Economista prevê que Grécia entrará em moratória
Em entrevista à Carta Maior, o economista grego Costas Lapavitsas,
professor na Universidade de Londres, analisa a situação da Grécia e da
zona do euro após a vitória dos conservadores na eleição de domingo.
Lapavitsas acredita que Antonio Samaras até pode conseguir formar uma
coalizão de governo, mas prevê que ela não vai durar muito. "Samaras e a
Nova Democracia estão comprometidos com um programa de austeridade que
impede o crescimento e sem crescimento não há saída para a crise", diz. A
reportagem é de Marcelo Justo, direto de Londres.
Atenas - A vitória da Nova Democracia foi recebida por um quase
audível suspiro de alívio na eurozona e em muitas capitais do mundo. Nos
mercados a calma durou muito pouco. A escassa perspectiva de
crescimento da eurozona e a debilidade de alguns de seus membros
provocaram novas preocupações. A taxa de juro dos títulos de dez anos da
Espanha superou o limite de 7% o que, segundo os analistas, torna
insustentável a dívida, tal como ocorreu nos casos da Grécia, Irlanda e
Portugal. Carta Maior conversou com o economista grego Costas
Lapavitsas, autor de “Crisis in the eurozone” e professor de SOAS, Universidade de Londres, que analisou a situação da Grécia e da zona do euro.
A vitória de Antonio Samaras é um respiro para a eurozona, mas dá a impressão que não vai durar muito.
Creio
que Samaras poderá formar a coalizão que necessita, mas ela vai durar
muito pouco por três razões. Em nível econômico porque Samaras e a Nova
Democracia estão comprometidos com o memorando e um programa de
austeridade que está impedindo o crescimento e sem crescimento não há
saída para a crise econômica. A situação é desesperadora apesar de que
sequer se começou a implementar o último programa de austeridade. A
segunda razão é política. A coalizão será formada com os mesmos
personagens que levaram o país à ruína com suas práticas politiqueiras e
seus arranjos. E a terceira razão é que há uma oposição organizada que,
embora possa mostrar certa tolerância no início, muito rapidamente
deixará clara sua oposição à política de austeridade que o novo governo
implementará.
No entanto, o próprio Samaras falou da
necessidade de rediscutir os acordos com a Troika e agora a Alemanha
insinuou que poderia ocorrer uma certa flexibilização dos termos do
acordo. Isso não poderia solucionar estes problemas que você acaba de
mencionar?
O discurso de Samaras e de outros políticos
pró-austeridade deveu-se ao fato de que estavam em campanha e
necessitavam dizer isso para ganhar votos. Mas o certo é que vão adotar
as políticas com as quais se comprometeram no memorando. Quanto à
flexibilização das condições, seriam mudanças cosméticas que não
variarão nem um pouco a essência do acordo. É possível que ofereçam uma
extensão do período no qual a Grécia deve alcançar um superávit
primário, ou seja, antes de considerar o pagamento da dívida. Em tese
era para 2014. Pode ser que estiquem um pouco esse prazo, mas isso não
vai solucionar nada. Hoje o déficit está entre 1% e 2% do PIB, mas já se
vê que nos últimos meses a arrecadação de impostos despencou, em parte
pelas eleições, em parte pela queda da atividade econômica. A crise é
demasiado profunda para que seja resolvida com alguns retoques.
Se
é assim, estamos falando de uma saída da Grécia do euro este ano. Dado
que a Grécia importa todo o petróleo e os medicamentos que consome e
cerca de 40% de seus alimentos, se tiver que pagar tudo isso com uma
moeda de menor valor como o dracma, a situação parece sombria.
O
resultado destas eleições implica que a Grécia vai entrar em situação
de moratória. As estratégias de austeridade aplicadas desde 2010 não tem
funcionado e não há razão para pensar que possam funcionar agora. Será
um fracasso, haverá uma forte desestabilização política e calculo que,
inevitavelmente, a Syriza terminará chegando ao poder. Eu ficaria
surpreso se a Grécia ainda estiver no euro no final do ano. Não resta
dúvida que uma saída do euro e a moratória serão muito problemáticas,
mas não mais do que a situação atual da qual não se vê nenhuma saída.
Segundo
alguns analistas, a saída do euro para melhorar a competitividade não
servirá porque a Grécia não tem um setor exportador forte para sair da
crise.
Compara-se muito a Grécia com a Argentina e se diz
que esta última solucionou seus problemas graças ao preço da soja. Mas
eu não penso que a Argentina resolveu seus problemas graças à soja. A
soja ajudou, não resta dúvida, mas houve uma política de dinamização do
mercado interno e a estrutura produtiva foi fundamental. O que a Grécia
precisa agora é precisamente isso: recuperar sua capacidade produtiva. A
Grécia é capaz de exportar. O setor exportador andou bastante bem nos
últimos dois anos. O que precisamos agora é sair dessa união monetária e
impulsionar uma política industrial para recuperar o que tínhamos antes
do euro.
A estratégia da elite com o euro foi conseguir uma
estabilidade monetária e passar a viver dos serviços. Isso não
funcionou. É preciso esquecer a ideia de que necessitamos de capital
estrangeiro para nos desenvolver. Pensar que, se fizermos bem os deveres
de casa, os mercados nos premiarão e virão os investimentos de que
precisamos para crescer é um mito. Os fundos virão de nossa economia
doméstica. A Grécia tem que mobilizar seu capital interno, sua
capacidade produtiva. Isso nos fará crescer.
Como você acredita que a situação grega vai afetar a Espanha e outros países da eurozona?
Esta
eleição não mudou muito as coisas. Se a Syriza tivesse vencido o
impacto teria sido muito grande. A Espanha, durante muito tempo,
acreditou que não era parte dos países periféricos do euro. Agora está
se dando conta de que é sim. Hoje é o ponto real de debilidade do euro. A
situação é francamente crítica, em certo sentido mais grave do que a
grega.
A cúpula do G20 que se reúne hoje e amanhã pode fazer alguma coisa?
Pode
oferecer belas palavras, mas nada mais. Este é um problema muito grave,
muito profundo, que precisará de muitos anos para ser resolvido, muitos
recursos e uma perspectiva diferente para a economia. Para que a
eurozona funcione, será preciso recriá-la sobre uma base completamente
diferente. O G-20 não pode fazer nada para avançar por este caminho.
Fonte http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20383
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