18.6.10

Lula nega risco de oferta

18 de junho de 2010

Jornal do Brasil (RJ)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou que haja risco de a oferta não atender à demanda por produtos, o que aceleraria a inflação. Ele disse que a questão deve ser monitorada, mas ponderou ser possível suprir o mercado com a importação de bens.

– Acho que o Brasil ainda tem espaço para crescer – disse Lula ontem após reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

– Não quero que o Brasil cresça em efeito sanfona – reforçou Lula. – Se a gente crescer 5% ou 6% durante anos de forma sustentável, este país será vítima de uma revolução extraordinária.

O presidente destacou os investimentos no país.

“Este governo socialista, meu e do José Alencar, emprestou R$ 1,5 bilhão em crédito para os bancos oficiais.

Quando chegamos ao governo, o país tinha um crédito de apenas R$ 380 bilhões”, comparou.

Lula voltou a defender a concessão de empréstimos para a população mais pobre.

Como exemplo, citou que em 2002 o Banco do Nordeste (BNB) emprestou R$ 262 milhões, e a inadimplência foi de 37,5%.

Em 2009, o mesmo banco emprestou R$ 22 bilhões, e a inadimplência foi de 3%.

“É muito fácil cuidar dos pobres. É por isso que a gente colhe resultados.”

O presidente participa na próxima semana da reunião do G-20 (20 maiores economias do mundo), em Toronto, no Canadá, e voltou a defender o aumento da participação dos países em desenvolvimento no grupo e no Fundo Monetário Internacional (FMI).

CRÉDITO – Lula defende a concessão para a baixa renda

Com agências

Real já é a 2ª moeda mais negociada no mercado futuro

18 de junho de 2010

DCI (SP)

Fernando Teixeira


SÃO PAULO - Levantamento do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) mostra que a moeda brasileira, o real, já é a segunda moeda mais negociada do mundo no mercado futuro e de opções, atrás apenas do dólar e à frente do euro.

O BIS afirmou, em relatório, que o volume de posições em aberto em contratos futuros e de opções da moeda brasileira subiu 41% nos primeiros três meses de 2010 e chegou à cifra de US$ 140 bilhões de dólares. "A importância da moeda brasileira no segmento de moedas do mercado de futuros e opções se deve ao fato de haver comparativamente poucos negócios no mercado de balcão", informou o banco.

O banco destaca que a moeda brasileira é atraente para investidores graças à força da economia do País, à sua alta taxa de juros, a Selic - hoje a 10,25%- e ao seu status de moeda atrelada a commodities. "Contudo, o real continua sendo uma moeda vulnerável em tempos de grande aversão a risco nos mercados financeiros", afirmou a nota.

Na visão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, vários fatores fazem com que a moeda ganhe status internacional. "A economia brasileira está mais líquida, os títulos brasileiros estão mais líquidos; a moeda inspira mais confiança e também tem outra razão: a rentabilidade do nosso mercado futuro é maior, devido ao fato de a taxa de juros ser maior", ressaltou, durante apresentação ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Para o ministro, o fato de o real ter ultrapassado moedas como o euro e o iene nas negociações futuras é bom para o País. "Podemos dizer que a nossa moeda é uma moeda de curso internacional, tem segurança, garantia e atratividade."

No campo do comércio exterior, Mantega rebateu as críticas de que o Brasil está dando mais ênfase a produtos primários do que a manufaturados. "Hoje, o que está dando mais dinheiro para o Brasil é o minério de ferro, não o setor siderúrgico", afirmou.

Ainda em relação às commodities, o ministro da Fazenda destacou que faltará alimento no mundo nos próximos anos em razão da demanda elevada. "E qual será o país que atenderá a esse aumento da demanda? O Brasil", enfatizou o ministro da Fazenda.

Repercussão

O gerente de Operações da Confidence Câmbio, Felipe Pellegrini, diz que o fato de o real ser a segunda moeda mais negociada no mundo precisa ser analisado com cuidado. "A notícia em si não impacta o mercado, se não o diagnóstico seria uma grande baixa da moeda norte-americana."

Ele explica que a maioria dos contratos futuros é de operações de curto prazo e que os investidores estrangeiros buscam as altas taxas de juros praticadas no Brasil. "Pode ser bom por atrair o câmbio-turismo. Fica fácil viajar para fora. Contudo, o lado ruim da história é que o dinheiro fica pouco no País e não faz investimentos." Para ele, o movimento é nitidamente especulativo, sem envolver investimentos diretos.

Quando questionado se concorda com os analistas que preveem queda da taxa Selic até 2012, Pellegrini ressaltou que taxas de juros altas atraem o investidor estrangeiro. "O mercado sente que o movimento será de altas taxas de juros, apesar de um ano eleitoral. No longo prazo, deverá diminuir, mas não dá para afirmar."

Para ele, o Brasil poderia praticar taxas de juros menores. Uma das soluções, segundo ele, seria o incentivo à produção. "Ainda que tenhamos pressões inflacionárias, há outras maneiras de segurar a inflação sem elevar a Selic. Hoje, a procura é maior que a oferta. A solução é frear com taxas maiores, ou incentivar a oferta?"

Pellegrini enxerga que o fato de um órgão internacional, o BIS, ter emitido o relatório o impacto no exterior pode ser maior. "Fica a propaganda para o Brasil, pois a notícia será lida no mundo todo. Para nós, o melhor cenário seria se os grandes investidores colocassem o dinheiro no longo prazo e incentivassem a produção nacional", reflete o executivo.

De acordo com ele, o investidor internacional levará em conta as ofertas públicas de ações do Banco do Brasil e da Petrobras, além de outras ofertas públicas iniciais de ações (IPO) no segundo semestre. "Podemos ter um aumento do fluxo de dólares."

Para o gerente de câmbio da Treviso Corretora de Câmbio, Reginaldo Galhardo, o fato da moeda brasileira ser a segunda mais negociada no mundo mostra o aumento de credibilidade na imagem do Brasil, perante investidores internacionais.

O gerente explica que o grande volume de negociações em Real acontece porque quando o dinheiro estrangeiro precisa fazer contratos de hedge para negociar.

"Existe a segurança de se fazer as negociações no Brasil, pois o investidor sabe que não haverá mudanças de regras no meio do caminho", analisa ele.

Galhardo disse que o País pode caminhar para uma condição de conversão de moeda e se tornar mundial. "É importante isso para o Brasil ter este destaque."

O dólar comercial fechou ontem a R$ 1,7833 na compra e a R$ 1,7818 na venda, baixa de 0,32%.

Banco Mundial investe em casa popular

18 de junho de 2010

Valor Economico (SP)

Construção: Em sociedade com a Brookfield, instituição entra no Minha Casa, Minha Vida

Daniela D'Ambrosio, de São Paulo

O Banco Mundial, através do braço privado IFC (International Finance Corporation), fechou o seu primeiro investimento no setor imobiliário. O IFC assinou, ontem, acordo com a Brookfield Incorporações no valor de U$ 47 milhões para a criação de uma empresa de baixa renda, que atuará no programa Minha Casa, Minha Vida. O braço do Banco Mundial está fazendo due dilligence para fechar com mais uma construtora. O objetivo é investir US$ 150 milhões na área imobiliária - tanto em empréstimos, quanto participação direta nas companhias.

Dos US$ 47 milhões que o IFC colocará na Brookfield, US$ 30 milhões serão oferecidos por meio de linhas de crédito (de sete anos a uma taxa de CDI mais 2,5%) e US$ 17 milhões em capital próprio do IFC, que representarão 10% das ações da nova subsidiária da Brookfield para baixa renda.

"Vamos ser muito ativos no setor de habitação popular este ano", afirma Andrew Gunther, executivo sênior do IFC para o Brasil. Segundo Gunther, pelo menos mais um negócio deve ser fechado em 2010 pelo órgão. "Temos interesse nesse setor porque tem um grande impacto no desenvolvimento e provoca uma mudança radical na vida das pessoas", diz. Além disso, reconhece, trata-se de um setor bastante demandado e com boas oportunidades de crescimento. O IFC já investiu US$ 2,2 bilhões no Brasil ao longo dos anos em diversos segmentos, como bancos médios, infraestrutura, agronegócio e educação. No último ano fiscal, encerrado em 30 de junho, investiu mais de US$ 1 bilhão.

Como acionista da nova empresa, o IFC terá um assento no conselho de administração, além de poder indicar um executivo para acompanhar o dia-a-dia. Toda a estrutura operacional ficará por conta da Brookfield e o presidente da subsidiária será Marcelo Borba, um dos fundadores da MB Engenharia, empresa adquirida pela Brookfield (na época Brascan). Segundo Borba, a subsidiária deve ter um nome, mas a assinatura Brookfield - de difícil pronúncia para esse público - deve ser mantida.

Entre as empresas abertas de maior porte (Cyrela, PDG, MRV, Gafisa e Rossi), a Brookfield é a que tem a menor atuação e tradição no segmento de baixa renda. Aumentou a presença após a compra da MB, mas ainda assim o segmento representou cerca de 20% dos lançamentos da companhia no ano passado, com menos de quatro mil unidades. "Queríamos conhecer melhor o produto e ganhar experiência nessa faixa de mercado", afirma Nicholas Reade, presidente da Brookfield. "Vamos manter os 20%, mas o total está crescendo", disse.

Para este ano, com o aporte do IFC e a criação de uma empresa focada nesse mercado, a intenção da companhia é lançar entre seis e oito mil unidades. "Agora vamos atuar de maneira focada e integrada no segmento de baixa renda", acrescenta Reade. Até a criação da subsidiária, a atuação da Brookfield na baixa renda era feita por cada uma das unidades de negócios da empresa.

A subsidiária foi avaliada em R$ 300 milhões, segundo Reade, incluindo obras, projetos e terrenos. A Brookfield tem projetos de baixa renda em Cajamar (SP), no Rio de Janeiro e em Goiânia. A empresa vai atuar nos mesmos mercados onde já está: São Paulo e Rio e nas regiões Centro-Oeste e Sul.

Planejamento faz 1º balanço crítico do governo

18 de junho de 2010

Valor Economico (SP)

Era Lula: Documento na internet vê insucessos na educação e na política agrária e desarticulação entre Pastas

Ribamar Oliveira, de Brasília


Em portal na internet, o Ministério do Planejamento, resgastando sua função de planejamento e avaliação da gestão, apresenta, pela primeira vez, avaliações críticas das diversas políticas públicas em execução pelo governo federal, junto com um conjunto abrangente de informações sobre temas econômicos, sociais e de infra-estrutura. Entre outras críticas, o portal diz que a política de reforma agrária do governo Luiz Inácio Lula da Silva não alterou a estrutura fundiária do país e nem assegurou, aos assentamentos, assistência técnica, qualificação, infraestrutura, crédito e educação. Afirma que, em futuro próximo, a produção de biodiesel não será economicamente viável e contesta a proposta de reconstrução de uma indústria nacional de defesa voltada para o mercado interno, prevista na Estratégia Nacional de Defesa. A situação é dramática também para a área da Educação, onde os problemas permanecem inalterados, com mudanças imperceptíveis.

O "Portal do Planejamento" levou um ano e meio para ser desenvolvido pela Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos (SPI), do Ministério do Planejamento, e possui cerca de três mil páginas, abordando 53 temas. Além de destacar o insucesso da política agrária, o texto do portal informa que essa área do governo está, desde 2007, sem plano de voo e sem metas. O diagnóstico, feito pelo Ministério do Planejamento, afirma que a qualidade dos assentamentos é "muito baixa".

O Planejamento diz que, apesar dos esforços feitos pelo governo por meio de programas como o Pronera e o Crédito-Instalação, além de ações do programa de Desenvolvimento Sustentável de Projetos de Assentamento, a qualidade de vida das populações assentadas "permanece muitas vezes a mesma que era antes" de elas terem sido assentadas. Outra crítica feita é a de que os programas oficiais não conseguiram elevar a renda dos agricultores mais frágeis, hoje beneficiários de políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

Na reflexão sobre a política agrícola, o portal diz que o modelo brasileiro se, por um lado, gerou um agronegócio eficiente e produtivo, por outro contribuiu para criar grande concentração de renda e riqueza que, aliada às restrições impostas pela legislação trabalhista ao meio rural, estimularam o fluxo migratório de trabalhadores para os centros urbanos. Segundo a avaliação, além da concentração de terras, "há no setor agropecuário uma concentração de dívidas". O problema do endividamento, acrescenta, "permanece sem solução".

Na avaliação da SPI, embora o Ministério da Agricultura tenha várias iniciativas voltadas para a sustentabilidade ambiental e o BNDES disponibilize linhas de financiamento específicas para a recuperação de áreas degradadas e melhor aproveitamento do solo e da água, "não foi possível identificar como essas iniciativas são monitoradas nem quais são os seus efetivos resultados". O texto diz que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ainda não definiu uma política de curto ou médio prazo para a formação de um estoque estratégico e regulador de produtos agrícolas.

No setor de infraestrutura, os textos do portal oficial criticam, principalmente, a falta de gestão integrada sobre os diferentes temas. Um exemplo é a falta de articulação entre os ministérios de Minas e Energia, Transportes e Meio Ambiente no uso das bacias hidrográficas.

Ganhou destaque, no trabalho do Planejamento, o capítulo da Educação. Não são registrados avanços significativos nesta área, repetindo-se agora, com pouca nuance, os problemas identificados em 2003. Também ontem, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que reúne empresários e governo, a Educação foi tema central, com indicações de que deve merecer das autoridades investimentos prioritários. A educação básica sofre dos mesmos males que sofria em 2003: dificuldades de acesso, notadamente à educação infantil (creches) e ao ensino médio, baixa qualidade da educação oferecida, alta repetência, ainda uma evasão elevada, além de recrudescimento do antigo problema de defasagem idade-série.

Está baixa a frequência a creches, pois, até os 3 anos, apenas 18,1% das crianças as frequentam. No ensino fundamental, onde a escolaridade é quase universal, a ampla cobertura ainda convive com problemas de evasão (6,9%) e repetência (20,1%). No ensino médio, a frequência líquida está em 50,4%, ou seja, apenas a metade dos jovens na faixa etária apropriada estão na escola.

Os técnicos e gestores do Planejamento deixam claro, no seu amplo estudo, que é baixa a qualidade da educação em todos os níveis, os que concluem os cursos não têm o domínio dos conteúdos e as comparações com indicadores internacionais mostram deficiências graves no Brasil.

O analfabetismo funcional, entre jovens e adultos, está em 21% na PNAD de 2008, uma redução pequena com relação à PNAD de 2003, que era de 24,8%. O número absoluto de analfabetos reduziu-se, no mesmo período, de 14,8 para 14,2 milhões, o que aponta a manutenção do problema.

No capítulo sobre Defesa, embora, em sua conclusão, a análise sobre a Estratégia nacional de Defesa afirme ser "positiva" a tentativa de "mudança de paradigma" nas Forças Armadas e no ministério do setor, com maior controle civil, o documento traz uma crítica severa ao classificar de "altamente custosa" a exigência de dinheiro e pessoal prevista pelos responsáveis pelos planos militares do governo Lula. O documento prevê o possível fracasso, por erro de planejamento e falta de verbas públicas, da política de reconstrução da indústria de defesa. Critica também a criação do serviço militar obrigatório que, segundo os analistas do Planejamento, deveriam ter sido discutidas com a sociedade.

Procurado pelo Valor, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse, por meio da assessoria, que não tomou conhecimento antecipado de todo o conteúdo do portal. O ministério sustenta que o objetivo do portal não é fazer críticas, mas instrumentalizar o debate das políticas públicas. (Colaboraram Rosângela Bittar, Sergio Leo, Cristiano Romero e Danilo Fariello)

Crise na UE começa a ser enfrentada

18 de junho de 2010

Folha de S.Paulo (SP)

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

--------------------------------------------------------------------------------
O tratamento recessivo, e não há outro à disposição, vai criar uma nova fonte de problemas para a Europa
--------------------------------------------------------------------------------

A ECONOMIA mundial vive os efeitos de uma segunda onda de choque criada pela crise bancária iniciada nos Estados Unidos. Ainda circunscrita ao espaço comum europeu, os mesmos temores e ansiedades do mercado financeiro em 2008 e 2009 estão de volta. Queda expressiva das Bolsas de Valores, volatilidade das taxas de câmbio de várias moedas e, como sempre, novos e velhos profetas do Apocalipse a pregar o fim dos tempos.
Com a economia mundial ainda vivendo uma lenta e insegura recuperação, esse novo foco de instabilidade pode criar as condições para uma recaída recessiva a nível global. Afinal, a Europa representa hoje mais de um quarto da economia mundial.
Caso ocorra uma nova recessão econômica, os instrumentos que foram utilizados para enfrentar -até agora com sucesso- a primeira crise não estarão mais disponíveis. O endividamento da maioria dos países do G7 já está em níveis críticos e qualquer novo pacote fiscal de estímulos à economia pode detonar uma crise de confiança generalizada. Da mesma forma, a política monetária aproxima-se de seu limite, com os juros de intervenção da autoridade monetária próximos de zero.
Talvez por essa razão os governos dos maiores países europeus, depois de um triste período de desencontros, resolveram agir de forma coordenada para enfrentar esse novo período de incertezas. São várias as fontes de inquietação dos mercados que precisam ser enfrentadas nos próximos meses.
A primeira é o desequilíbrio nos orçamentos da grande maioria dos países da Europa. Para combater a recessão criada pela crise do "subprime", os governos aumentaram os gastos públicos via programas sociais e redução de impostos.
Embora existisse no Tratado de Maastricht a restrição formal de um deficit fiscal limite de 3% do PIB, a gravidade da situação enfrentada após a crise do banco Lehman Brothers fez com que todos fechassem os olhos para essa quebra de compromisso.
Mesmo a Alemanha, que havia exigido esse limite de desequilíbrio fiscal para aderir ao euro, em 1999, tem hoje um deficit da ordem de 5% do PIB. Os países agora terão que implementar programas multianuais de redução dos deficit e a obedecer a regras mais rígidas de seu controle.
Mas, ao trilhar esse caminho de redução dos desequilíbrios em seus Orçamentos, os países europeus vão impor às economias nacionais um choque recessivo. Um corte da demanda pública, em uma situação ainda muito frágil, vai levar a uma nova rodada de crescimento negativo nas economias mais frágeis da zona do euro. Em economias como a alemã, a francesa e a italiana, a desvalorização do euro deve criar, via aumento das exportações, uma força expansionista da demanda privada que pode compensar a retração do setor público.
Mas, nas economias como a grega, que não tem uma indústria competitiva, a resultante final desse ajuste será um aumento da recessão e da pressão por mais cortes de gastos e aumento de impostos.
Esse tratamento recessivo -e não existe outro à disposição dos governos europeus- vai criar uma nova fonte de problemas para a Europa. Os bancos vão sofrer uma nova deterioração na qualidade de seus ativos e, em seguida, terão que reforçar sua estrutura de capital para se manter solventes. Além dessa pressão vinda do lado privado, outra fonte de problemas para os bancos europeus é a perda de valor dos bônus soberanos dos países menos sólidos, como Grécia, Portugal e agora Espanha.
Também no front político começa a se desenhar um cenário de dificuldades. Com vários países tendo que aprofundar e manter a recessão por um período mais longo, a possibilidade de uma crise vir a desestabilizar a implantação dos programas de estabilização deve crescer. Essa contaminação da política pela economia já começa a ocorrer mesmo na Alemanha, país que deve sofrer menos com a austeridade fiscal. Já são claros os sinais de dificuldades do governo de Angela Merkel.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 67, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Agência ameaça baixar nota da Petrobras

18 de junho de 2010

Folha de S.Paulo (SP)

Aumento da endividamento e novas de regras de exploração elevam chances de rebaixamento, afirma Fitch

Para diretor financeiro da Petrobras, não há razão que justifique especulação negativa sobre nota da empresa

PEDRO SOARES
DO RIO

O diretor da agência de classificação de risco Fitch, José Luis Villanueva, disse ontem que "é mais provável" a Petrobras ter um rebaixamento de sua nota de risco após a aprovação das novas regras para exploração de petróleo e por conta do aumento da dívida da companhia.
"A probabilidade de uma ação de "rating" positivo é menor do que uma ação de rating negativo", disse o executivo a investidores em Nova York. A Presidência da República não comentou.
O diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, rejeita tal avaliação: "O "rating" da Petrobras é estável, sem previsão de aumento ou redução, segundo avaliação da própria Fitch. Não vemos razão que suporte especulações negativas".
Uma das principais preocupações da Petrobras ao lançar seu plano de capitalização foi justamente evitar o rebaixamento de sua nota de risco, hoje em nível de investimento -o que abre espaço para uma gama maior de investidores comprarem ações e títulos de dívida.
Isso porque o endividamento da companhia como proporção de seu valor de mercado está perto do teto de 35% definido pelas agências de classificação de risco para empresas grau de investimento. A relação bateu em 32% no primeiro trimestre. O endividamento total da companhia foi a R$ 61 bilhões.
Com a aprovação do Congresso, a estatal espera obter entre US$ 50 bilhões e US$ 60 bilhões no mercado -já com a fatia aportada pela União, por meio das reservas inexploradas do pré-sal.
Outro receio do mercado é a imposição do novo marco legal para o pré-sal -de que a Petrobras seja detentora de, pelo menos, 30% de todos os blocos-, o que aumentará muito a necessidade de captação de recursos para investimento e poderá afetar os indicadores de solvência da companhia.

Com agências de notícias

China debate manutenção de mão de obra barata

18 de junho de 2010

Folha de S.Paulo (SP)

Salários aumentam após greves na Honda e suicídios na Foxxconn

Paralisação em fábricas associadas a governo desaparece da mídia estatal; jornal cobra "empresas ocidentais"

FABIANO MAISONNAVE
DE PEQUIM

Uma série de aumentos salariais após greves em grandes multinacionais no sul da China reacendeu o debate sobre se a chamada "fábrica do mundo" está finalmente deixando de ser uma fonte de mão de obra barata.
O caso mais emblemático é o da Honda. Nas últimas semanas, três greves afetaram unidades distintas da empresa, uma situação inédita nos 18 anos de presença da multinacional japonesa na China.
Na primeira greve, encerrada há duas semanas em Foshan, Província de Guangdong, a Honda elevou em 24% os salários de 2.000 funcionários de sua fábrica de sistemas de transmissão.
O acordo incentivou mais duas paralisações. A empresa agora enfrenta uma greve em Zhongshan, perto de Foshan, numa fábrica de autopeças na qual a prefeitura local é sócia minoritária, com 35%. Ali, os trabalhadores querem um aumento de 50%, para chegar a um teto equivalente a R$ 436, além de dormitório gratuito.
Mas a Honda endureceu, aparentemente com o apoio do governo local: começou a contratar trabalhadores substitutos, ao mesmo tempo em que a imprensa estatal do sul da China deixou de noticiar a greve, não repetindo a ampla cobertura dada à paralisação de Foshan.

SUICÍDIOS
Além da Honda, a taiwanesa Foxconn, que fabrica componentes para a Apple e a HP, ficou sob intensa pressão depois que ao menos dez de seus 400 mil funcionários se suicidaram neste ano.
Depois de instalar redes de segurança embaixo de seus dormitórios em Shenzhen para evitar que funcionários se matassem saltando pela janela, a Foxconn dobrou salários e prometeu melhorar as condições de trabalho.
Mesmo com a proibição da existência legal de sindicatos, milhares de protestos provocam o aumento salarial desde o início dos anos 1990, e as fábricas mais baratas já migraram para países como Vietnã e Camboja.
A diferença é que, desta vez, os protestos envolvem grandes multinacionais e recebem uma ampla cobertura da imprensa estatal.
"As nações ocidentais têm regularmente criticado a China sobre direitos humanos", escreveu o analista Zhou Zixun no jornal "Global Times", do Partido Comunista.
"Se essas críticas são sinceras, deveriam pressionar suas empresas a usar parte dos seus lucros para cobrir os crescentes salários dos trabalhadores chineses."

FILHOS
Na segunda-feira, o governo chinês deu outro sinal de que apoia um aumento real dos salários, principalmente dos cerca de 130 milhões de migrantes que deixaram a zona rural em busca de empregos nas fábricas.
O premiê chinês, Wen Jiabao, defendeu melhores condições aos trabalhadores migrantes chineses.
"Os trabalhadores rurais migrantes são o principal exército da força de trabalho contemporânea chinesa", disse. "O governo e a sociedade deveriam tratar os jovens migrantes como seus próprios filhos."

DIFICULDADE
Para Mary Gallagher, especialista em relações de trabalho na China da Universidade de Michigan, as fábricas já enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores do interior dispostos a enfrentar longas jornadas de trabalho em troca de baixos salários.
"Acho que não está claro se essa falta de trabalho nos centros manufatureiros da costa é realmente um indicativo de uma maior e mais permanente mudança nos mercados de trabalho da China."
Isso se deve principalmente ao fato de que esses mercados de trabalho ainda são muito imperfeitos e segmentados", disse à Folha.