16/12/2011 às 00h00 2
Por Claudia Safatle
A aceleração do PAC, pretendida pelo governo, não será suficiente para levar o crescimento da economia para a casa dos 3,5% a 4% em 2012. O desaquecimento do nível de atividade foi substancial no segundo semestre do ano e o ânimo dos empresários, tanto locais quanto estrangeiros, está abatido.
"Se a presidente Dilma Rousseff não cooptar os banqueiros e os investidores privados a economia, que está aterrissando, não alçará voo no ano que vem", comentou um importante interlocutor da presidente, que compartilha da mesma preocupação. Não será um pequeno aumento nos investimentos públicos que sustentará o crescimento e esse tem sido tema de conversas no governo.
Em dezembro de 2008, no auge da crise externa que paralisou o crédito e derrubou a produção industrial, o então presidente Lula chamou um grande grupo de empresários ao Palácio do Planalto. Naquela ocasião o governo garantiu financiamentos e concedeu incentivos fiscais para uma série de setores, inclusive o automotivo. Ainda assim houve contração do PIB no ano seguinte.
Adiamento dos investimentos preocupa Dilma
Dilma foi aconselhada a fazer algo semelhante: persuadir os banqueiros a não reduzir a oferta de crédito e convencer os empresários do setor produtivo a retomar os cronogramas de investimentos, pois haverá demanda para seus produtos. Para isso, os instrumentos de incentivo seriam os mesmos (isenções fiscais, liberação de compulsórios).
Se a crise na zona do euro se mantiver no patamar em que está - sem a quebra de um banco ou de um país - na avaliação de economistas oficiais, o crescimento em 2012 deverá ser um pouco maior do que o deste ano. A última pesquisa Focus trouxe, pela primeira vez, uma previsão de crescimento neste ano abaixo de 3% (de 2,97%).
O relatório trimestral de inflação, que o Banco Central divulga no fim do mês, também deve trazer um prognóstico de crescimento para 2012 melhor do que o de 2011. No ano novo a atividade econômica começa em banho-maria e, na perspectiva desses economistas, terá melhora paulatina e moderada a cada trimestre, podendo ficar entre 3,5% e 4%. O Ministério da Fazenda trabalha com a possibilidade de crescer 4% e torce para que seja factível chegar a 5%.
Uma das grandes dificuldades dos economistas e analistas do setor privado, este ano, foi de projetar a variação do PIB. O Banco Central que, no fim de 2010, tinha expectativa de crescimento de 4,5% para este ano, em março fez revisão para 4% e, em setembro, baixou para 3,5%. A autoridade monetária tende a ser sempre conservadora nas suas previsões. Os economistas dos bancos, com raras exceções, demoraram a perceber a parada da atividade no terceiro trimestre. As tesourarias, ao contrário, notaram a desaceleração e reduziram os juros antes mesmo do Banco Central fazer o primeiro corte da Selic, em 31 de agosto.
O ministro Guido Mantega, da Fazenda, comentou em conversa recente com o Valor que banqueiros de grande porte lhe confessaram que subestimaram os efeitos das medidas macroprudenciais do BC para conter o crédito ao consumo. Essas, associadas ao aumento da Selic e ao agravamento da crise externa, resultaram na estagnação no terceiro trimestre. Não nos levaram a sério", disse o ministro.
O ano de 2011 foi de "correção dos excessos" de 2010. No último ano da gestão Lula, o crescimento chegou a 7,5% - muito acima do produto potencial (4,5%), a inflação do IPCA chegou a 5,91%, o superávit primário baixou para 2,78% e ainda assim às custas de um esforço contábil. O déficit em transações correntes do balanço de pagamentos foi de 2,3% do PIB, com previsão de aumento para 2,6% do PIB este ano.
A opção de Dilma Rousseff pelo restabelecimento da meta fiscal para 3,1% do PIB e a ação do BC para desacelerar o consumo, desacreditadas no início do governo, renderam resultados bastante razoáveis.
Do lado das contas externas, o déficit em conta corrente deve ficar muito próximo de 2% do PIB e será financiado com sobra pelo investimento estrangeiro direto. A meta de superávit fiscal de 3,1% será cumprida e continuará a ser perseguida pelos próximos três anos. O PIB teve uma queda muito forte, de 7,5% para 3% ou um pouco menos, e mesmo assim a taxa de desemprego continua das mais baixas que o país já teve.
Ficou a dever a inflação que "não caiu tudo que a gente queria, mas caiu", disse Mantega. A trajetória do IPCA seguiu a trilha preconizada pelo Banco Central. Foi crescente até setembro, quando bateu em 7,31% e começou a cair para 6,97% em outubro e 6,64% em novembro. A última previsão do BC é de que a inflação encerrará o ano em 6,4%, abaixo do teto da meta (6,5%). A pesquisa Focus aponta para exatos 6,5%.
A diferença entre estar na meta ou escapar dela na segunda casa decimal está na tarefa formal que o BC terá que cumprir. Se superar o teto, a autoridade monetária terá que escrever carta aberta ao ministro da Fazenda explicando porque deixou isso ocorrer e o que fará para levar a inflação para a meta em 2012.
Para 2012, o compromisso do BC continua a ser com o IPCA de 4,5%. A pesquisa Focus prevê 5,42%. Essa será uma nova batalha para o BC travar com o mercado.
Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras
E-mail claudia.safatle@valor.com.br
Fonte: http://www.valor.com.br/brasil/1141304/sem-o-setor-privado-pib-nao-recupera-em-2012
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