26.10.09

PATÉTICAS CRÍTICAS AO IOF


Luiz Carlos Bresser-Pereira

Depois de interromper a aposentadoria para reassumir a administração do seu fundo na tentativa de protegê-lo na crise, o megainvestidor húngaro-americano George Soros, 79, volta a se afastar do cotidiano do mercado devido à sensação de que o pior de fato ficou para trás. "A tempestade passou."
Entretanto, alerta, a fraqueza dos EUA e os limites da China em assumir o papel de locomotiva mundial impedirão que a atividade global nos próximos anos se assemelhe, em ritmo, à vista nos últimos anos.
Na opinião de Soros, este é o grande momento para uma efetiva reforma do sistema monetário global a fim de que um número maior de divisas -inclusive o real brasileiro- passe a fazer parte das reservas internacionais, diminuindo, dessa maneira, a dependência coletiva do dólar americano.


PERGUNTA - Como o senhor vê a atual situação da economia global?
GEORGE SOROS - Certamente os mercados financeiros se recompuseram e começaram a funcionar novamente, e a economia mundial superou o choque. Então há uma retomada, mas acho que o mundo vai demorar bastante para absorver o que aconteceu nessa crise, e a principal fonte de problemas está nos EUA. É lá que os consumidores gastaram mais do que ganharam por 25 anos, e o consumo corresponde a mais de 70% da economia do país, mas agora isso terá de mudar, mas levará tempo.
Também houve a questão do sistema bancário, que basicamente estava falido. Está no fundo do poço e tem que construir o seu caminho para fora do buraco. Isso está acontecendo em um ritmo bem acelerado porque os bancos emprestam a custo zero e compram bônus de dez anos do governo com rendimento de 3,5% [ao ano], e essa é uma velocidade de ganho bem rápida para risco nenhum.
Então, eles vão conseguir sair do buraco, mas também vai levar tempo. E ainda tem todo o setor imobiliário comercial, com perdas ainda desconhecidas. Portanto, a fraqueza do mundo estará principalmente nos gastos do consumidor americano e no, digamos, declínio do sistema bancário.

PERGUNTA - E essa fraqueza nos EUA é tão grave que possa causar uma recuperação em forma de W, com uma nova queda?
SOROS - Bem, eu acho que pode acontecer uma outra queda nos mercados acionários porque neste exato momento estamos aproveitando a multiplicação da confiança e existe uma certa esperança de que esta seja uma crise como as anteriores, uma retomada em forma de V. Então, quando essa esperança não for satisfeita, acho que haverá...

PERGUNTA - Por que o senhor acha que não será satisfeita?
SOROS - Posso estar errado. Já estive errado outras vezes, mas não vejo de onde pode vir o crescimento nos EUA.

PERGUNTA - Considerando a contínua fragilidade da economia americana, as pessoas estão certas de se preocuparem com o dólar?
SOROS - Claro que estão, e o dólar é a uma moeda muito fraca com a exceção de todas as outras. Então existe uma falta de confiança geral nas moedas e uma fuga para ativos reais. Os chineses continuam administrando um grande superavit comercial e ainda estão acumulando ativos, e basicamente o yuan está permanentemente desvalorizado porque está amarrado ao dólar.
Há uma diversificação, passando dos ativos que normalmente são controlados pelos bancos centrais para outros tipos, especialmente na área de commodities. Há uma puxada no ouro, um fortalecimento do petróleo, o que de certa forma é uma fuga de moedas.

PERGUNTA - Vai haver um ponto de inflexão do dólar ou essa situação atual vai continuar?
SOROS - Enquanto o yuan estiver amarrado ao dólar, não vejo como a decadência do dólar possa ir longe. Mas, claro, em alguma medida isso é bastante útil porque, com os consumidores americanos economizando mais e gastando menos, as exportações podem ser um jeito de a economia dos EUA se equilibrar. Então, uma decadência ordenada do dólar é na verdade desejável.

PERGUNTA - É necessária uma nova organização monetária mundial?
SOROS - Acho que o sistema está quebrado e precisa ser reconstruído. Não temos condições de seguir com esses desequilíbrios crônicos e crescentes nas finanças internacionais. É necessário um novo sistema de moedas, e os direitos especiais de saque [do FMI, calculado com base na cotação, em dólar, de uma cesta de quatro divisas: o dólar, o euro, o iene e a libra esterlina] de fato fornecem as linhas gerais de um sistema.
É burrice dos EUA resistir ao uso amplo desses direitos especiais de saque. Eles poderiam ser muito úteis agora, quando existe uma diminuição da demanda. Poderia na verdade ser internacionalmente criada uma moeda por meio dos direitos de saque, e isso já foi feito. Foram lançados US$ 250 bilhões, e é um passo muito útil.

PERGUNTA - Que tipo de acordo o presidente Obama deve buscar na viagem à China em novembro?
SOROS - Acho que já está na hora de envolver a China na criação de uma nova ordem mundial, uma ordem financeira global. Os chineses são um membro relutante do FMI. Participam, mas não dão muita contribuição porque não é uma instituição sua. Os direitos de voto não correspondem ao seu peso, então eu acho que é necessária nova ordem mundial de cujo processo de criação a China participe e com a qual concorde. A China tem de ser dona da nova ordem da mesma forma que, digamos, os EUA são donos do Consenso de Washington, que é a ordem atual, e acho que esse seria um sistema mais estável onde haveria políticas coordenadas. Acho que a estrutura de tal ordem já existe porque o G20, ao concordar em fazer reformas, efetivamente está se movendo nessa direção.

PERGUNTA - O sr. acha possível convencer a China a valorizar o yuan?
SOROS - Acho que eles têm defendido isso, então eu lançaria mão das suas próprias palavras para fazer do yuan parte do sistema de direitos de saque, embora a moeda não seja conversível. Em outras palavras, o yuan deveria ser uma das moedas usadas no sistema de direito especial de saque, e essa ideia vai convencê-los.

PERGUNTA - Isso é possível apesar da não convertibilidade do yuan?
SOROS - Sim. Sim. Já se pensou nisso antes, e eu acho que o real, do Brasil, também deveria ser parte do sistema. Acho que a gama de moedas da cesta pode e deve ser aumentada.

PERGUNTA - E a preocupação dos americanos de que apoiar essa fuga do dólar como a moeda de reserva mundial em última instância significa enfraquecer sua economia?
SOROS - Beneficiamo-nos muito [do atual sistema], mas creio que abusamos e não acho que podemos continuar abusando. Então, não é necessariamente do nosso interesse ter o dólar como a única moeda mundial porque a economia global em crescimento necessita de uma moeda adicional e, se o dólar é essa moeda adicional, significa que os EUA precisam ter um deficit em conta corrente crônico. Isso não é bom. Acho que é do nosso interesse reformar a estrutura.

PERGUNTA - Se os EUA não participarem ativamente desse tipo de renegociação das finanças globais, o que vai acontecer? Qual é o pior cenário?
SOROS - A China vai adotar a estratégia bilateral. Já a emprega. Os chineses já possuem um acordo de compensação com a Argentina e acredito que estejam trabalhando em um com o Brasil, e veremos mais e mais tratados bilaterais. Então, o dólar permanecerá como a principal moeda internacional, mas o seu uso vai cair. Acho que um mundo de relações bilaterais é menos desejável do que a continuação de um sistema multilateral. Mas a estrutura que possuímos agora já se desintegrou, só que ainda não nos demos conta. É necessário criar um novo, e esta é a hora de fazê-lo.

PERGUNTA - Sobre os EUA, quão preocupado o senhor está com o deficit orçamentário e a inflação?
SOROS - Certamente, uma queda no valor do dólar é necessária para compensar o fato de que a economia americana continuará enfraquecida e será um peso para a economia mundial. A China emergirá como motor, no lugar do consumo dos EUA, e, lógico, é um motor menor porque a economia chinesa é muito menor.
Então, a economia mundial terá um motor menos potente e vai se movimentar mais devagar do que nos últimos 25 anos. Mas a China será o motor puxando-a, e os EUA serão um peso arrastado durante a gradual queda do valor do dólar.

PERGUNTA - Parece haver, especialmente em Wall Street, uma recuperação. Quão real ela é?
SOROS - No mercado de ações é bem real. Temos tido uma boa alta porque uma imensa quantia de dinheiro está nas beiradas sem render nada e gradualmente está sendo sugada para dentro do mercado. Provavelmente, o processo vai seguir pelo resto do ano.

PERGUNTA - O sr. espera que o mercado siga subindo até o fim do ano?
SOROS - Não é possível fazer previsões sobre isso. Nunca se sabe quando a virada vem, mas parece que é por aí, porque a falta de recuperação no mercado de trabalho vai garantir que as taxas de juros não sejam elevadas. E, ao mesmo tempo, os lucros estão razoavelmente bons e há um monte de dinheiro nas beiradas. Por isso, acho que essas são condições favoráveis para a contínua recuperação do mercado de agora até o final do ano.
No entanto, a economia seguirá necessitando de estímulos adicionais, porque a recuperação está sendo basicamente sustentada por transferências, pelos pagamentos e deficits que o governo administra. Caso sejam retirados, teríamos uma desaceleração dupla na economia. Para evitar isso, é preciso que os incentivos continuem. Porém, se isso é politicamente possível ou não ainda é preciso esperar, porque não dá para ficar acumulado dívidas que significam uma sobrecarga para as futuras gerações. Mas a alternativa seria outra recessão ou uma recessão mais longa.

Governo deve segurar gastos para manter crescimento, diz Coutinho

Último Segundo

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, acha que o governo precisará segurar os gastos de custeio da máquina pública para que o País continue a crescer nos próximos anos. Coutinho ressalva que a opinião, que toca numa das principais críticas ao governo Lula, é estritamente pessoal.

Mas entende que a ideia deveria ser discutida como parte de uma nova agenda para o País. Nessa nova agenda, ele sugere ainda a reforma da Previdência Social e, do lado empresarial, maior participação dos bancos privados no financiamento de grandes projetos.

Chefe de um caixa com mais de R$ 100 bilhões para aplicar, Coutinho entende que as iniciativas são necessárias para aumentar a taxa de investimento na economia. Para que os próximos anos sejam prósperos, diz ele, será preciso investir o equivalente a 25% do Produto Interno Bruto (PIB)por ano. A taxa, hoje, está parada em 18%. Só assim o País conseguirá crescer, de forma sustentável, a um ritmo de 6% ao ano.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O sr. diz que para crescer o País precisa aumentar a taxa de investimentos, hoje equivalente a 18% do PIB. Como fazer isso sem pressionar a inflação?

Antes da crise o investimento caminhava para 20% do PIB, o que ainda é insuficiente. Precisamos fazer subir essa taxa e a de poupança no País para algo próximo a 24%, 25% do PIB. Isso nos daria conforto para crescer sustentadamente 6% ao ano, sem inflação. Eu acredito que a agenda da ampliação de investimento deveria ser uma prioridade de primeira grandeza para o País.

O que há nessa agenda?

Olhando para o futuro, isso significa ampliar a poupança doméstica e requer reformas: contenção da taxa de crescimento do gasto de custeio do Estado, reformas a longo prazo do sistema previdenciário e um forte incentivo da poupança das famílias e o desenvolvimento de poupadores institucionais. Isso tem o objetivo de fortalecer a capacidade de investimento.

A agenda que o sr. propõe vem no sentido contrário do que ocorre hoje, especialmente em relação à gestão dos gastos públicos...

Essa é uma agenda de médio e longo prazo. Algumas decisões que alteraram os gastos neste ano foram adotadas anteriormente. Nós estamos vivendo um período normal em qualquer democracia, que é um período pré-eleitoral. Ela precisa ser compreendida dentro de um momento novo.

Essa é uma agenda ainda para o governo Lula ou para o próximo governo?

Eu estou dando minha opinião como um simples economista e cidadão, que por acaso é presidente do BNDES no momento. A decisão da agenda do governo, de política econômica, está fora da minha esfera. É a minha opinião. Esse tema de longo prazo é oportuno sempre que vai haver uma eleição majoritária. É um tema oportuno para discutir a longo prazo.

Qual o papel da iniciativa privada nesse processo?

Do lado privado, eu vejo que o Brasil tem um conjunto de oportunidades de investimento extremamente rentável, de baixo risco, em pelo menos cinco fronteiras relevantes: toda a cadeia de petróleo e gás, o setor de infraestrutura de energia elétrica, toda a área de logística, transportes e portos, construção civil e agronegócios. Além deles, acredito que o Brasil deveria desenvolver investimentos na sua indústria manufatureira. Isso requer uma política de fomento um pouco mais ativa do que nas outras cinco fronteiras.

Há necessidade de ampliação da poupança doméstica, porque de outra forma não será possível conciliar o crescimento do Brasil com o financiamento do investimento agregado sem incorrer em déficits crescentes de contas correntes e portanto tornando o País dependente de poupança externa.

Isso seria um problema?

Nada contra a poupança externa, que deve ser atraída, especialmente em investimentos diretos. Mas depender dela de maneira excessiva torna o crescimento vulnerável.

Até quando o BNDES será a única fonte de financiamento de longo prazo do País?

O financiamento de longo prazo precisará da contribuição do sistema bancário privado para que não fique estritamente sob a responsabilidade do BNDES. Essa tarefa, no limite, pode se tornar impossível. Portanto, é importante discutir essa agenda positiva com o sistema bancário privado. Os bancos podem e deveriam participar mais do financiamentos dos investimentos. Mas isso demandará um aperfeiçoamento de condições institucionais e de incentivo à poupança, especialmente a poupança privada de médio e longo prazos.

O que é preciso mudar?

Facilitar a constituição de um funding (fonte de recursos) de médio e longo prazos do próprio sistema bancário, habilitando-o a correr riscos de longas maturidades, de projetos de maior escala que hoje têm ficado quase exclusivamente a cargo do BNDES no lado do financiamento. É claro que o mercado de capitais ajuda, mas esses projetos em geral são alavancados, pois há uma poupança tipicamente 30% de equity (ações) e 70% de financiamento. O lado equity do investimento vai estar bem equacionado pelo pujante desenvolvimento do mercado de capitais. Mas o financiamento de longo prazo precisa do sistema bancário.

Quando o sr. acha que os bancos privados vão se mover nessa direção?

Tenho confiança de que a redução da inadimplência - a da pessoa física já caiu e a da pessoa jurídica está começando a cair - e a movimentação mais agressiva de alguns bancos, vai desatar a concorrência entre eles e provocar expansão da oferta de crédito nos próximos meses.

Como o BNDES vai se financiar no ano que vem?

Há uma decisão do presidente da República e do ministro da Fazenda de assegurar os recursos necessários ao BNDES. Estamos em tratativas e estou seguro em relação a este ponto, mas não posso adiantar.

Como o sr. avalia a associação entre a atuação do BNDES e a política de Estado forte do governo Lula?

Acho que aí há uma falsa avaliação. Não há uma volta ao passado, ao velho modelo estatal desenvolvimentista. Também o modelo liberalizante foi inconsistente da forma como foi implementado no Brasil. Nós temos de unir as duas coisas: temos de ter um Estado eficiente, combinado com as virtudes do mercado.

Essa combinação requer, no Brasil, a criação de um paradigma novo de relacionamento entre Estado e sistema empresarial. Me sinto muito confortável. Não há uma disposição nossa de substituir o mercado ou o sistema privado. Ao contrário, nosso interesse é fortalecê-lo.

Está crescendo no mercado a aposta que o senhor pode substituir o presidente do BC, Henrique Meirelles, caso ele deixe o governo para concorrer a um cargo público...

Isso não tem fundamento. Minha expectativa é permanecer no BNDES enquanto continuar merecendo a confiança do presidente Lula.

23.10.09

Lula quer testar IOF até o fim do ano

Último Segundo

Apesar das pressões para que altere a regra de taxar o ingresso de capitais externos com a alíquota de 2% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a tendência do governo é tentar manter a decisão pelo menos até o fim do ano. Essa é a orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, embora sensível às argumentações do setor financeiro, acredita que a medida deve ser testada por mais tempo.

Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse à Agência Estado que não pensa em alterar a taxação. No fim da tarde, ele recebeu o presidente da BM&F Bovespa, Edemir Pinto, que pediu a revisão da medida, pelo menos para operações de abertura de capital, proposta defendida também pelo líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP).

"É muito cedo para pensar em mudar um instrumento que acabou de ser implementado. É prematuro pensar em qualquer alteração antes de ver o impacto que a medida terá", disse Mantega, acrescentando acreditar que a taxação estancará o processo de valorização acelerada do real.

"Sem essa medida, o dólar já estaria abaixo de R$ 1,70. Quero deixar claro que o objetivo não era provocar a desvalorização acelerada do real. A ideia é suavizar a valorização da moeda e retirar os exageros. A tributação vai ficar como está."
Conforme fontes ouvidas pela Agência Estado, o governo trabalha informalmente com o nível ao redor de R$ 1,70 para o dólar. E é esse número que será testado. O problema é que a necessidade de frear a alta do real enfrenta a onda de investimentos estrangeiros, que identifica o Brasil como porto seguro no pós-crise financeira.

Mantega afirmou que ainda não é possível medir o impacto do IOF no capital especulativo, que foi o principal foco da decisão. "É preciso esperar que o mercado assimile a medida", disse, mostrando confiança de que o capital de longo prazo, que aposta no crescimento e na rentabilidade da produção, continuará interessado no Brasil.

Por isso, disse também não acreditar que o IOF vá desestimular as ofertas primárias de ações (IPOs, da sigla em inglês). "O Brasil é uma das poucas economias do mundo que está em expansão. Quem aposta no crescimento virá para o Brasil. Para quem quer apenas especular, o IOF deixa menos interessante."
Ao sair da reunião com Mantega, o presidente da BM&F Bovespa informou que o ministro "foi sensível" aos problemas apresentados, mas não se comprometeu.

"O ministro foi muito atento, ouviu as explicações, mas não deu prazo para tomar uma decisão. Ele disse que vai estudar todas as medidas", disse Edemir. "É difícil dizer que decisão tomará."
O presidente da bolsa disse que pediu ao ministro que a taxação sobre o mercado de capitais seja totalmente revertida. Mas também sugeriu que, caso Mantega não queira voltar atrás na medida como um todo, pelo menos retire o IOF das emissões primárias (IPOs) e secundárias de ações.

Outra proposta apresentada pelo executivo, essa, segundo ele, com caráter de médio e longo prazos, é que o governo permita que as garantias depositadas na bolsa possam ser depositadas no exterior.

Segundo ele, há um estoque de garantias vinculadas às operações de derivativos e opções de ações que poderiam ser deixadas fora do País, contribuindo para conter o impacto das operações do mercado financeiro na cotação do câmbio.

Na avaliação do governo, o mais difícil foi feito - que é a própria taxação do capital externo que ingressa na bolsa de valores. "O impacto negativo já aconteceu", disse uma fonte, ao se referir à postura de Lula que, nos últimos seis anos e meio, se desviou das pressões para taxar as aplicações financeiras de estrangeiros no País.

Dentro do governo, as pressões contrárias estão localizadas em segmentos muito específicos. O Banco Central não apoia, por princípio, nenhuma medida intervencionista, fiel ao compromisso com o câmbio flutuante.
As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Lula quer testar IOF até o fim do ano

Fabio Graner e Beatriz Abreu, BRASÍLIA

Apesar das pressões para que altere a regra de taxar o ingresso de capitais externos com a alíquota de 2% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a tendência do governo é tentar manter a decisão pelo menos até o fim do ano. Essa é a orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, embora sensível às argumentações do setor financeiro, acredita que a medida deve ser testada por mais tempo.

Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse à Agência Estado que não pensa em alterar a taxação. No fim da tarde, ele recebeu o presidente da BM&F Bovespa, Edemir Pinto, que pediu a revisão da medida, pelo menos para operações de abertura de capital, proposta defendida também pelo líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP).

"É muito cedo para pensar em mudar um instrumento que acabou de ser implementado. É prematuro pensar em qualquer alteração antes de ver o impacto que a medida terá", disse Mantega, acrescentando acreditar que a taxação estancará o processo de valorização acelerada do real.

"Sem essa medida, o dólar já estaria abaixo de R$ 1,70. Quero deixar claro que o objetivo não era provocar a desvalorização acelerada do real. A ideia é suavizar a valorização da moeda e retirar os exageros. A tributação vai ficar como está."

Conforme fontes ouvidas pela Agência Estado, o governo trabalha informalmente com o nível ao redor de R$ 1,70 para o dólar. E é esse número que será testado. O problema é que a necessidade de frear a alta do real enfrenta a onda de investimentos estrangeiros, que identifica o Brasil como porto seguro no pós-crise financeira.

Mantega afirmou que ainda não é possível medir o impacto do IOF no capital especulativo, que foi o principal foco da decisão. "É preciso esperar que o mercado assimile a medida", disse, mostrando confiança de que o capital de longo prazo, que aposta no crescimento e na rentabilidade da produção, continuará interessado no Brasil.

Por isso, disse também não acreditar que o IOF vá desestimular as ofertas primárias de ações (IPOs, da sigla em inglês). "O Brasil é uma das poucas economias do mundo que está em expansão. Quem aposta no crescimento virá para o Brasil. Para quem quer apenas especular, o IOF deixa menos interessante."

Ao sair da reunião com Mantega, o presidente da BM&F Bovespa informou que o ministro "foi sensível" aos problemas apresentados, mas não se comprometeu.

"O ministro foi muito atento, ouviu as explicações, mas não deu prazo para tomar uma decisão. Ele disse que vai estudar todas as medidas", disse Edemir. "É difícil dizer que decisão tomará."

O presidente da bolsa disse que pediu ao ministro que a taxação sobre o mercado de capitais seja totalmente revertida. Mas também sugeriu que, caso Mantega não queira voltar atrás na medida como um todo, pelo menos retire o IOF das emissões primárias (IPOs) e secundárias de ações.

Outra proposta apresentada pelo executivo, essa, segundo ele, com caráter de médio e longo prazos, é que o governo permita que as garantias depositadas na bolsa possam ser depositadas no exterior.

Segundo ele, há um estoque de garantias vinculadas às operações de derivativos e opções de ações que poderiam ser deixadas fora do País, contribuindo para conter o impacto das operações do mercado financeiro na cotação do câmbio.

Na avaliação do governo, o mais difícil foi feito - que é a própria taxação do capital externo que ingressa na bolsa de valores. "O impacto negativo já aconteceu", disse uma fonte, ao se referir à postura de Lula que, nos últimos seis anos e meio, se desviou das pressões para taxar as aplicações financeiras de estrangeiros no País.

Dentro do governo, as pressões contrárias estão localizadas em segmentos muito específicos. O Banco Central não apoia, por princípio, nenhuma medida intervencionista, fiel ao comp
romisso com o câmbio flutuante.

21.10.09

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Lula defende Estado mais moderno e ágil durante posse de novo ministro

Valor Econômico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem, durante posse do novo ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (Seae), Samuel Pinheiro Guimarães, que o Estado brasileiro seja mais ágil e moderno. Lula disse que a Constituição de 1988 criou "uma série de teias de aranha e embaraços que impedem o gerenciamento das cidades". Foi uma resposta à ação do Tribunal de Contas da União (TCU), órgão que o presidente sempre responsabiliza pela paralisação das obras públicas. Pouco antes, durante posse de José Múcio Monteiro como ministro do TCU, Lula ouviu - sem discursar - os integrantes do tribunal defendendo a atuação do órgão. "Na democracia, não há poder sem controle", definiu o procurador do Ministério Público no TCU, Lucas Furtado. Para o decano do TCU, ministro Valmir Campelo, o tribunal "deve ter uma atuação independente e colaborativa" e tem como missão essencial fiscalizar a eficiente gestão dos recursos públicos, para o bem do país e da sociedade. "Ministro Múcio, aqui o senhor deve ter o olhar e os ouvidos voltados para os brasileiros mais humildes e ter a coragem de servir unicamente o seu país", pediu Campelo. Múcio, que assumiu o cargo por indicação do presidente Lula, tentou apaziguar os ânimos. Elogiou o papel do TCU, mostrando a importância que o tribunal tem para a vida democrática do país, mas completou que, "sempre que possível, o ideal é orientar e prevenir, em vez de condenar". Para Múcio, o país vive um novo momento em que a sociedade está discutindo suas instituições. E disse que assume com a responsabilidade de acompanhar o gasto do dinheiro público e "informar ao Poder Legislativo, a quem cabe o papel de fiscalizar". "Acredito no diálogo e na troca de ideias como ponto de partida e como ponto de chegada. Não creio no exercício fútil da divergência improdutiva e do debate inócuo que este é o lado do espetáculo que serve apenas para distrair os espectadores", reiterou.

Durante a posse de Samuel Pinheiro Guimarães - que aconteceu no fim do dia no Palácio do Itamaraty - Lula lembrou a Constituição de 1988, que criou, segundo ele, "coisas maravilhosas e outras nem tanto". Sem citar especificamente o TCU, Lula disse que muitos dos avanços que hoje emperram as coisas foram criadas pela oposição na época. "A oposição sempre está desconfiada de quem está no governo", complementou o presidente. Lula lembrou os diversos projetos em andamento na Seae, em especial o plano para a Amazônia. "A Amazônia sempre é fruto de debates apaixonados. Uns defendem que a motosserrra resolve por todos os problemas; outros acham que ela deve ser transformada em um santuário; outros, mais sensatos, acreditam ser possível tirar de lá o sustento das famílias e ainda preservar esta imensa riqueza que é a nossa biodiversidade." Lula reforçou que, ao criar a pasta que Samuel assumiu ontem, o objetivo era pensar projetos de longo prazo para o país, já que, em 2022, o Brasil completará 200 anos de independência. "Estávamos acostumados a pensar o país apenas de quatro em quatro anos. Com o PAC, mudamos um pouco esta filosofia", declarou o presidente.

Lula disse que as pessoas hoje percebem a importância de um Estado que planeje o desenvolvimento. "Não é possível um país soberano com um Estado débil e fraco e um mercado forte. Tem coisas que o mercado não sabe fazer e outras que o mercado não quer fazer", apontou. O presidente lembrou a Guimarães a série de eventos esportivos que acontecerão no país ao longo dos próximos anos, como a Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014) e a Olimpíada (2016). "Temos que nos preparar com a infraestrutura necessária para estes eventos. Além disso, de lá para 2022 serão apenas mais seis anos". Guimarães disse que espera ajudar neste planejamento. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que o novo ministro é o mais indicado para o posto, pois "ele já pensava o Brasil em um momento no qual as pessoas achavam que o mercado pensaria tudo" disse ele.

Irã diz que proposta de acordo nuclear está "no caminho certo"

da Folha Online

O iraniano Ali Asghar Soltanieh, o chefe da delegação do Irã no diálogo sobre o seu programa nuclear, afirmou nesta quarta-feira, após receber a proposta formal para acordo com Estados Unidos, Rússia e França, que o

texto está "no caminho certo". "Nós temos ainda de estudar a fundo o texto e elaborar mais a respeito dos números", afirmou.

Soltanieh também ressaltou que esta reunião não tem nada a ver com as conversas com o Grupo dos Seis, formado por Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China, além da Alemanha, que ocorreram em 1º de outubro passado, em Genebra, e reafirmou o direito do Irã de enriquecer urânio.

Segundo diplomatas citados pelas agências internacionais, a proposta de acordo estabelece que o Irã enviará grande parte do urânio pouco enriquecido que possui --1,2 tonelada da 1,5 tonelada existente-- para Rússia e França, onde o material seria reprocessado para, depois, ser devolvido ao Irã com até 19,75% de pureza --o suficiente para gerar energia, mas pouco para produzir armas nucleares.

Desta forma, as potências reduziriam drasticamente as reservas de urânio iranianas, sem minar os esforços pacíficos que o país diz almejar. Para produzir uma bomba atômica, são necessárias cerca de 2 toneladas de urânio enriquecido a 90%.

O Irã já afirmou que, se as negociações fracassarem, enriquecerá o urânio até 20% de pureza por conta própria para alimentar um reator médico que permite o diagnóstico e o tratamento do câncer. Esse reator funcionava até agora com combustível atômico de fabricação argentina, recebido em 1993, e que está acabando.

Conforme o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, o prazo para que os governos dos quatro países envolvidos se manifestem ou ratifiquem o texto acaba nesta sexta-feira (23). "Foi feito circular um projeto de acordo que em minha opinião reflete um enfoque equilibrado para progredirmos", disse ElBaradei.

Ele disse ainda que qualquer acordo do tipo deve ser submetido ao comitê de 35 membros da AIEA para a ratificação. A próxima reunião do comitê está marcada para o final de novembro. "Todo mundo, nestas conversas, tenta olhar para o futuro, e não para o passado, e curar as feridas existentes por muitos anos. [...] Este acordo deve abrir espaço para as negociações em aspectos mais amplos para resolver a crise."

O regime iraniano nega que tenha intenções bélicas com o programa nuclear e diz que enriquece urânio apenas para produzir combustível para reatores nucleares de pesquisas, principalmente para produzir isótopos usados para tratar alguns tipos de câncer.

O Irã está submetido a três séries de sanções do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) por desafiar os pedidos para congelar o enriquecimento de urânio. As sanções incluem a embargos a todas as transferências de materiais nucleares ou tecnologias que possam ser usadas para a atividade.