldo, da Agência Estado
SÃO PAULO - O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore espera que o BC eleve os juros ao final da reunião de abril do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorrerá nos dias 27 e 28 deste mês, "mas é preciso ver se o Banco Central ficará atrás ou acima da curva de juros", ponderou. Na avaliação de Pastore, o BC vem sofrendo grande pressão "dos ministérios e das pessoas das entidades de classe" para que a gestão da política monetária fique "atrás da curva".
Tal postura visaria, segundo o ex-dirigente do BC, "permitir artificialmente um crescimento um pouco maior, que certamente vem em benefício do governo que sai, o que aumenta a sua popularidade. Isso é o que na teoria se chama de ciclo político", explicou. Pastore ressaltou que o BC vem atuando com independência de fato na condução da política monetária. Ele afirmou ainda que espera que tal postura também seja mantida de agora em diante.
"Mas a pressão, no entanto, é para que o BC faça o ciclo político. Vamos ver o que acontece. A palavra final está nas mãos do BC. Não vou julgar ninguém antes de ver as decisões", salientou. Pastore fez os comentários em evento, realizado em São Paulo, do Emerging Markets Traders Association, mais conhecido pela sigla EMTA.
PIB
Pastore afirmou que provavelmente o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescido perto de 2% na margem no primeiro trimestre deste ano. Segundo ele, se esta taxa for confirmada isso indicaria que o ritmo de crescimento do País nos três primeiros meses do ano alcançou uma taxa veloz de 8% anualizados. "Se o crescimento de 2% no primeiro trimestre ocorrer de fato, é provável que o PIB crescerá pouco acima de 6% em 2010", comentou. Pastore estima que o País deve crescer ao redor de 6% este ano. Se tal taxa for ratificada, isso levará o PIB potencial à marca de 4,5% até o final deste ano.
Como o País pode gerar um déficit de contas correntes de 3% a 4% este ano, isso deve compensar a diferença entre o intenso ritmo do PIB efetivo e o tamanho menor do PIB potencial. Contudo, Pastore vê dificuldades estruturais no País para avançar o nível de investimentos, que está pouco abaixo de 18% em relação ao PIB.
Segundo ele, são necessárias reformas estruturais e redução dos gastos públicos para que o Brasil poupe mais e tenha condições de aumentar os investimentos sem provocar excessivo aumento dos déficits externos. Segundo ele, nas atuais condições e poupança, se os investimentos alcançassem 25% do PIB, isso geraria um saldo negativo de transações correntes entre 7% e 9% do PIB. Nestas condições, o avanço do PIB potencial seria muito pequeno, pois investimentos a 25% do PIB gerariam um PIB potencial de próximo a 5,5%.
Mineração
O ex-presidente do Banco Central afirmou que há uma recuperação pouco acima do esperado dos termos de troca relativos a produtos que o Brasil exporta. Ele destacou que se forem confirmados os aumentos de preço do minério de ferro que a Vale está conseguindo fechar com seus clientes internacionais, isso poderá agregar às contas externas do País US$ 10 bilhões num horizonte de 12 meses. Pastore destacou que esse é um fator que deve melhorar o saldo de balança comercial que o Brasil deve registrar este ano.
Um outro elemento que deve colaborar para financiar o déficit de transações correntes em 2010 que, segundo ele, deve variar de 3% do 4% do PIB, é a continuidade do intenso fluxo de capitais para o País, sejam investimentos estrangeiros diretos e em ativos financeiros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário