29.6.12

Mercodilemas, mercosurpresas


A reunião de chanceleres do Mercosul começou com um um fato previsível e uma surpresa. O previsível foi a confirmação de medidas para registrar a repulsa sulamericana à ruptura institucional no Paraguai. A surpresa, a renúncia do brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães do cargo de alto representante do Mercosul. Guimarães vinha, há algum tempo, expressando seu descontentamento com a consistência do Mercosul. O bloco sulamericano enfrenta um desafio que não é novo, mas que a crise do Paraguai mostra com toda sua crueza. O artigo é de Martín Granovsky.

Governo deve prorrogar IPI menor para linha branca e móveis


O governo deve anunciar nesta sexta-feira (29) que estenderá o prazo de validade da redução da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os setores de linha branca, móveis, entre outros.
A redução, que inicialmente terminaria em março, foi prorrogada até este sábado (30). A indústria revindica nova prorrogação. O governo vinha negando, mas deve atender ao pedido.
Em uma conversa com a agência de notícias "Reuters" pela manhã, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao ser questionado se o governo anunciaria a prorrogação do benefício respondeu: "Presta atenção hoje à tarde". Mantega está em Mendoza, na Argentina, para reunião do Mercosul. Ele deve voltar para São Paulo ainda hoje.
Os preços dos eletrodomésticos da linha branca caíram até 7% com o corte do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para o segmento. O levantamento foi feito pela consultoria GFK.
O levantamento da GFK mostra que o corte do imposto resultou na redução de 7,37% no preço dos tanquinhos, por exemplo.

Para chegar a essa variação, o estudo comparou o preço médio cobrado em dois períodos: entre dezembro de 2010 e abril de 2011 (quando não havia mudança no IPI); e entre dezembro de 2011 e abril de 2012 (período em que o imposto já estava reduzido).

Empresários antecipam medida do governo

Segundo a agência de notícias Reuters, um empresário ligado a um dos segmentos beneficiados afirmou que já recebeu o sinal do governo de que a medida será prorrogada. 
No dia 26 de março, o governo já havia estendido a redução do IPI para produtos de linha branca, adotada em dezembro de 2011, e reduziu pela primeira vez o IPI de móveis, papel de parede e luminárias.
Na linha branca, a alíquota para fogões permanecerá em zero; em 5% para refrigeradores e congeladores; em 10% para lavadoras; em zero para tanquinhos; em zero para móveis; em zero para laminador; e em 10% para papel de parede.
A decisão de prorrogar a redução do IPI faz parte do arsenal do governo para tentar estimular a economia brasileira, que ainda patina por conta da crise internacional.
Nesta quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou mais um pacote, sustentado pelo aumento das compras governamentais e pela redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), de 6% para 5,5%.
Mantega indicou ainda que os estímulos à economia não terminaram. "O governo vai continuar tomando medidas. Essa não é a única medida a ser tomada... Podemos garantir que o PIB (Produto Interno Bruto) está crescendo e vai crescer mais no segundo semestre que no primeiro", afirmou.

Eurogrupo fecha acordo para recapitalizar bancos

 O chefe de governo espanhol, Mariano Rajoy, ficou exultante após horas de negociações




Os líderes da zona do euro fecharam um acordo na madrugada desta sexta-feira para recapitalizar diretamente os bancos e delegar ao Banco Central Europeu a supervisão financeira da região, ao final de uma longa reunião em Bruxelas.
O presidente francês, François Hollande, foi o primeiro a anunciar "um acordo" entre os países da zona do euro sobre soluções para superar a crise da dívida: "Sim, encontramos os mecanismos".
Segundo o presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, a zona do euro aprovou a recapitalização direta dos bancos, sob "certas condições", e se declarou "aberta" a que os países que cumprem com os planos de reforma possam recorrer aos fundos de resgate europeus para "acalmar os mercados".
"Aprovamos a recapitalização direta dos bancos, sob "certas condições", assinalou Van Rompuy ao final da reunião do Eurogrupo consagrada a encontrar soluções rápidas para ajudar Itália e Espanha a superar a crise da dívida.
O acordo prevê que o BCE terá um papel de supervisor financeiro da zona do euro antes do final do ano. "Quando estiver pronto, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MES) nos dará a possibilidade de recapitalizar diretamente os bancos", declarou Van Rompuy.
O Conselho Europeu ficará encarregado de apresentar propostas urgentes para a criação de um órgão supervisor até o final de 2012. O chefe de governo espanhol, Mariano Rajoy, ficou exultante após horas de negociações, durante as quais Espanha e Itália ameaçaram boicotar o pacto que injetará 120 bilhões de euros para reativar a economia e o crescimento.
"Temos um acordo", confirmou Rajoy por volta das 02H30 GMT, antes de passar a palavra a Van Rompuy para explicar seu conteúdo. O presidente do Conselho italiano, Mario Monti, manifestou sua "satisfação" com o acordo e o qualificou de "muito importante para o futuro da União Europeia e da zona do euro".
Itália e Espanha vinculavam sua aprovação ao ''pacto'' de crescimento na Europa à adoção de medidas de urgência para os dois países, hoje na mira dos mercados devido à crise da dívida.
A recapitalização direta dos bancos, sem passar pelos Estados, enfrentava a resistência da Alemanha, contrária ao "rompimento do "vínculo entre dívida pública e bancária".
A decisão pode abrir caminho para a criação de um superministro de Finanças europeu, com capacidade para intervir nos orçamentos de cada país e inclusive modifica-los, além de definir tetos de gasto e de dívida.


Fonte:http://economia.terra.com.br/noticias/noticia.aspx?idNoticia=201206290416_AFP_81356176

Professores realizam manifestação em frente ao Banco Central


Há mais de um mês em greve, os docentes fizeram protestos em Brasília, Cuiabá, Rio de Janeiro e São Paulo



Há mais de um mês em greve, professores das instituições de ensino federais realizaram nesta quinta-feira (28), em frente ao Banco Central do Brasil, manifestação para reivindicar melhorias na educação do país e o investimento de 10% do PIB na área. Além de Brasília, o protesto ocorreu em outras capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo e Cuiabá.
O protesto em Brasília, organizado pelo comando nacional de greve, reuniu mais de 200 pessoas, entre docentes, servidores técnico-administrativos e estudantes. Eles reivindicam reajustes salariais, restruturação do plano de carreira, melhoria na infraestrutura das instituições, além de maior investimento na educação pública.
De acordo com Marinalva Oliveira, professora da Universidade Federal do Amapá (Unifap), o manifesto ocorreu em frente ao Banco Central do Brasil por simbolizar a política econômica do país. “O governo destina quase 50% do Produto Interno Bruto (PIB) para pagamento dos juros da dívida externa, enquanto a educação fica com menos de 4%. Essa política orçamentária mostra que a prioridade do governo não é com a educação”, disse.
A professora ressaltou que, apesar da Comissão Especial de Educação da Câmara dos Deputados teraprovado 10% do PIB para o setor, na última terça-feira (26), o prazo para atingir esse percentual é até 2023.
O estudante de serviço social da Universidade de Brasília (UnB), Lucas Brito, disse que as associações e sindicatos de educação não estão satisfeitos com o texto aprovado na Câmara. “Queremos 10% do PIB para educação pública e queremos já”, desabafou.
Marinalva Oliveria disse também que os docentes ainda não receberam nenhuma proposta do Governo Federal. "Já estamos paralisados há 42 dias. Mais de 100 mil professores participam do movimento, o que representa cerca de 95% da categoria, e o governo ainda não apresentou nenhuma proposta. Essa atitude mostra o descaso com a educação do país”.
O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (Mpog) informou que a pauta de reivindicações dos docentes e de outros 50 sindicatos que representam servidores públicos federais estão em análise. De acordo com o Mpog, as propostas de cada sindicato estão sendo analisadas separadamente. A expectativa é que o governo apresente proposta para todas até dia 31 de julho. O prazo final para responder a todas reivindicações é 31 de agosto, quando o Poder Executivo tem que encaminhar a Lei Orçamentária de 2013 para ser apreciada no Congresso Nacional.
Até agora, 56 das 59 universidades federais participam da greve, além de 33 dos 38 institutos federais, dois Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefet) e o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. O Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) não soube informar quantos estudantes estão sendo afetados com a paralisação.

IBGE: 46% das pessoas com deficiência recebem até 1 salário


Cerca de 45,6 milhões de brasileiros têm pelo menos uma deficiência, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado nesta sexta-feira com base em dados colhidos em 2010. Entre as pessoas maiores de 10 anos que se declaram com deficiência e têm algum tipo de trabalho, 46,4% ganha no máximo um salário mínimo. Já entre a população sem qualquer deficiência, essa era a realidade de 37,1%, o que indica uma diferença de mais de 9 pontos percentuais entre os dois grupos.
Segundo a coordenadora do Comitê do Censo Demográfico do IBGE, Andréa Borges, o levantamento aponta que para corrigir essas distorções são necessárias políticas públicas mais fortes que incentivem essa parcela da população a aumentar seu grau de instrução, o que interfere diretamente nos níveis de rendimento.
"Os dados revelam que a maioria das pessoas que têm deficiência está concentrada em níveis de instrução e de rendimento muito baixos. Já existem políticas públicas nesse sentido, mas elas podem ser melhoradas para que haja maior incentivo para que essa parcela de brasileiros não pare de estudar ao concluir o ensino fundamental, mas que vá adiante. Enquanto 10,4% dos que não têm deficiência tem (ensino) superior completo, apenas 6,7% das pessoas com deficiência estão nesse patamar", ressaltou.
A situação é mais complicada para quem possui deficiência mental ou motora. De acordo com o levantamento, o maior percentual (cerca de 28%) tem renda entre meio e um salário mínimo. Além disso, o percentual de pessoas economicamente ativas com 10 ou mais anos é menor para deficientes mentais: 22% para homens e 16% para mulheres.
Entre os deficientes visuais, 63,7% dos homens 43,9% das mulheres têm vida economicamente ativa. A mesma diferença foi verificada pelo IBGE no nível de ocupação, que ficou em 17,4% para pessoas com deficiência mental e 48,4% para pessoas com deficiência visual. As pessoas com deficiência visual ou auditiva também ganham mais, concentrando-se na faixa de ganhos de um a dois salários mínimos, 29% e 28,4%, respectivamente.
O levantamento aponta ainda que, em 2010, a população ocupada com pelo uma das deficiências investigadas representava 23,6% (20,3 milhões) do total ocupado (86,3 milhões) no País. Além disso, mais da metade (53,8%) dos 44 milhões de pessoas com deficiência em idade ativa (10 anos ou mais) estava desocupada ou não era economicamente ativa.
Em relação ao total da população desocupada ou não economicamente ativa, que somava 75,6 milhões em 2010, as pessoas com deficiência representavam 31,3%. O documento constatou também que a maioria das pessoas com deficiência ocupadas era empregada com carteira assinada (40,2%), uma diferença de 9 pontos percentuais em relação à população sem nenhuma das deficiências investigadas (49,2%).
Com informações da Agência Brasil.

25.6.12

Plano Real atinge maioridade com novos desafios à frente no campo fiscal

Após 18 anos, estabilidade não é uma tarefa encerrada e a questão fiscal é desafio a ser enfrentado segundo um dos pais do Plano Real, o economista Pérsio Arida

Em 1º de julho de 1994, a população do Brasil vivia um misto de esperança e apreensão. Esperança com uma nova moeda, o real, que entraria em vigor naquela data, lastreada em mais um plano econômico com a promessa de estabilizar o sistema financeiro do País e derrotar de vez o dragão da inflação que ganhava cada vez mais força e havia chegado a 2.400% um ano antes.
A apreensão ficava por conta do receio de que o Plano Real não pudesse cumprir o estabelecido, a exemplo de outras tentativas, como o Plano Cruzado, lançado logo após o fim do regime militar.
Na próxima semana, o real completa 18 anos desde seu lançamento com um saldo bastante significativo. O plano, gestado quase uma década antes com base em estudos elaborados pelos economistas Pérsio Arida e André Lara Resende, e que depois ficou conhecido também como plano “Larida”, trouxe para o Brasil estabilidade econômica e pôs fim ao processo inflacionário que corroía o poder de compra da população.
Após a entrada em vigor do real como moeda, o País trocou uma inflação de cerca de 4% ao dia para algo próximo disso, mas com a diferença de que essa passou a ser a taxa anual.
 
O presidente da República Itamar Franco lançou oficialmente o real, em 1º de julho de 1994 em agência da Caixa Econômica Federal, em Brasília, ao lado do então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero
Desde a década de 1980, a inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulava em um período de 12 meses taxas na casa dos 100%. Mas os mecanismos de indexação adotados à época na tentativa de, por exemplo, repor parte da inflação sobre os salários e manter um pouco do poder de compra da população pioravam ainda mais a situação com repasses automáticos para os preços e contribuindo para consolidar a cultura da inflação nas pessoas.
Essa alta generalizada e descontrolada dos preços cujo efeito é a desvalorização da moeda, atuava como um fator de empobrecimento da maioria das pessoas. Apenas uma pequena parcela da população conseguia buscar algum tipo de proteção depositando as suas reservas financeiras nos bancos para tentar reduzir parte das perdas com a desvalorização da moeda na época.
Nos três últimos meses que antecederam o lançamento do Plano Real, a inflação mensal foi de 42,68% em abril de 1994, 44,03% em maio daquele ano, e de 47,43% em junho. Encerrando o primeiro mês com a nova moeda já em vigor, a inflação foi de 6,84% e atingiu 1,86% em agosto daquele ano.
Quando comparado ao IPCA fechado de 1993, ano anterior à adoção do real, período em que a inflação atingiu incríveis 2.477,15%, o acumulado em 12 meses até maio deste ano, que aponta uma variação de 4,99% segundo o IBGE, é um claro termômetro de como a economia do País mudou nesses 18 anos de estabilização.
Tomando-se a média de cinco índices de inflação publicados por diferentes institutos de pesquisa, a taxa de inflação acumulada havia chegado a 758,59% no primeiro semestre de 1994. Esse dado representou uma inflação média mensal de 43,1%, equivalente a uma taxa anual de 7.271,84%. No segundo semestre de 1994 a taxa de inflação acumulada foi de 18,72%, com uma média mensal de 2,9%.
Mas apesar dos muitos avanços, Arida, um dos pais do Plano Real e ex-presidente do Banco Central, afirma que a estabilidade não é uma tarefa encerrada, mesmo após dezoito anos do Plano Real, e que a taxa de juros elevada no Brasil ainda é resultado da desconfiança da sociedade com a inconsistência fiscal no País.
Segundo Arida, a busca por uma melhora na questão fiscal está entre os principais desafios do atual momento, exemplificando que a carga tributária aumentou de 25% do PIB, na época do Plano Real, para 37% do PIB nos dias de hoje.
No campo fiscal, a queda abrupta da inflação no início do Plano Real provocou um nítido alívio para o equilíbrio das contas públicas. A receita líquida do Governo Federal aumentou 11,5% em 1994, trazendo a arrecadação para o valor de US$ 63,2 bilhões naquele ano. Em 1993, um ano antes do plano, essa receita havia sido de US$ 56,7 bilhões.
O plano de estabilização
Além da estabilização da economia e do combate à inflação, o Plano Real pretendia estabelecer um novo padrão monetário que passasse confiança à população. O real entrou em vigor após uma sucessão de moedas adotadas sem sucesso no Brasil.
Desde 1942 foram feitas diversas reformas econômicas que culminaram com a adoação de seis novas moedas: cruzeiro novo, em 1967, cruzeiro em 1970, cruzado em 1986, cruzado novo em 1989, cruzeiro novamente em 1990 e cruzeiro real em 1993, que antecedeu a adocação do real em 1994. A inflação acumulada de 1967 até 1994 foi de aproximadamente 1.142.332.741.811.850% tendo como base o IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas.
Antes da entrada em vigor da nova moeda, em 28 de fevereiro de 1994, teve início a publicação dos valores diários da Unidade Real de Valor (URV) pelo Banco Central. A URV serviria como moeda escritural e conviveu em paralelo com o cruzeiro real para todas as transações econômicas, com conversão obrigatória de valores, dando início a um processo de desindexação da economia sem o qual o novo plano correria o risco de naufragrar como seus antecessores.
A partir de 1º de março de 1994, passou a vigorar o Fundo Social de Emergência (FSE) considerado essencial para o êxito do plano. Por meio de uma emenda, o Governo desvinculou as verbas do orçamento da União, direcionando os recursos para o fundo, que daria ao poder público margem para remanejar ou cortar gastos supérfluos. Os gastos do governo contribuíam para a alimentar a hiperinflação, uma vez que a máquina do Estado brasileiro era grande, dispendiosa e ávida por recursos.
Em 1º de julho de 1994, com o lançamento da nova moeda, o real, toda a base monetária do País foi trocada de acordo com a paridade estabelecida de CR$ 2.750,00 para cada R$ 1,00.
Com a inflação debelada, o ganho proporcionado para a população incentivou o consumo, principalmente de alimentos com maior valor agregado, como foi o caso do iogurte, carnes de cortes mais nobres e o frango dessossado, que virou um dos símbolos dos novos tempos na economia com o real.
Globalização, crises e as fragilidades expostas
Dada à globalização da economia mundial, o real enfrentou logo na largada graves crises como a do México em 1995, a Asiática entre 1997 e 1998 e a da Rússia em 1998. Em todas as ocasiões, o Brasil foi afetado diretamente. O País necessitava de recursos, investimentos e financiamentos estrangeiros. Grandes somas de dinheiro deixaram o Brasil em cada um desses momentos devido ao medo que os grandes investidores tinham com os ainda incipientes mercados emergentes.
Como lembra Arida, somente em 1995, três bancos tiveram que ser socorridos pelo Governo devido a problemas financeiros. Foram os casos do Banco Econômico, do Banco Nacional e do Bamerindus que foram saneados com recursos do Proer, programa criado para evitar uma quebradeira geral no sistema financeiro, e depois repassados a outras instituições financeiras. “Durante o período de inflação alta, essas distorções eram mascaradas”, diz Arida. “Com o fim desse período, após a adoção do real, as ineficiências do sistema financeiro vieram à tona naquele momento de maior fragilidade”, acrescenta.
Ao menor indício de crise em qualquer um desses países, uma massa de investidores corria para buscar refúgio em moedas fortes, como o dólar americano
Outros aproveitavam esses movimentos para especular fortemente contra as moedas dos emergentes, na intenção de obter grandes lucros em curto espaço de tempo, esvaziando as reservas em moeda estrangeira. Isso contaminava negativamente as contas de diversos países, causando um efeito cascata globalizado.
Conforme lembra Arida, para tentar conter o ataque especulativo ao real, o Banco Central recorreu naquela época às reservas internacionais, que eram de US$ 30 bilhões e que em três dias acabaram. Hoje o colchão de proteção da economia conta com mais de US$ 350 bilhões em reservas depositadas no BC.
Como essas crises deixavam o Brasil sem meios de financiar seu plano de estabilização, o governo era obrigado a aumentar a taxa básica de juros, a Selic, para remunerar melhor esses capitais externos, numa tentativa de impedí-los de abandonar o País. O objetivo era evitar uma quebra generalizada que empurrasse o Brasil a uma moratória externa.
Após essa sucessão de ataques, em janeiro de 1999 o Banco Central, sob o comando de Gustavo Franco, outro dos formuladores do plano de estabilização, promoveu a maxidesvalorização cambial para tentar evitar uma fuga maciça de capital estrangeiro que poderia acabar com a estabilidade da economia.
Na avaliação de Franco, a estabilidade e a longevidade do real não são fruto apenas da arquitetura incial do plano, mas também do esforço e da essência do mandato do Banco Central. “Houve um aperfeiçoamento instituicional com outra percepção e a adoção de outras linguagens em termos de política econômica.”
Outras crises menores, apesar de não prejudicarem tanto o processo de controle da inflação do Brasil, que já estava consolidado, trouxeram efeitos negativos na taxa de crescimento. Os ataques terroristas nos Estados Unidos, em setembro de 2001, a Crise da Argentina, em dezembro de 2001, a crise eleitoral de 2002 e o apagão de energia ajudaram a derrubar a taxa anualizada de crescimento do PIB naquele momento.
Recentemente, a crise bancária e das hipotecas no fim de 2008 nos Estados Unidos,seguida pela crise do endividamento nos países da zona do euro foram os desafios mais recentes para o programa de estabilização do Brasil. Mas a cada crise, com o passar do anos, esses efeitos foram cada vez mais diuídos devido à base econômica construída no passado por meio dos erros e dos acertos em termos de políticas econômicas e monetárias.

Fonte: http://economia.ig.com.br/2012-06-22/plano-real-atinge-maioridade-com-novos-desafios-a-frente-no-campo-fiscal.html

20.6.12

Economista prevê que Grécia entrará em moratória

Em entrevista à Carta Maior, o economista grego Costas Lapavitsas, professor na Universidade de Londres, analisa a situação da Grécia e da zona do euro após a vitória dos conservadores na eleição de domingo. Lapavitsas acredita que Antonio Samaras até pode conseguir formar uma coalizão de governo, mas prevê que ela não vai durar muito. "Samaras e a Nova Democracia estão comprometidos com um programa de austeridade que impede o crescimento e sem crescimento não há saída para a crise", diz. A reportagem é de Marcelo Justo, direto de Londres.

Atenas - A vitória da Nova Democracia foi recebida por um quase audível suspiro de alívio na eurozona e em muitas capitais do mundo. Nos mercados a calma durou muito pouco. A escassa perspectiva de crescimento da eurozona e a debilidade de alguns de seus membros provocaram novas preocupações. A taxa de juro dos títulos de dez anos da Espanha superou o limite de 7% o que, segundo os analistas, torna insustentável a dívida, tal como ocorreu nos casos da Grécia, Irlanda e Portugal. Carta Maior conversou com o economista grego Costas Lapavitsas, autor de “Crisis in the eurozone” e professor de SOAS, Universidade de Londres, que analisou a situação da Grécia e da zona do euro.

A vitória de Antonio Samaras é um respiro para a eurozona, mas dá a impressão que não vai durar muito.

Creio que Samaras poderá formar a coalizão que necessita, mas ela vai durar muito pouco por três razões. Em nível econômico porque Samaras e a Nova Democracia estão comprometidos com o memorando e um programa de austeridade que está impedindo o crescimento e sem crescimento não há saída para a crise econômica. A situação é desesperadora apesar de que sequer se começou a implementar o último programa de austeridade. A segunda razão é política. A coalizão será formada com os mesmos personagens que levaram o país à ruína com suas práticas politiqueiras e seus arranjos. E a terceira razão é que há uma oposição organizada que, embora possa mostrar certa tolerância no início, muito rapidamente deixará clara sua oposição à política de austeridade que o novo governo implementará.

No entanto, o próprio Samaras falou da necessidade de rediscutir os acordos com a Troika e agora a Alemanha insinuou que poderia ocorrer uma certa flexibilização dos termos do acordo. Isso não poderia solucionar estes problemas que você acaba de mencionar?

O discurso de Samaras e de outros políticos pró-austeridade deveu-se ao fato de que estavam em campanha e necessitavam dizer isso para ganhar votos. Mas o certo é que vão adotar as políticas com as quais se comprometeram no memorando. Quanto à flexibilização das condições, seriam mudanças cosméticas que não variarão nem um pouco a essência do acordo. É possível que ofereçam uma extensão do período no qual a Grécia deve alcançar um superávit primário, ou seja, antes de considerar o pagamento da dívida. Em tese era para 2014. Pode ser que estiquem um pouco esse prazo, mas isso não vai solucionar nada. Hoje o déficit está entre 1% e 2% do PIB, mas já se vê que nos últimos meses a arrecadação de impostos despencou, em parte pelas eleições, em parte pela queda da atividade econômica. A crise é demasiado profunda para que seja resolvida com alguns retoques.

Se é assim, estamos falando de uma saída da Grécia do euro este ano. Dado que a Grécia importa todo o petróleo e os medicamentos que consome e cerca de 40% de seus alimentos, se tiver que pagar tudo isso com uma moeda de menor valor como o dracma, a situação parece sombria.

O resultado destas eleições implica que a Grécia vai entrar em situação de moratória. As estratégias de austeridade aplicadas desde 2010 não tem funcionado e não há razão para pensar que possam funcionar agora. Será um fracasso, haverá uma forte desestabilização política e calculo que, inevitavelmente, a Syriza terminará chegando ao poder. Eu ficaria surpreso se a Grécia ainda estiver no euro no final do ano. Não resta dúvida que uma saída do euro e a moratória serão muito problemáticas, mas não mais do que a situação atual da qual não se vê nenhuma saída.

Segundo alguns analistas, a saída do euro para melhorar a competitividade não servirá porque a Grécia não tem um setor exportador forte para sair da crise.

Compara-se muito a Grécia com a Argentina e se diz que esta última solucionou seus problemas graças ao preço da soja. Mas eu não penso que a Argentina resolveu seus problemas graças à soja. A soja ajudou, não resta dúvida, mas houve uma política de dinamização do mercado interno e a estrutura produtiva foi fundamental. O que a Grécia precisa agora é precisamente isso: recuperar sua capacidade produtiva. A Grécia é capaz de exportar. O setor exportador andou bastante bem nos últimos dois anos. O que precisamos agora é sair dessa união monetária e impulsionar uma política industrial para recuperar o que tínhamos antes do euro.

A estratégia da elite com o euro foi conseguir uma estabilidade monetária e passar a viver dos serviços. Isso não funcionou. É preciso esquecer a ideia de que necessitamos de capital estrangeiro para nos desenvolver. Pensar que, se fizermos bem os deveres de casa, os mercados nos premiarão e virão os investimentos de que precisamos para crescer é um mito. Os fundos virão de nossa economia doméstica. A Grécia tem que mobilizar seu capital interno, sua capacidade produtiva. Isso nos fará crescer.

Como você acredita que a situação grega vai afetar a Espanha e outros países da eurozona?
Esta eleição não mudou muito as coisas. Se a Syriza tivesse vencido o impacto teria sido muito grande. A Espanha, durante muito tempo, acreditou que não era parte dos países periféricos do euro. Agora está se dando conta de que é sim. Hoje é o ponto real de debilidade do euro. A situação é francamente crítica, em certo sentido mais grave do que a grega.

A cúpula do G20 que se reúne hoje e amanhã pode fazer alguma coisa?

Pode oferecer belas palavras, mas nada mais. Este é um problema muito grave, muito profundo, que precisará de muitos anos para ser resolvido, muitos recursos e uma perspectiva diferente para a economia. Para que a eurozona funcione, será preciso recriá-la sobre uma base completamente diferente. O G-20 não pode fazer nada para avançar por este caminho.


Fonte http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20383