28.10.09

Uruguai: quanto vale uma tradição republicana

Carta Maior
Flávio Aguiar

A candidatura do ex-guerrilheiro tupamaro, José Pepe Mujica, representa uma tradição republicana que, mesmo com as políticas conservadoras dos partidos tradicionais, deu ao Uruguai a condição de vanguarda educacional da América no começo do século XX. Foi essa tradição que a ditadura, iniciada em 1973, espezinhou. E foi ela que, depois, repôs o Uruguai de pé, com o fim da ditadura e terminou levando Tabaré Vasquez primeiro, à prefeitura de Montevidéu, e depois à Presidência da República. O artigo é de Flávio Aguiar.

Em fevereiro de 1845, ao fim da Revolução Farroupilha, reuniram-se em Ponche Verde, perto da atual cidade de Dom Pedrito, 13 generais do Exército Riograndense. Examinaram a proposta do Tratado de Paz que lhes fora encaminhado, por ordem de D. Pedro II, pelo Barão de Caxias, comandante das forças imperiais. 12 votaram pela paz. Bento Gonçalves da Silva, que não compareceu, acometido pela doença que dois anos depois o levaria à morte, votou por carta. Só um votou pela continuidade da luta: o general Antonio de Souza Netto, que, quase nove anos antes, proclamara a República. Teria ele então declarado que, diante da esmagadora maioria dos demais, também assinava o documento. Mas teria, de acordo com a tradição, ajuntado:“- Vou-me embora para a Banda Oriental [como às vezes ainda se chamava o Uruguai]. Lá é uma República.

E o meu sombrero cansou de dar barretadas a Imperador”.E se foi, levando com ele cerca de 200 ex-escravos e familiares que com ele tinham lutado na Revolução.É essa tradição republicana que, respeitada, dará a presidência do pequeno, mas grande país, a José Pepe Mujica, ex-guerrilheiro tupamaro, hoje senador da República, e ex-ministro da Agricultura do Governo de Tabaré Vasquez. É essa tradição republicana que, mesmo com as políticas conservadoras dos partidos tradicionais, deu ao Uruguai a condição de vanguarda educacional da América no começo do século XX. Foi essa tradição que a ditadura, iniciada em 1973, espezinhou. E foi ela que, depois, repôs o Uruguai de pé, com o fim da ditadura e terminou levando Tabaré Vasquez primeiro, à prefeitura de Montevidéu, e depois à Presidência da República.Em 2004 a TV Carta Maior cobriu ao vivo a posse de Tabaré Vasquez, desde um estúdio improvisado no alto de um hotel da capital. Mas fizemos também reportagens e entrevistas gravadas em outros locais, que editávamos e púnhamos no ar.Um dos pontos altos dessa cobertura, e também, devo dizer, de minha trajetória como jornalista, foi a entrevista com o então senador recém eleito e mais votado, José Pepe Mujica. Fizemos a entrevista, de que também participou sua esposa, Lúcia, em duas visitas à sua chácara. Foi memorável.Estávamos diante de um homem, ex-guerrilheiro, que passara anos de sua vida não só no cárcere, mas confinado numa cela que na verdade era um poço de pouco mais de dois metros de diâmetro, sem falar com ninguém. Contou-nos coisas terríveis e lindas ao mesmo tempo. Que conversava com os insetos. Que aprendera que as formigas gritam. Coisas assim.Mas o mais memorável de tudo é que estávamos diante de um homem que não só não saíra alquebrado ou mesmo quebrado dessa ignomínia, mas saíra também sem amargura. Era ( e é) um homem pronto para guardar e compartilhar a alegria de viver. Por isso, José Pepe Mujica é um fenômeno político admirável. Por isso, além de pelas razões de sua competência e de seu programa libertário, o Uruguai e sua tradição republicana merecem tê-lo como seu Presidente. Esperemos que a eleição, que começa neste domingo 25 e pode ter um segundo turno, o confirme.

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