20.6.12

Economista prevê que Grécia entrará em moratória

Em entrevista à Carta Maior, o economista grego Costas Lapavitsas, professor na Universidade de Londres, analisa a situação da Grécia e da zona do euro após a vitória dos conservadores na eleição de domingo. Lapavitsas acredita que Antonio Samaras até pode conseguir formar uma coalizão de governo, mas prevê que ela não vai durar muito. "Samaras e a Nova Democracia estão comprometidos com um programa de austeridade que impede o crescimento e sem crescimento não há saída para a crise", diz. A reportagem é de Marcelo Justo, direto de Londres.

Atenas - A vitória da Nova Democracia foi recebida por um quase audível suspiro de alívio na eurozona e em muitas capitais do mundo. Nos mercados a calma durou muito pouco. A escassa perspectiva de crescimento da eurozona e a debilidade de alguns de seus membros provocaram novas preocupações. A taxa de juro dos títulos de dez anos da Espanha superou o limite de 7% o que, segundo os analistas, torna insustentável a dívida, tal como ocorreu nos casos da Grécia, Irlanda e Portugal. Carta Maior conversou com o economista grego Costas Lapavitsas, autor de “Crisis in the eurozone” e professor de SOAS, Universidade de Londres, que analisou a situação da Grécia e da zona do euro.

A vitória de Antonio Samaras é um respiro para a eurozona, mas dá a impressão que não vai durar muito.

Creio que Samaras poderá formar a coalizão que necessita, mas ela vai durar muito pouco por três razões. Em nível econômico porque Samaras e a Nova Democracia estão comprometidos com o memorando e um programa de austeridade que está impedindo o crescimento e sem crescimento não há saída para a crise econômica. A situação é desesperadora apesar de que sequer se começou a implementar o último programa de austeridade. A segunda razão é política. A coalizão será formada com os mesmos personagens que levaram o país à ruína com suas práticas politiqueiras e seus arranjos. E a terceira razão é que há uma oposição organizada que, embora possa mostrar certa tolerância no início, muito rapidamente deixará clara sua oposição à política de austeridade que o novo governo implementará.

No entanto, o próprio Samaras falou da necessidade de rediscutir os acordos com a Troika e agora a Alemanha insinuou que poderia ocorrer uma certa flexibilização dos termos do acordo. Isso não poderia solucionar estes problemas que você acaba de mencionar?

O discurso de Samaras e de outros políticos pró-austeridade deveu-se ao fato de que estavam em campanha e necessitavam dizer isso para ganhar votos. Mas o certo é que vão adotar as políticas com as quais se comprometeram no memorando. Quanto à flexibilização das condições, seriam mudanças cosméticas que não variarão nem um pouco a essência do acordo. É possível que ofereçam uma extensão do período no qual a Grécia deve alcançar um superávit primário, ou seja, antes de considerar o pagamento da dívida. Em tese era para 2014. Pode ser que estiquem um pouco esse prazo, mas isso não vai solucionar nada. Hoje o déficit está entre 1% e 2% do PIB, mas já se vê que nos últimos meses a arrecadação de impostos despencou, em parte pelas eleições, em parte pela queda da atividade econômica. A crise é demasiado profunda para que seja resolvida com alguns retoques.

Se é assim, estamos falando de uma saída da Grécia do euro este ano. Dado que a Grécia importa todo o petróleo e os medicamentos que consome e cerca de 40% de seus alimentos, se tiver que pagar tudo isso com uma moeda de menor valor como o dracma, a situação parece sombria.

O resultado destas eleições implica que a Grécia vai entrar em situação de moratória. As estratégias de austeridade aplicadas desde 2010 não tem funcionado e não há razão para pensar que possam funcionar agora. Será um fracasso, haverá uma forte desestabilização política e calculo que, inevitavelmente, a Syriza terminará chegando ao poder. Eu ficaria surpreso se a Grécia ainda estiver no euro no final do ano. Não resta dúvida que uma saída do euro e a moratória serão muito problemáticas, mas não mais do que a situação atual da qual não se vê nenhuma saída.

Segundo alguns analistas, a saída do euro para melhorar a competitividade não servirá porque a Grécia não tem um setor exportador forte para sair da crise.

Compara-se muito a Grécia com a Argentina e se diz que esta última solucionou seus problemas graças ao preço da soja. Mas eu não penso que a Argentina resolveu seus problemas graças à soja. A soja ajudou, não resta dúvida, mas houve uma política de dinamização do mercado interno e a estrutura produtiva foi fundamental. O que a Grécia precisa agora é precisamente isso: recuperar sua capacidade produtiva. A Grécia é capaz de exportar. O setor exportador andou bastante bem nos últimos dois anos. O que precisamos agora é sair dessa união monetária e impulsionar uma política industrial para recuperar o que tínhamos antes do euro.

A estratégia da elite com o euro foi conseguir uma estabilidade monetária e passar a viver dos serviços. Isso não funcionou. É preciso esquecer a ideia de que necessitamos de capital estrangeiro para nos desenvolver. Pensar que, se fizermos bem os deveres de casa, os mercados nos premiarão e virão os investimentos de que precisamos para crescer é um mito. Os fundos virão de nossa economia doméstica. A Grécia tem que mobilizar seu capital interno, sua capacidade produtiva. Isso nos fará crescer.

Como você acredita que a situação grega vai afetar a Espanha e outros países da eurozona?
Esta eleição não mudou muito as coisas. Se a Syriza tivesse vencido o impacto teria sido muito grande. A Espanha, durante muito tempo, acreditou que não era parte dos países periféricos do euro. Agora está se dando conta de que é sim. Hoje é o ponto real de debilidade do euro. A situação é francamente crítica, em certo sentido mais grave do que a grega.

A cúpula do G20 que se reúne hoje e amanhã pode fazer alguma coisa?

Pode oferecer belas palavras, mas nada mais. Este é um problema muito grave, muito profundo, que precisará de muitos anos para ser resolvido, muitos recursos e uma perspectiva diferente para a economia. Para que a eurozona funcione, será preciso recriá-la sobre uma base completamente diferente. O G-20 não pode fazer nada para avançar por este caminho.


Fonte http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20383

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