5.3.10

Alemães sugerem venda de monumentos para pagar dívidas

05 de março de 2010

O Estado de S.Paulo (SP)

Gregos reagem com boicote a produtos da Alemanha

Phillip Inman e Helena Smith, LONDRES

A Grécia deveria pensar na hipótese de vender terras, monumentos e obras de arte para saldar suas dívidas, sugeriram ontem dois políticos alemães, Josef Schlarmann, do Partido Cristão Democrata - o mesmo da chanceler Angela Merkel -, e Frank Schaeffer, especialista em política financeira do Partido Liberal Democrata, ao jornal Bild.

Ao lado de medidas de austeridade, como cortes dos salários do setor público e congelamento das pensões do Estado, a Grécia poderia vender algumas ilhas desabitadas ou artefatos antigos, acrescentaram.

Os gregos reagiram com revolta à proposta. Muitos foram a público para se queixar. Em entrevista à ARD TV, o vice-chanceler da Grécia, Dimitris Droutsas, disse: "Ouvi também a sugestão de que deveríamos vender a Acrópole. Sugestões desse tipo são inadequadas num momento como este".

"O que me revolta não são tanto as medidas de austeridade, mas os alemães", disse um ex-funcionário público, num programa de rádio. "A sugestão de que deveríamos vender nosso patrimônio nacional me deixou tão irado que agora estou boicotando todos os produtos alemães."

A Federação dos Consumidores Gregos (Inka) instou os cidadãos a boicotar os produtos alemães, como as cadeias de supermercados e as concessionárias de automóveis.

"A pressão que os alemães estão exercendo sobre nós é escandalosa", disse Sarandi Pitsas, um aposentado que foi à rua para protestar contra as medidas de austeridade. "Enquanto nós esculpíamos maravilhosas estátuas, como a Vênus de Milo, eles ainda viviam em cavernas e rosnavam como cães" disse, referindo-se à capa de uma revista alemã que trazia a estátua fazendo um gesto obsceno sob a manchete "Trapaças gregas".

Cinco dias após o início do boicote aos produtos alemães, o Inka, composto por 100 mil consumidores, afirma que o movimento está indo de vento em popa. "A resposta tem sido imensa", afirmou Haralambous Velidarakis, membro do conselho do Inka. "Nossa ação não é contra o povo alemão, é contra os ataques do governo alemão, que levarão ao empobrecimento dos gregos."

O semanário satírico grego To Pontiki (O camundongo) ontem mostrou outro lado da questão. Sua capa dizia: "A Grécia pertence aos gregos?" Na quarta-feira, o governo socialista da Grécia divulgou sua terceira tentativa de reduzir a dívida pública para agradar aos governos da União Europeia (UE), que prometeram apoio à combalida economia do país, desde que as medidas sejam implementadas.

Por outro lado, greves e protestos já ameaçam paralisar indústrias e serviços públicos, se os cortes forem adotados. Mas os alemães continuam indiferentes. Pesquisas de opinião mostram que eles são totalmente contrários a uma ajuda com recursos de Berlim. Muitos temem que isso possa incentivar outros pedidos de Espanha e Portugal, também afetados pelo déficit público.

Mesmo a economia alemã acaba de sair da pior recessão do pós-guerra. Dados apresentados na semana passada mostraram que a economia está parada, enquanto os políticos batalham por aumentar a ajuda ao seu segundo banco, o Commerzbank, que adquiriu instrumentos financeiros no valor de bilhões de euros vinculados às hipotecas subprime nos EUA.

A chanceler Angela Merkel se reúne hoje com o primeiro-ministro grego, George Papandreou, em Berlim.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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