25.2.10

Consumidor endividado tem menos confiança

25 de fevereiro de 2010

Jornal do Brasil (RJ)

Primeiro Caderno

O aumento da inflação e do endividamento das famílias abateu a confiança do consumidor brasileiro em fevereiro, mostrou pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), entre os dias 1º e 19, em mais de 2.000 domicílios de sete capitais do país. O índice mostrou queda de 2,2% em relação a janeiro, para 110,2 pontos.

Segundo a FGV, 9,3% dos entrevistados esperam comprar mais bens duráveis nos próximos seis meses, e 31,8% estimam reduzir suas aquisições de maior valor agregado.

– Há uma preocupação, principalmente entre as classes mais altas, de que a inflação maior vai puxar os juros e pode provocar uma desaceleração da economia. Já o consumidor de menor renda sente o efeito de aumentos de alimentos e transportes no bolso – disse o economista da FGV, Aloisio Campelo.

– Há também uma capacidade de endividamento esgotada (com as compras de Natal).

É um momento de ajuste do orçamento doméstico.

Campelo destacou que a intenção de compra de bens duráveis atingiu em fevereiro o menor patamar em quase um ano (a 77,5 pontos), bem abaixo da média histórica, de 82,6 pontos.

Caem concessões de crédito A satisfação com a situação econômica foi o que mais puxou o índice para baixo. Os consumidores que a avaliaram como boa somaram 19,8% em janeiro, contra 16,9% em fevereiro.

As novas concessões de crédito no Brasil caíram 7,5% em janeiro, enquanto a taxa média de juros subiu, e a inadimplência recuou levemente, informou ontem o Banco Central.

O crédito total disponibilizado pelo sistema financeiro nacional, incluindo recursos livres e direcionados, aumentou 0,7% em fevereiro, para R$ 1,422 trilhão. Como resultado, os empréstimos totais passaram a representar 44,6% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 45% em dezembro.

Segundo o BC, houve avanço em modalidades como crédito pessoal e rotativo, associado à concentração de compromissos financeiros e tributários no início do ano.

Considerando as operações com recursos livres, a taxa média de juros aumentou 0,8 ponto percentual em relação ao final do ano passado, para 35,1% ao ano. A inadimplência, referente aos saldos em atraso acima de 90 dias, passou de 5,6% em dezembro para 5,5%.

São Paulo lança o Salariômetro na internet

25 de fevereiro de 2010

O Globo (RJ)

Site permitirá que trabalhador compare a faixa salarial de pessoas do mesmo ramo no país


Wagner Gomes


SÃO PAULO. O governo de São Paulo lançou ontem um serviço pela internet, o “Salariômetro”, que permite que o trabalhador saiba o salário médio de pessoas com perfil profissional parecido com o dele em todo o país. O site se baseia nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), mantidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O governador José Serra (PSDB) disse que o serviço beneficia trabalhadores, sindicatos e empresas de pequeno e médio porte, que não têm dinheiro para contratar uma pesquisa sobre o mercado de trabalho.

— É uma forma de aperfeiçoar a transparência do mercado de trabalho — disse Serra. — O trabalhador vai conseguir saber agora quanto ganha o profissional em determinada região.

Quanto pagam para uma mulher ou para um homem. É uma orientação que serve aos trabalhadores, aos sindicatos e também às empresas.

O serviço informa o salário médio das pessoas contratadas no mercado formal, com carteira assinada, nos seis meses anteriores à consulta. Informa ainda a quantidade e a idade média dos trabalhadores empregados por categoria em dezembro de 2008. Estão disponíveis para consulta 2.422 profissões em todo o país. O projeto foi desenvolvido com parceria da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo.

Para Serra, informação estimulará isonomia

Pelo site (www.salariometro.sp.gov.br) é possível saber que um mergulhador de 36 anos no Rio de Janeiro, por exemplo, ganha R$ 1.579 por mês, bem mais que os R$ 949 pagos em Santos e R$ 1.180 pagos em São Sebastião, no litoral paulista. Em São Paulo, um arquiteto entre 25 e 29 anos ganha, em média, R$ 3.189. Um trabalhador com essa mesma faixa etária recebe em Pernambuco R$ 2.212 e em Minas Gerais R$ 2.087. Segundo Serra, a ferramenta também pode estimular campanhas por melhores condições de remuneração.

— A primeira condição para mudar uma situação é conhecêla.

Isso vai ajudar a desenvolver lutas por maior isonomia, não tenho dúvida — disse ele.

Em São Paulo, é possível saber o salário médio por município.

Para conhecer o salário médio de admissão, o usuário preenche na internet um formulário em que informa o código referente a sua profissão, faixa etária, cor, gênero, escolaridade, setor e unidade da Federação.

— O objetivo não é fiscalizar, mas levantar os problemas.

Chega no Brasil de esconder sujeira debaixo do tapete. A ideia é corrigir possíveis distorções (salariais) existentes, a disparidade regional. A comparação universal vai colaborar e muito com o debate sindical no Brasil — disse o secretário de Estado do Emprego e Relações do Trabalho de São Paulo, Guilherme Afif Domingos.

Mesmo com inadimplência em queda, juro sobe

25 de fevereiro de 2010

O Globo (RJ)

Taxa média cobrada pelos bancos no crédito para pessoas físicas avançou em janeiro. E continua subindo este mês


Patrícia Duarte


BRASÍLIA. Mesmo com a inadimplência em queda, custos de captação praticamente inalterados e a taxa básica do país estável há cerca de cinco meses (em 8,75% ao ano), o consumidor brasileiro começou 2010 com juros mais elevados nos empréstimos.

E há poucas chances de o quadro ser mudado. De acordo com o Banco Central (BC), a taxa média para pessoa física subiu 0,3 ponto percentual em janeiro, chegando a 43% ao ano, depois de ter recuado nos dois meses anteriores. Para as empresas o aumento foi ainda maior no período, de 1 ponto percentual, passando a 26,5% ao ano.

Em fevereiro, a escalada continuava. Até o dia 10, as taxas para o consumidor final já estavam em 43,4% e, para as pessoas jurídicas, em 26,7% anuais. Vários fatores explicam esse aumento, passando desde pela maior procura por modalidades de crédito mais caras, como cheque especial, até uma expansão nas margens dos lucros dos bancos.

— O que pudemos perceber é que houve uma mudança no mix das modalidades de empréstimos mais usadas nesse período, com maior peso para as mais caras. Isso acaba afetando a taxa média — explicou o chefe-adjunto do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel.

Em janeiro, segundo o BC, o juro médio do cheque especial foi o que mais subiu, passando de 159,1% ao ano em dezembro para 161,1% em janeiro. Ao mesmo tempo, o saldo total dessa modalidade cresceu 5,1% no período, de longe o maior salto.

Custo de captação ficou praticamente estável

A pressão sobre as taxas de juros agora também vem dos spreads bancários — diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada ao consumidor final. Para a pessoa física, a alta foi de 0,2 ponto percentual, para 31,8 pontos em janeiro, e, até o dia 10 passado, já estava em 32,2 pontos.

Como a inadimplência, uma das principais variáveis do spread, não subiu em janeiro, existem avaliações de analistas de que os bancos também estão elevando suas margens de lucro.

Em janeiro, o custo de captação ficou estável, com ligeiro crescimento de 1 ponto percentual.

Na avaliação do vice-presidente da Anefac (associação que reúne os executivos de finanças), Miguel Oliveira, os bancos estão subindo os juros agora por causa da elevação do risco internacional, com a crise na Europa, e pela expectativa de que o BC vai elevar a Selic em breve, em março ou, no máximo, em abril.

— Os bancos exageram na subida dos juros diante das expectativas.

Quando o BC subir de fato a Selic, há chances de os juros para o consumidor caírem um pouco — avaliou Oliveira.

Sobram recursos para comércio global

25 de fevereiro de 2010

Valor Economico (SP)

Crédito: Redução da atividade faz sobrar mais de 30% dos R$ 250 bi de "finance trade" reservados pelo G-20

Assis Moreira, de Genebra

Está sobrando crédito para o comércio internacional. Do pacote de US$ 250 bilhões que o G-20 implementou no ano passado, a demanda foi de apenas 67%, significando que mais de US$ 80 bilhões continuam disponíveis. Foi o que revelou ontem ao Valor o diretor-adjunto do Departamento de Comércio e Agricultura da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Raed Safadi.

"Não há penúria, esse crédito continua existindo", disse o economista. Nesse cenário, ele vê consenso entre economistas de que o comércio internacional está "voltando ao normal passo a passo" e pode crescer 4% este ano. Ontem, Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) atribuiu a brutal queda de 12% no comércio global em 2009, entre outros fatores, à falta de financiamento.

O mercado global de crédito ao comércio ("trade finance") é descrito como a "graxa" para facilitar exportações e importações, normalmente com maturação de até 180 dias. No total, esse tipo de operação cobre entre 80% e 90% dos mais de US$ 12 trilhões do comércio mundial.

Quando as linhas de credito secaram em meados do ano passado, o G-20, reunindo as maiores economias do planeta, teve que intervir com um pacote bilionário para dois anos, reativando o "trade finance" por intermédio do Banco Mundial, bancos regionais e instituições oficiais dos países ricos.

Safadi, da OCDE, diz que desde então a situação começou a se normalizar e mais bancos comerciais estão de volta ao mercado. Outras fontes reclamam que as taxas, porem, continuam elevadas. E que se as linhas de credito não foram inteiramente utilizadas, é tambem porque a demanda global por mercadorias continua frágil.

Por outro lado, fontes bancárias acenam com tratamento flexível para o "trade finance" na regulamentação bancaria global que está sendo negociada no Banco Internacional de Compensações (BIS), que é uma espécie de banco dos bancos centrais.

Pelo acordo de Basileia 2, os bancos têm de manter mais capital em proporção do risco dos ativos. E isso teria causado tambem o aperto nas linhas para o comércio exterior.

O acordo de Basileia está sendo revisado e vai endurecer as exigências de capital, para as instituições financeiras correrem menos riscos.

O Brasil foi o primeiro país a insistir na OMC sobre o impacto que as regras do sistema financeiro tem no credito ao comércio, porque este séria um dos modos mais seguros de crédito, devido à sua curta maturidade e existência de garantia física (os produtos), por exemplo.

Agora, as indicações são de que os reguladores mostram-se favoráveis à possibilidade de reformar as regras para o "trade finance". Mas querem mais demonstrações de que essas linhas de crédito são relativamente seguras.

Bancos públicos devem manter dianteira no crédito, indica BC

25 de fevereiro de 2010

Valor Economico (SP)

Sistema financeiro: Estimativa de aumento da oferta pelas instituições estatais é de 20%

Mônica Izaguirre, de Brasília

O Banco Central refez suas projeções e concluiu que os bancos públicos continuarão liderando a expansão do crédito em 2010. Em vez de 17,1% como estava previsto anteriormente, a carteira das instituições financeiras estatais deverá crescer 20%. As operações dos bancos privados, no entanto, deverão se expandir num ritmo quase igual ao dos públicos e fechar o ano com saldo 19% acima do existente no fim de 2009. As previsões foram divulgadas ontem pelo chefe adjunto do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel.

O ano começou com elevação na taxa média de juros. Tomado como referência um universo de R$ 722,1 bilhões em operações de crédito livre (não direcionado), a taxa passou de 34,3% para 35,1% ao ano em janeiro, comparativamente a dezembro. Os juros subiram basicamente por aumento de spread e não por aumento do custo de captação dos bancos.

A expectativa do BC sobre a ampliação das carteiras indica que, comparativamente ao desempenho obtido no ano passado, o sistema financeiro privado apresentará maior dinamismo, pois mais que dobrará sua taxa de crescimento. No caso dos bancos privados sob controle nacional, essa taxa foi de apenas 8,7% em 2009. No caso dos privados sob controle estrangeiro, sequer houve crescimento no ano passado, pois a respectiva carteira de crédito caiu 0,4% no período. Para 2010, o BC acredita em expansão de 19% em ambos os casos.

Embora superior a isso, o aumento esperado no volume de operações dos bancos estatais, por sua vez, indica perda de ritmo em relação a 2009. No ano passado, eles viram sua carteira de crédito ampliar-se em expressivos 31,1%, taxa mais de 50% superior à prevista para 2010. A perda de velocidade de expansão, nesse caso, representa uma volta à normalidade. É que o salto da carteira das instituições estatais em 2009 decorreu de um esforço excepcional feito pelo governo federal, que não hesitou em fazer dos bancos sob seu controle um instrumento de combate aos efeitos da crise financeira mundial. Eles fizeram mais operações de crédito do que fariam inicialmente, para compensar a escassez de crédito privado.

A crise também foi motivo do baixo crescimento das operações do sistema financeiro privado em 2009. As instituições se retraíram, parte pelo aumento da aversão a riscos, parte pela redução da liquidez. Sob essa perspectiva, portanto, a retomada do ritmo em 2010 também representa volta à normalidade.

No seu conjunto, as operações de crédito do sistema financeiro deverão crescer 19% este ano. Em janeiro, houve aumento de apenas 0,7%, mas porque há, todo início de ano, redução sazonal da demanda por novas concessões de crédito, informou Túlio Maciel. Com isso, o saldo, que era de aproximadamente R$ 1,411 trilhão no fim de dezembro, subiu para R$ 1,422 trilhão, cifra equivalente a 44,6% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado pelo BC para o período de 12 meses encerrado em janeiro. Desse total, R$ 591,685 bilhões correspondem à carteira dos bancos estatais, R$ 574,436 bilhões à dos bancos privados sob controle nacional e R$ 256,216 bilhões à dos bancos privados sob controle estrangeiro.

Em relação às taxas de juros, o BC informou que a média subiu de 42,7% para 43% ao ano no caso do crédito a pessoas físicas. Embora ainda bem inferiores, os juros médios das operações com pessoas jurídicas subiram ainda mais, passando de 25,5% para 26,5% ao ano.

Praticamente toda a elevação na taxa média geral correspondeu à elevação de spread, que aumentou 0,7 ponto percentual em janeiro, para 25,1 pontos percentuais. O spread é a diferença entre a taxa paga pelo banco para captar recursos e a que ele pratica na ponta do crédito. No caso das operações com empresas, o spread, que subiu de 16,5 para 17,5 pontos percentuais, respondeu integralmente pela variação da taxa média de juros. Para as pessoas físicas, por sua vez, a diferença entre taxa de captação e taxa de aplicação dos bancos subiu menos, de 31,6 para 31,8 pontos percentuais.

A subida de spreads detectada pela pesquisa mensal do BC veio após dois meses seguidos de queda. A taxa média final de juros também tinha caído em novembro e dezembro. Números parciais, relativos aos primeiros oito dias úteis do mês, indicam que em fevereiro poderá haver nova elevação tanto de juros quanto de spreads. Túlio Maciel disse que, apesar disso, o BC não dispõe de elementos para afirmar que esse movimento represente uma tendência. "Poder ser que seja apenas um ponto fora da curva, como foi a elevação ocorrida em outubro", disse o chefe adjunto do Depec.

Tanto a taxas finais quanto os diferenciais em relação a custo de captação são apurados pelo Banco Central levando em conta o volume de concessões feito no mês em cada uma das modalidade de crédito, que são muitas. Ou seja, a média é ponderada, de acordo com o peso de cada uma no total. Como existem modalidades mais caras e modalidades mais baratas, mesmo sem alteração das taxas de cada uma, a pesquisa da autoridade monetária pode, portanto, apontar subida de juros médios, se houver uma mudança significativa do mix de concessões de crédito de um mês para outro, explicou Túlio Maciel.

Segundo ele, efetivamente houve uma mudança de mix em janeiro. Por isso, acrescentou, "não necessariamente" a elevação das taxas médias de juros e dos spreads decorreram de uma elevação da margem de lucro dos bancos.

Conforme o chefe adjunto do Depec, o BC notou aumento de demanda por modalidades mais caras de crédito, como a conta garantida (cheque especial das empresas), principalmente no segmento de pessoas jurídicas. Não foi a toa que a taxa subiu mais justamente nesse segmento, destacou.

A pesquisa mensal do BC apontou ainda ligeira redução da inadimplência das operações tomadas como referência para levantamento das taxas de juros (R$ 722,1 bilhões, de um total de R$ 1,422 trilhão).

O percentual de operações com parcelas em atraso há mais de 90 dias caiu pelo segundo mês consecutivo, de 5,6% para 5,5%. No segmento de pessoas físicas, a inadimplência recuou de 7,8% para 7,7%. Já entre as empresas, manteve-se em 3,8%.

Ásia puxa retomada global, mas será que o fôlego vai durar?

25 de fevereiro de 2010

Valor Economico (SP)

Pós-recessão: Recuperação ainda é assimétrica; EUA avançam devagar, Europa patina e Japão é incógnita

David Wessel, The Wall Street Journal

A recessão mundial foi fabricada nos Estados Unidos. A recuperação está sendo feita na Ásia.

Dados da semana exemplificam bem esse contraste forte: a Tailândia informou que sua economia cresceu a um ritmo anualizado de 15,3% no quarto trimestre e Taiwan anunciou que a sua cresceu 18%. Mas a Alemanha divulgou que não cresceu no mesmo trimestre, e o único motivo por que não houve contração foi que a indústria local conseguiu aumentar as exportações para economias mais sadias.

"A contração foi muito sincronizada. Mas a recuperação? Cada vez menos", diz Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Veja a sala de recuperação da economia mundial. A primeira parada são as economias ricas e maduras: EUA, Europa e Japão. Nenhuma ainda recuperou a saúde, mas os EUA estão mais corados.

A economia americana está crescendo, graças a uma combinação de insulina (o estímulo fiscal e monetário) e açúcar (a ansiedade dos empresários de preencher estoques vazios). Pelo padrão de outras recuperações, todavia, o crescimento não é tão veloz.

Os consumidores americanos, agora mais parcimoniosos, hesitam em gastar. Os bancos não querem emprestar. As empresas não querem contratar. O governo não quer injetar mais estímulo. Mas economistas do J.P. Morgan Chase, mais otimistas que outros, preveem que o PIB americano voltará ao nível de antes da recessão em meados de 2010. Europa e Japão só devem atingir esse nível lá por 2012.

A Europa ainda parece adoentada. A recessão lá foi mais profunda, e o estímulo fiscal e monetário menos agressivo que nos EUA e na China. Suas empresas dependem mais dos bancos que as americanas, e os bancos europeus não têm sido - ou não foram forçados a se tornar - tão transparentes sobre suas perdas ou tão rápidos na hora de aumentar a reserva de capital.

E os pecadores da Europa, países que gastavam e tomavam emprestado bem mais do que podiam, estão sendo forçados à contrição: Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal. Como compartilham a moeda, o euro, e tiveram de ceder ao Banco Central Europeu a política monetária, não podem cortar a taxa de juros nem deixar a moeda desvalorizar para vitaminar as exportações. Agora sua capacidade de tomar empréstimo barato para suavizar a crise foi posta em xeque.

As únicas opções são as mais dolorosas: orçamentos austeros e cortes salariais para tornar as exportações mais atraentes. O Reino Unido pode se dar ao luxo de desvalorizar a libra esterlina, mas, como notou esta semana o presidente do BC britânico, Mervyn King, exportar para se salvar da crise depende do interesse europeu em comprar os produtos britânicos.

O Japão é o mais difícil de decifrar. Como outras economias dependentes da exportação, o país foi prejudicado quando os EUA pararam de comprar. As exportações japonesas para os EUA caíram 31% em 2009, em relação a 2008. Mas o Japão também está se beneficiando da proximidade com a China, que superou os EUA no ano passado e virou o maior destino das exportações japonesas. As vendas do país para a China em janeiro foram 80% maiores que no mesmo mês do ano passado, informou ontem o governo japonês. Essa expansão é três vezes maior que a das exportações para os EUA no mesmo período. O desempenho do Japão no quarto trimestre inspirou otimismo, mas a persistente ameaça de deflação e de paralisia política tornam seu futuro nebuloso.

A grande pergunta em relação a essas economias, apesar de tantas diferenças, é: à medida que o estímulo fiscal se esvai e se aproxima a hora em que os bancos centrais terão elevar os juros extraordinariamente baixos, será que o consumo e a demanda das empresas vão reavivar e sustentar a recuperação?

Passe agora à outra sala de recuperação, onde convalescem os mercados emergentes da Ásia. Não apenas eles já se levantaram do leito como também voltaram ao trabalho e ensaiam até umas flexões.

A China lidera a fila e mostra que uma vantagem de um governo autoritário é poder injetar doses gigantescas de estímulo rapidamente e ordenar aos bancos que emprestem. A política chinesa foi tão bem-sucedida que o BC do país está restringindo o crédito bancário para não estimular demais a economia e provocar bolhas.

Os outros países da região estão compensando um pouco do enfraquecimento das exportações aos EUA com mais vendas para a China, além de receberem um volume maior de turistas chineses. Entre as economias asiáticas, as mais ligadas à China - como Cingapura, Malásia e Cingapura - são as que cresceram mais rapidamente.

Mas os consumidores asiáticos também estão fazendo a sua parte. As vendas de automóveis na Malásia subiram 33% em janeiro, em relação a um ano atrás; as da Índia, 50%. Já nos EUA, as vendas de carros subiram só 6% em janeiro.

De fato, um marco foi alcançado sem muito alarde durante a crise. Os consumidores dos mercados emergentes, mais numerosos e prósperos do que há algumas décadas, gastaram mais que os consumidores americanos pela primeira vez na história moderna.

Os consumidores dos mercados emergentes devem responder este ano por 34% do consumo mundial, enquanto os americanos ficarão com 27%, calcula o J.P. Morgan Chase. Vinte anos atrás, a proporção era 23% e 29% respectivamente. "Não é exagero dizer que o consumidor dos mercados emergentes fez pelo mundo em 2009 o que o consumidor americano fez em 1998 [durante a crise financeira asiática]", diz o economista Bruce Kasman, do J.P. Morgan.

A Ásia não pode impulsionar sozinha o crescimento mundial. Sua economia continua depende das exportações, e isso significa que os emergentes asiáticos também acompanham atentamente a outra ala da sala de recuperação, na esperança de um renascimento do consumo e do investimento empresarial nas economias maduras.

Investimento puxa PIB do fim de 2009, mas ano fica no zero

25 de fevereiro de 2010

Valor Economico (SP)

Conjuntura: País não registra variação negativa da atividade desde 1992

João Villaverde, de São Paulo

A forte recuperação do investimento no fim do ano passado ajudou o Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre a crescer próximo a 2,5% sobre o resultado do terceiro trimestre, mas ainda assim a economia brasileira encerrou o ano com um desempenho próximo do zero, segundo as contas feitas pelas consultorias econômicas. Pelas previsões dos analistas consultados pelo Valor, o PIB de 2009 variou entre 0,1% e -0,3%. Se confirmada a queda, será a primeira vez desde 1992, quando o PIB caiu 0,5%, que haverá variação negativa da atividade econômica.

O que poderia manter o PIB no terreno positivo, segundo os analistas, seria uma elevação dos investimentos muito superior ao estimado hoje. Os economistas calculam que o aumento dos investimentos foi de "pelo menos" 7% nos últimos três meses do ano passado, superior aos 6,5% registrados entre julho e setembro. Mas, avaliam, "é um dado que pode surpreender para cima". O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga no dia 11 de março os dados relativos à atividade no ano passado.

"Esperamos que, ao divulgar os resultados do quarto trimestre, o IBGE também revise, para cima, os indicadores referentes ao segundo e terceiro trimestres", avalia Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco. Esta também é a aposta de Júlio Callegari, economista do J.P. Morgan, para quem os dados de 1,1% e 1,3%, do segundo e terceiro trimestres, respectivamente, serão revisados para 1,4% e 1,8%.

Ao mesmo tempo, calcula Callegari, o PIB dos últimos três meses de 2009 cresceu 2,4%, com ajuste sazonal, sobre os três meses anteriores, configurando variação anualizada superior a 9%. "A percepção que se fará, então, é de que estávamos crescendo mais forte do que imaginávamos", afirma Callegari, "mesmo que o PIB seja zero".

A alta dos investimentos será contrabalançada por uma variação menor do consumo das famílias, graças à combinação entre a retirada dos estímulos fiscais por parte do governo e o consumo já efetuado, que não se repetirá. A LCA Consultores calcula que houve diminuição de 2% para 1% no consumo das famílias, entre o terceiro e o quarto trimestres. O Itaú Unibanco espera alta de 2% na mesma comparação, mas conta com a revisão do dado do terceiro trimestre, que subiria para 2,4%. Para Bicalho, o quarto trimestre serviu para "consolidar a recuperação iniciada em abril, quando deixamos para trás a pequena recessão do pós-crise". Segundo avalia ele, o "carry-over" para 2010 ficará entre 2,7% e 3%, o que significa que, se nenhuma turbulência ocorrer - e nenhum crescimento extra se verificar - ao menos 3% do PIB estão garantidos para este ano.

As turbulências mundiais fizeram a atividade despencar cinco pontos percentuais entre 2008 e 2009, mas foram os investimentos os que mais sofreram com o baque internacional. Segundo dados do IBGE, a produção de máquinas e equipamentos, que funciona como indicador dos investimentos, despencou 10,9% no último trimestre de 2008, e 17,9% nos primeiros três meses do ano passado.

Houve queda forte também no mercado de trabalho, mas por tempo mais curto e com reversão mais rápida. Os 736,1 mil postos de trabalho perdidos entre outubro de 2008 e janeiro de 2009 foram revertidos nos sete meses até agosto, quando os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) acumularam saldo líquido de 781,8 mil vagas. A recuperação da produção industrial, no entanto, demorou mais a acontecer.

Se o consumo das famílias e o mercado de trabalho já estavam reagindo nos primeiros meses do ano, ajudando a puxar a recuperação da atividade a partir do segundo trimestre, foram os investimento em aumento de produção industrial que puxaram o PIB no segundo semestre do ano, avaliam os economistas. A produção de máquinas e equipamentos aumentou 13,3% entre outubro e dezembro, depois de ter crescido 6,5% no terceiro trimestre.

"O Brasil deu show no ano passado. É preciso ressaltar que um PIB próximo a zero num ano de crise mundial é algo muito bom", avalia José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central e sócio da MCM Consultores. Para Senna, a ação do governo foi "inegavelmente" bem feita, uma vez que o BC agiu rápido ao liberar os compulsórios e cortar as taxas de juros, e o governo federal foi "certeiro" em isentar de impostos a indústria, "justamente o setor que mais sofreu com a crise".

Nas contas da MCM, o quarto trimestre passou por elevação de 2,6% sobre o trimestre anterior, o que caracterizaria crescimento anualizado de 10,8%. Segundo Senna, o consumo das famílias deve continuar a se expandir, mas tende a crescer num ritmo menos elevado que o verificado em 2009, em parte porque os estímulos fiscais e monetários serão retirados. "O consumo foi um fator de sustentação da economia, mas, já no fim do ano, os investimentos voltaram com força e são eles que estão puxando a economia neste começo de 2010."