Com a decisão, a taxa de juros passa a 7,5% ao ano. Trata-se da primeira alta desde julho de 2011
Tombini: desta vez, Dilma e Mantega deixaram que ele trabalhasse (Ueslei Marcelino/Reuters)
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentou para
7,5% a taxa básica de juros (Selic) nesta quarta-feira, sem viés. O
aumento de 0,25 ponto porcentual (p.p.) é o primeiro desde julho de 2011
- quando o BC subiu pela última vez os juros, antes de iniciar uma
trajetória inédita de cortes. De lá pra cá, a Selic passou de 12,5% para
7,25%, antes do aumento desta quarta.
No comunicado que acompanhou a decisão, o BC reconheceu que a inflação
já constitui um risco para a economia. "O Comitê avalia que o nível
elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros
fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência e ensejam uma
resposta da política monetária. Por outro lado, o Copom pondera que
incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cenário
prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja
administrada com cautela", informou o BC.
Votaram pela elevação os seguintes membros do Comitê: Alexandre Antonio
Tombini (Presidente), Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles,
Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa
Marques. Já os diretores Aldo Luiz Mendes e Luiz Awazu Pereira da Silva
votaram pela manutenção da Selic no patamar de 7,25%.
Analistas ouvidos pelo site de VEJA esperavam uma elevação de, pelo menos, 0,25 ponto percentual nos juros, numa tentativa de conter, sobretudo, a inflação de 2014. Para 2013, é consenso entre os economistas
entrevistados que os juros já não são mais eficazes, pois demoram de 6 a
9 meses para começar a surtir efeito na economia. No entanto, a decisão
de hoje é um primeiro passo para que o BC recupere parte de sua
capacidade de ancorar expectativas.
Segundo comunicado do banco Goldman Sachs enviado após o anúncio do BC,
a ênfase da nota da autoridade monetária em acompanhar as incertezas
externas com cautela mostra que a subida dos juros será lenta e gradual.
O banco espera que a Selic termine o ano a 8,75%, no máximo. "A gestão
de Dilma está firme em manter os juros dentro do piso de 8,75% alcançado
ao longo do governo Lula. Mais do que guiar a inflação ao centro da
meta de 4,5%, o BC simplesmente quer ancorar as expectativas do mercado e
melhorar a percepção de que a inflação terminará o ano abaixo do nível
de 2012, que foi de 5,8%", afirmou o economista do banco, Alberto Ramos.
Desde que o regime de metas foi criado, em 1999, a taxa básica de juros
é o instrumento primordial usado no controle inflacionário. Quando a
Selic sobe, impacta diretamente no custo do dinheiro e os juros
bancários sobem - causando um esfriamento da atividade econômica e,
consequentemente, do consumo. A demanda por bens e serviços cai porque
há menos pessoas e empresas consumindo - com isso, os preços tendem a
cair também.
Procrastinação - Tanto o BC quanto o governo
postergaram ao máximo a decisão de subir a taxa de juros, na esperança
de que os preços pudessem ceder devido à conjuntura externa. Contudo, os
dados de março mostraram justamente o contrário. Não só a inflação oficial ultrapassou a meta de 6,5%
em 12 meses, como a inflação do setor de serviços chegou a
inacreditáveis 8,37% no mesmo período. O Índice Nacional de Preços ao
Consumidor (INPC), que mede a inflação dos mais pobres, acumula alta de
7,22% em 12 meses, e a de março foi pior - de 0,60%.
A presidente Dilma Rousseff esbravejou, no início da semana, afirmando
que as críticas a seu governo no que se refere ao controle inflacionário
são de autoria dos "pessimistas de plantão",
que, segundo ela, não reconhecem as benfeitorias na economia ao longo
dos últimos anos. A presidente tentou, no caso, culpar o mensageiro pela
mensagem pouco otimista - em vez de dizer o que será feito para conter a
alta dos preços. Apenas reiterou que não será por meio da Selic alta
que a inflação será contida. Dilma foi enfática ao afirmar que os juros "jamais voltarão aos patamares de antes", e que devem flutuar em torno da mínima de 7,25%.
O tema passou a preocupar a população devido a um componente que pouco
interfere no IPCA, mas que subiu mais de 120% nos últimos 12 meses: o
tomate. No varejo, o quilo do fruto chegou a custar mais de 10 reais nas
últimas semanas. "O tomate é a manifestação de um problema que vinha
sendo alardeado pela unanimidade dos economistas e que o consumidor
começou a sentir no bolso agora", diz Marcelo Fonseca, economista da
gestora M&Safra. “O aumento dos juros agora não vai ser para acalmar
os mercados, mas sim a sociedade, que está histérica, com razão, porque
tem na lembrança o problemas hiperinflacionário que o Brasil viveu
antes de 1994”, acredita Fonseca.
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