Folha de S.Paulo (SP)
Despesas podem ser reduzidas a fim de reduzir consumo interno, afirma Mantega
Para o presidente do BNDES, crise grega pode até ser boa para o Brasil se ajudar a "moderar" um pouco o crescimento do país
SAMANTHA LIMA
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
LORENNA RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Depois de um 2009 de crescimento nulo, devido à crise, o governo mostra preocupação com o atual ritmo de expansão da economia, considerado superior ao que o país pode suportar sem gerar inflação.
Foi o que indicaram dois dos principais integrantes do núcleo econômico -o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Recém-saída do governo, a pré-candidata à Presidência Dilma Rousseff defendeu discurso semelhante.
Os três participaram de seminário sobre infraestrutura, organizado pelo "Valor Econômico" e pelo "Financial Times" ontem, no Rio de Janeiro.
Além do crescimento exagerado, a agenda econômica terá outro problema a enfrentar neste ano, diz Mantega: a crise grega adiará para 2012 a recuperação das exportações brasileiras, afetadas pela crise.
Para conter os efeitos negativos de uma expansão exagerada, o governo, segundo Mantega, estuda cortar gastos de custeio em todos os ministérios -apesar do calendário eleitoral, quando tradicionalmente os governos elevam despesas.
Mantega foi um dos principais defensores da expansão de gastos públicos para evitar a recessão em 2009 -o PIB acabou recuando 0,2%. Agora, diz que, "se necessário", serão reduzidas despesas dos ministérios.
Os cortes desses gastos, afirma, visam reduzir o consumo interno -um dos principais componentes do PIB. O governo prevê crescimento de 5,5% do PIB neste ano.
Para Mantega e Coutinho, o limite seria seria 6% -acima disso, o país estaria produzindo além de sua capacidade, o que gera inflação.
Os principais programas, porém, como o PAC, os investimentos em infraestrutura e os programas sociais, serão preservados, diz Mantega.
Dilma disse que o Brasil não pode descuidar da área fiscal e defendeu a necessidade de redução da relação dívida/PIB e do deficit nominal [recursos que faltam ao governo para pagar os juros da dívida], hoje em 3,5% do PIB.
Somente com isso, afirmou, será possível elevar os níveis de poupança pública -necessária para realizar investimentos- e reduzir as taxas de juros no longo prazo. "[Na economia] não podemos deixar de olhar com os dois olhos: o do desenvolvimento e o macroeconômico [da austeridade fiscal]", disse.
Contágio
O presidente do BNDES diz acreditar que o impacto da crise na Grécia no crescimento econômico, "se houver", será bom porque "pode moderar o crescimento do Brasil". "O problema da nossa economia hoje não é de pouco crescimento, mas de crescer demais."
Fora o atraso na recuperação das exportações, Mantega vê pouco risco de contágio da economia pelos problemas na Grécia. "Houve volatilidade na Bolsa na semana passada, mas não vejo risco de bolhas. O Brasil tem um dos menores deficit nominais do mundo. Estamos preparados para enfrentar."
Na opinião dos especialistas, as turbulências podem fazer os investidores abandonarem suas aplicações no Brasil para buscar abrigo em ativos tidos como mais seguros. Com isso, a Bolsa de Valores recua e o dólar se valoriza ante o real.
Mas, para o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, quem retirar seus recursos do país vai perder dinheiro. "O Brasil é uma das nações que terão os melhores índices de crescimento neste ano."
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