O tema da desindustrialização ou da reindustrialização brasileira ocupa
espaço crescente no debate acadêmico, mas ainda não galvanizou a agenda
política; é premente que isso aconteça. Mas, sobretudo, que se faça a
partir do significado abrangente que a industrialização pode ter no
processo de desenvolvimento de uma sociedade. Um primeiro cuidado é não
'tomar a nuvem por Juno'. Industrialização não é galpão fabril. Não é
um fetiche ou o anacronismo desenvolvimentista 'de uma certa esquerda',
como querem alguns denominados 'economistas de mercado'.
Assim
justamente denominados, diga-se. Mesmo depois do que o mercado mostrou
ser capaz quando entregue a sua própria lógica, eles continuam firmes
no leme: até baixar juro de bancos estatais e expandir o crédito, no seu
douto entendimento, seria 'interferência política'; afrontaria a livre
ação dos mercados. Suicidas europeus tem opinião diversa, mas passemos.
"Industrialização é a capacidade soberana que tem uma economia de
construir um polo irradiador de inovação e produtividade", explica a voz
ecumênica, ponderada e sempre ouvida do economista Luiz Gonzaga
Belluzzo.
Dono de um currículo que lhe permitiria pontificar
enunciados e ter audiência atenta, Belluzzo não se acomoda a esse papel.
A gripe o golpeia, mas lá está o intelectual engajado a se debruçar
sobre o século XIX norte-americano, desde as primeiras horas da manhã de
segunda-feira. "O que eles fizeram (os EUA) foi isso; foi o mesmo que
fez a Alemanha e, mais recentemente, os chineses. Criaram um arcabouço
que propiciou a integração do setor financeiro com a indústria, sob
indução estatal. Ampliaram a escala das empresas e, desse modo,
robusteceram o espaço econômico de um setor estratégico de bens de
capital, a mola sistêmica que dissemina inovação e produtividade em
múltiplas frentes'.
O longo amanhecer do desenvolvimento
brasileiro, um bordão de Celso Furtado, ainda encerra a esperança de um
salto nesse sentido? Belluzzo recupera o fio da meada - o significado
político da industrialização. Não é uma agenda técnica. É uma escolha
histórica. Não está ao alcance de todos os povos. Almejá-la, ao menos na
forma de uma iniciativa política soberana requer justamente uma demanda
intersetorial que viabilize o florescimento de um complexo produtor de
máquinas e inovação. Uma coisa não existe sem a outra: projeto político
soberano e salto industrializante.
'É um equívoco deslocar o
debate para uma disjuntiva que contrapõe a manufatura à agricultura.
Quando se fala em processo de desenvolvimento, a tecnologia de um e de
outro setor, rural ou urbano --ambientalmente sustentável em ambos os
casos-- virá do segmento de bens de capital; impulsioná-lo pode decidir
o rumo de um país, o nosso, por exemplo, nas próximas décadas', pondera
Belluzzo.
As interações entre a decisão de construir uma
economia forte e soberana não são estranhas à decisão de se ter ou não
uma democracia capaz de estender os princípios equânimes dos direitos
civis aos direitos sociais. Um país sem capacidade soberana de
estruturar o seu desenvolvimento pode delegar à sociedade, de fato, o
escrutínio do seu futuro? Dificilmente. No fundo é essa liberdade
essencial, mãe da liberdade individual que efetiva o potencial humano
almejado por Marx, que leva também o intelectual Luiz Gonzaga Belluzzo a
se debruçar sobre o século XIX norte-americano para vislumbrar o XXI
brasileiro.
Não é uma esperança desprovida de materialidade
histórica. "O Brasil tem uma chance; uma fronteira que o autoriza a
incluir a industrialização, assim entendida, na agenda do nosso tempo:
essa fronteira é o pré-sal', diz ele. Curto e grosso: desdenhar da
agenda da industrialização é desdenhar do maior trunfo representado pelo
pré-sal --e vice-versa.
Um primeiro passo foi assegurado no
governo Lula. O encadeamento virtuoso requeria um lacre de segurança que
garantisse a permanência dessa riqueza no metabolismo da economia
brasileira. A regulação soberana da exploração do pré-sal construiu essa
blindagem que dá a chave de acesso às reservas à Petrobras. Foi uma
decisão que evidenciou o antagonismo agudo com interesses contrário ao
papel da empresa no país.
Esse antagonismo foi escancarado mais
uma vez nas eleições de 2010 pelo assessor do programa de energia de
José Serra, David Zylberstajn. Ex-dirigente da Agencia Nacional de
Petróleo no governo FHC, Zylberstajn declarou ao Valor, em 06-10-2010,
que aconselharia Serra, caso eleito, a reverter o modelo do pré-sal
aprovado pelo Congresso. O próprio Serra confidenciaria a representante
das petroleiras internacionais que reverteria o modelo que dava o
comando da exploração à Petrobras e a prerrogativa de comercialização do
óleo à nova estatal criada para esse fim, a Pré-Sal Petróleo SA.
A
radicalização das escolhas tem motivações superlativas. Estão em jogo
reservas que concentram cerca de 70 bilhões de barris; podem chegar a
100 bilhões.Uma poupança fabulosa guardada no fundo do mar em pleno
ciclo de escassez e valorização do combustível. O que Belluzzo está
dizendo é que esse trunfo mudou o tamanho do Brasil na geopolítica
mundial. Mudou também o horizonte do seu desenvolvimento, credenciando o
país a um novo ciclo de industrialização coroada por um setor de bens
de capital disseminador de inovação e riqueza.
Toda uma cadeia de
equipamentos, máquinas, logística, tecnologia e serviços diretamente
ligados e também externos ao ciclo do petróleo poderá ser alavancada nos
próximos anos, transformando o Brasil, também, num grande exportador
industrial.
Para que essa oportunidade não se perdesse era vital a
definição de um “dosador” soberano capaz de coordenar duas variáveis
básicas: o ritmo da extração e refino e a sua sintonia com a capacidade
brasileira de atender à demanda por plataformas, máquinas, barcos,
sondas e centenas de outros equipamentos requeridos no processo. Se o
comando estratégico escapar ao controle nacional, a demanda por bens de
capital, os empregos inscritos no processo e o multiplicador de renda
que ele representa vazarão para o exterior. O custo não é apenas
contábil.
Belluzzo reitera: industrialização é soberania
econômica. Por trás do tema 'técnico' encontra-se talvez o mais
importante salto de desenvolvimento e democracia ao alcance do país em
nosso tempo. Certas ofertas da história não se repetem. Partidos,
sindicatos e movimento sociais tem a responsabilidade de não desperdiçar
o bilhete premiado.
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