Ultimo Segundo
Depois de detalhar para jornalistas os auspiciosos resultados do PIB no segundo trimestre do ano, na última sexta-feira (11), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, falou com exclusividade para o Último Segundo, em São Paulo, sobre as consequências da crise econômico global, um ano depois da sua eclosão, com a quebra do lendário banco de investimento americano Lehman Brothers. A seguir, os principais trechos da conversa com o jornalista José Paulo Kupfer, colunista do iG.
O que a crise global ensinou ao Brasil?
Guido Mantega - Ensinou que vale a pena manter uma economia pouco endividada e pouco dependente, principalmente do sistema financeiro internacional. A primeira lição é que realmente é melhor entrar como credor do que como devedor. No passado, entrávamos nas crises como devedores e apanhamos muito por essa razão.
A segunda lição é que, se uma economia entrar numa crise com uma situação fiscal sólida, será muito mais fácil aplicar políticas anticíclicas sem comprometer as contas públicas. Não adianta fazer uma série de políticas de estímulo, mas, com isso, abrir um buraco fiscal, como aconteceu com outros países.
Mas essa não é uma receita para qualquer tempo, com crise ou sem?
A execução da receita não é trivial. Os EUA, por exemplo, entraram na crise com déficits em transação correntes e com desequilíbrio fiscal. Com a crise, eles tomaram uma série de medidas necessárias, mas depois terão de pagar uma conta enorme. A nossa conta é pequena, justamente porque entramos sólidos na crise. É bom, sim, entrar na crise com um crescimento forte. Quando entramos na crise, a economia brasileira vinha de um período longo de investimentos elevados e de crescimento maior. Nós entramos na crise com musculatura e, assim, mesmo perdendo um pouco de musculatura na fase aguda das turbulências, ainda foi possível sair forte e mais rápido.
"Quem entrou frágil na crise foi para o buraco"
Em relação ao pensamento econômico padrão, as vantagens da economia brasileira no enfrentamento da crise são, na verdade, defeitos. Nossa economia é mais fechada, nosso sistema bancário é pouco integrado ao sistema global, o sistema financeiro é mais simples, a situação fiscal é controlada, mas com gastos correntes em expansão. Nossos “defeitos” foram virtudes na hora da crise?
O que você está chamando de defeito é um setor financeiro mais conservador, menos alavancado. Significa que temos, no Brasil, uma regulação bancária mais forte do que lá fora, o que impede que se façam aqui as loucuras que foram feitas lá fora. Nesse campo, nosso verdadeiro defeito, melhor dizendo, uma anomalia, é o compulsório cobrado dos bancos sobre depósitos, muito mais elevado que no resto do mundo. Em geral, o compulsório nos outros países é de 6% , 8%, no máximo 10%. Aqui, o compulsório era de 58%. Esse, de fato, era um desvio, mas nós temos lastro para reduzi-lo. Enfim, foi um conservadorismo que acabou sendo positivo no momento.
Que reformas já foram feitas nas economias globais que possa dar garantias de que uma crise como essa só se repetirá daqui a 50 anos?
A reforma fundamental é a do sistema financeiro mundial. É preciso aumentar a regulação e fechar os canais que facilitem as loucuras do tipo das que foram feitas. Os países do G-20 estão fechados em torno da ideia de uma regulação financeira mais forte. Os EUA também apresentaram uma proposta positiva. Um ponto importante é a realização de “testes de estresse” periódicos nos bancos, com o objetivo de detectar alavancagem excessiva e exigir a devida e imediata capitalização.
Dá para apostar que essa reforma, quando vier, limitará a alavancagem dos bancos?
Vai limitar muito. Houve erros de governos, principalmente do governo americano, permitindo uma desregulamentação excessiva. A alavancagem dos bancos de investimento, por exemplo, era absurda. O Lehman Brothers estava alavancado em mais de 30 vezes. Ele emprestava US$ 30 bilhões com US$ 1 bilhão de capital. A exposição era absurda.
O sistema deve caminhar para enquadrar todas as instituições nos níveis de Basileia II [acordo ratificado por mais de 100 países, em 2004, fixando exigências mínimas de capital para operações de bancos comerciais], que define um limite de alavancagem de 11 vezes o capital da instituição. O Brasil, só para efeito de comparação, está com 6,5. Estamos seguros e podemos até aumentar a alavancagem sem nenhum risco.
Há um consenso internacional de que é preciso levar todo o sistema, inclusive os derivativos, para o limite de Basileia II. Além de impor os limites de Basiléia II, temos de fazer mais exigências de capital de acordo com o risco do negócio.
Finalmente, é preciso acabar com a farra dos bônus em dinheiro para executivos financeiros. Esse é um esquema que gera conflitos com a boa administração do negócio. Aos dirigentes dos bancos, por conta dos bônus, que lhes garantiam somas incríveis de dinheiro, interessava conceder financiamentos sem medir os riscos.
"Houve erros de governos, principalmente do governo americano"
Há dúvidas sobre a recuperação da economia mundial. Pode ser em V como o Senhor espera, mas tem quem fale em W, ou seja, acham que pode haver uma recaída. É evidente, dada a montanha de dinheiro injetada na economia, que a saída da crise, na economia global, não será sem dor. A economia brasileira pode sair sustentadamente da crise sem que a economia mundial também tenha saído sustentadamente da crise?
Acredito que a economia mundial está se recuperando, ainda que lentamente. Não acredito numa recaída, que configuraria uma curva em W. A curva em W se daria se os países desativassem as políticas de estímulo. Eu declarei exatamente isso no meu discurso no G-20, dias atrás.
Não é o momento de desativar os programas fiscais porque, aí sim, se forem desativados, pode haver uma recaída. Se os programas de estímulo não forem desativados, a economia mundial continuará em recuperação. Já são muitos os sinais de que isso está acontecendo e em economias como a dos EUA, Alemanha, França e no próprio Japão.
Se o pior da crise já passou, por que então continuar com os estímulos?
Ao contrário do Brasil, que teve uma queda menor e limitada no tempo, só dois trimestres, os países avançados tiveram quedas fortes em três ou quatro trimestres consecutivos – ou seja, já vinham mergulhando e foram para o fundo do poço. Estão agora saindo do fundo do poço, mas há um longo caminho até voltar à superfície. O pior já passou, mas para eles a crise ainda não acabou. No ano que vem, todo mundo vai estar no positivo, mas ainda abaixo em relação ao início da crise.
Em declarações recentes, o sr. acenou com a possibilidade de o Brasil chegar, dentro de algum tempo, ao grupo das cinco ou seis maiores economias do planeta. Será então uma das cinco ou seis maiores economias, mas com um dos maiores índices de pobreza e uma das cinco piores distribuições de renda do planeta?
Felizmente, estamos trilhando o caminho do desenvolvimento com distribuição de renda. O ciclo que tivemos de 2003 a 2008 se distingue de outros ciclos porque estamos conseguindo ao mesmo tempo fazer crescer a economia e aumentar a capacidade de consumo da população de baixa renda, tanto que a classe média brasileira está crescendo e já predomina.
Temos mobilidade social e, a partir do crescimento da economia e da geração de empregos, que será positiva também este ano, acrescidos dos programas sociais que o governo tem executado, a pobreza está diminuindo muito rapidamente no Brasil – e diminuindo também a desigualdade social.
O índice de Gini, que mede a desigualdade, está no seu menor patamar e ainda não temos o resultado de 2008 que, certamente, será melhor do que o de 2007. Nós seremos, repito, nos próximos 20 ou 30 anos, uma das cinco maiores do mundo e com uma situação social favorável.
É possível afirmar que os princípios neoliberais, hegemônicos nas economias mais maduras, foram derrubados pela crise?
Eu não tenho a menor dúvida de que o neoliberalismo em geral e o Consenso de Washington em particular foram destruídos por esta crise.
"Trinta anos de política neoliberal, de desregulamentação, foram por água abaixo"
A crise mostrou o desastre que pode ocorrer quando se deixa a economia à mercê de um sistema financeiro fazendo o que bem entende, com o Estado ausente, não cumprindo as funções de regulação, fiscalização e de estimulo à economia.
A receita que dá certo é a aplicada no Brasil: regulação mais forte e uma participação mais ativa do Estado, fazendo política social e garantindo estímulos ao mercado. O grande objetivo é garantir o crescimento. Quando há crescimento, a arrecadação melhora, os déficits diminuem. Forma-se um ambiente capaz de impulsionar o País para o futuro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário