1.3.12

Como atrair a nova classe média


á 23 anos no mercado, a Hinode vende cosméticos de porta em porta nos domícios das regiões norte e nordeste do Brasil. Em franca expansão, segundo o presidente Sandro Rodrigues, a empresa tem foco nos públicos das classes C e D. Na plateia do auditório da Fecomercio, em São Paulo, Rodrigues tenta entender o cenário econômico no Brasil na próxima década e afirma se sentir atraído com as projeções de que, até 2020, o consumo da classe média brasileira vai ter uma expansão de 800 bilhões de reais, representando 34% do PIB.
O Brasil é hoje o segundo maior mercado de cosméticos do mundo. Foto: Patrícia Oliveira/Flickr
A perspectiva foi apresentada no seminário, organizado pela Fecomercio, “Na trilha do consumo da classe média”, que apresentou as projeções da associação sobre o quadro do varejo nos próximos oito anos. A ideia do estudo é entender quais serão os benefícios que a consolidação da classe média no Brasil – a chamada classe C, representada por 54% da população – pode trazer à economia e como crescer com esse filão. Na mesa, empresários que tem, em comum, uma trajetória de sucesso baseada na venda de produtos para esse setor.
“Estamos atentos ao que o consumidor quer”, afirma Rodrigues. O setor de cosméticos foi um dos que mais cresceu no Brasil, que é hoje o segundo maior mercado mundial, atrás somente dos Estados Unidos.
Até 2020, o consumo, que hoje representa 62,2% do PIB, terá aumento de cerca de 3,2%. Nas classes mais altas, no entanto, esses valores sofrerão redução. Até o fim da década, o aumento no consumo dessas famílias representará uma fatia menor do que hoje. Nos setores menos abastados, ao contrário, a participação crescerá de forma que, em 2020, aclasse C será responsável por metade do consumo varejista no país. Com isso, produtos restritos às classes mais altas, ganham espaço nas outros camadas sociais. “A partir de um volume de vendas, as pessoas compram experiências”, afirma Fábio Pina, assessor econômico da Fecomércio.
Outro fator importante deste cenário é a descentralização. “Rio de Janeiro e São Paulo estão mais próximos de estar exauridos”, comenta Pina. Segundo dados do Ibope, apresentados pelo empresário Flavio Chirichela, o Norte deve crescer em 2012, cerca de 26,5%, Nordeste 24,1%, Centro-Oeste e Sul cerca de 19%. O Sudeste, apenas 6,5%. Representando a empresa General Brands, que vende sucos em pó e de caixinha, relata que tem no nordeste um de seus principais pontos de venda. “Há 30 anos, vendemos cinco caixas de chiclete para o Armazém Mateus, no Maranhão. O avião que levaria uma carga para o Piauí deixou a encomenda. Hoje, temos 70% da particpação em gôndolas do Armazem Mateus, que se tornou uma megarede de supermercados”, conta.
Na mesa, dirigentes de empresas que souberam aproveitar esse mercado e iniciam a década com faturamentos invejáveis. À frente da Sorridents, Carla Renata Sarni faturou 100 milhões de reais no último ano. Sarni montou uma rede de atendimento odontológico com foco justamente nos públicos das classes mais baixas. “Quando me formei em 1995, todo mundo queria montar um consultório para atender poucos por muito”, conta ela. Aos poucos, percebeu a ausência de opções de qualidade para um público com renda inferior. Nos últimos anos, o maior crescimento foi entre pessoas que procuram um tratamento completo, a despeito daquelas que vão ao dentista para emergências, como uma dor de dente pontual. “As pessoas estão mais cultas, chegam falando palavras técnicas tiradas da internet. As empresas têm que aumentar a fidelização e transparência ao cliente”, comenta.  Mesmo com foco nas classes mais baixas, ela conta que 12% de seus clientes são da classe A e B. “Tem gente que tem bolso de classe A e B, mas cultura de classe C”, conta. Ou seja, mesmo podendo pagar mais caro, vai buscar sempre a opção mais barata.

A rede Beleza Natural se especializou em cortes e tratamentos para cabelos crespos. Foto: Reprodução do site
Rogério Assis é outro exemplo de quem soube ver uma oportunidade em um segmento desprezado pela maioria das empresas. Sua rede de cabelereiros “Beleza Natural”, hoje com mais de 12 unidades em Salvador, Vitória e Rio de Janeiro, é especializada em cabelos crespos e teve faturamento de 112 milhões de reais no ano passado. “A gente vende auto-estima”, conta ele. A empresa iniciou na década de1990 apartir do desejo da sua irmã em tornar seu cabelo crespo mais bonito, sem recorrer ao alisamento.
Esse cenário, no entanto, apresenta riscos. Nos próximos anos, o Brasil terá de lidar com o envelhecimento da população. “Antes de envelhecer, o Brasil vai enriquecer. Mas podeia ter enriquecido mais”, diz Fábio Pina. E alerta para a necessidade de alterações, no futuro, da previdência. Até 2020, a População Economicamente Ativa (PEA) crescerá 10%, com um total de mais de 144 milhões de pessoas, recorde histórico. Ao mesmo tempo, cinco milhões de pessoas devem se aposentar nos proximos oito anos. Na opinião da Fecomercio, as pessoas terão de expandir seu período produtivo. Isso será possível por conta do aumento da expectativa de vida nas próximas décadas.
Segundo a Fecomércio, a estabilidade econômica e o fim da hiperinflação possibilitaram esse cenário de crescimento. “A inflação tem poder de beneficiar rendimentos variáveis e prejudicar assalariados”, afirma Antonio Carlos Borges, diretor executivo da associação. Ou seja, transfere renda da classe baixa para as mais altas. Com maior estabilidade dos preços, há um aumento da demanda e crescimento da renda das pessoas. “Parte importante da população brasileira estava à margem da economia, tanto na produção quanto no consumo”, afirma. Outro fator foi o crescimento econômico global continuado, que permitiu ao Brasil aumentar captações e, consequentemente, o investimento na economia. O perfil do consumidor brasileiro, aponta, beneficia a expansão do consumo. “A economia do Brasil é dinâmica. A população jovem é pródiga, vai atrás do que quer de maneira mais solta. O europeu é mais comedido”, diz.

Banco Central Europeu injeta € 529,5 bi de euros em bancos contra crise


O Banco Central Europeu (BCE) informou nesta quarta-feira (28) que emprestou € 529,5 bilhões (cerca de R$ 1,2 bilhão) para três anos a 800 bancos da zona do euro em condições muito favoráveis. Os empréstimos de três anos são a última tentativa do BCE para combater a crise da zona do euro. 
O valor superou levemente as previsões, aumentando as esperanças de que, com mais crédito fluindo para empresas e governos, os custos dos empréstimos vão diminuir ainda mais.
Os bancos, principalmente os periféricos, cobrirão com o dinheiro uma parte de suas necessidades de financiamento até 2014 e financiarão alguns investimentos, como a compra de dívida pública espanhola e italiana que oferecem rentabilidades maiores.

Valor acima do esperado

A demanda foi acima dos € 500 bilhões esperados por operadores consultados pela Reuters e bem acima dos € 489 bilhões alocados na primeira operação do BCE no final de dezembro.
"Isso aumentará muito o nível de excesso de liquidez, que finalmente está positivo ou muito positivo para operações de risco", disse Luca Cazzulani, do UniCredit. "Os títulos italianos e espanhóis devem se beneficiar disso assim como os mercados de ações." 
A entidade monetária europeia declarou que os bancos deverão devolver o empréstimo em 26 de fevereiro de 2015.

Como funciona

Trata-se do maior volume que o BCE emprestou até agora em uma única operação. Com esta medida, a segunda operação de injeção de liquidez para três anos, o BCE proporciona crédito aos bancos para que comprem dívida pública dos países e emprestem às famílias e às empresas.
Os bancos pagarão ao BCE o juro pela liquidez uma vez vença a operação de financiamento para três anos. Este juro será indexado pela média da taxa de juros reitora do BCE durante o período de vida da operação. Atualmente, o BCE empresta liquidez aos bancos a taxa de juro de 1%.

Último empréstimo

O presidente do BCE, Mario Draghi, cujo país natal, a Itália, estava no epicentro da crise quando o banco anunciou a medida no final do ano passado, disse que após a primeira das operações, conhecidas como LTROs, "uma grande, grande crise de crédito" havia sido revertida. 
Os bancos usaram grande parte do € 489 bilhões que pegaram emprestado na primeira vez para cobrir dívidas que estavam vencendo. Draghi os incentivou a emprestar o dinheiro que pegaram na operação desta quarta-feira para famílias e empresas, ajudando a melhorar o crescimento da economia. 
Autoridades do BCE esperam que os bancos também usem o dinheiro para comprar títulos de alto rendimento mais agressivamente, especialmente os da Itália. 
A evidência preliminar sugere que os bancos, especialmente na Espanha, mas também na Itália, usaram o primeiro LTRO para fazer mais da "operação Sarkozy" -um termo adotado pelos mercados após o presidente da França sugerir que os governos olhassem para o vigor dos bancos com o dinheiro do BCE para comprar os seus títulos. 
Os bancos espanhóis compraram € 23,1 bilhões de títulos do governo no mês passado e os italianos, € 20,6 bilhões, ambas altas recordes.
(Com informações de Efe e Reuters)

Crise no Banco do Brasil ameaça cargo de mais um vice


Ricardo Oliveira pode ser o primeiro dirigente do banco afastado em 2012 por conta das brigas internas pelo controle do BB e do fundo de pensão Previ

Ueslei Marcelino/Reuters
Dilma Rousseff
A presidente Dilma Rousseff mandou o ministro Guido Mantega afastar Oliveira por causa da disputa de poder envolvendo dirigentes
Brasília - O vice-presidente de governo do Banco do Brasil, Ricardo Oliveira - apelidado Ricardo Gordo - deverá ser o primeiro dirigente da instituição financeira a ser afastado neste ano em consequência das brigas internas pelo controle do BB e do fundo de pensão Previ. No ano passado, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, demitiu o também vice-presidente Allan Toledo, que estaria tramando a derrubada do presidente do BB, Aldemir Bendine.

De acordo com informações do Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff mandou o ministro Guido Mantega (Fazenda) afastar Oliveira por causa da disputa de poder envolvendo dirigentes do Banco do Brasil e da Previ. No cerne da crise, o vazamento de informações sigilosas sobre movimentações bancárias de Toledo.
Oliveira não quis se manifestar a respeito da notícia de que deixará o posto.
Em relação às situações de Bendine e do presidente da Previ, Ricardo Flores, a informação do governo é de que Dilma considerou "razoável" o comportamento deles ontem, um dia depois de tê-los enquadrado na "lei do silêncio". Na terça-feira, a presidente disse a Mantega que pusesse fim às brigas, sob pena de demitir os dois dirigentes.
Articulações
Bendine e Flores se desentenderam há cerca de um ano, durante a substituição do executivo Roger Agnelli na presidência da Vale. Influente dentro do governo, Ricardo Oliveira apresentou na ocasião duas sugestões de nomes para assumir o posto: Rossano Maranhão, ex-presidente do BB, e Aldemir Bendine. Mantega, no entanto, preferiu Murilo Ferreira.
A escolha do ministro recebeu apoio de Flores, da Previ. Bendine sentiu-se traído e, desde então, as rusgas entre os dois executivos vêm deixado o ambiente na cúpula do BB tenso.
Ricardo Oliveira é tido como um forte articulador político. Ele tem acesso ao ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), do mesmo modo que Bendine. Sua atuação de bastidores também é muito notada. Ele teria sido o responsável pela indicação dos dois últimos presidente do BB, Lima Neto e Bendine, funcionário de carreira do banco, assim como a do próprio Ricardo Flores para a Previ. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Para conter baixa do dólar, governo eleva IOF para empréstimos no exterior


SÃO PAULO - As medidas do governo para frear a valorização do real, ao que parece, não pararam em intervenções do Banco Central no mercado de leilões. O governo elevou o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% para empréstimos externos até três anos.
Em abril do ano passado o governo já havia estendido o prazo de 360 para até 720 dias. A mudança vale a partir de hoje (1º).
A medida pode estar relacionada ao anúncio do Banco Central Europeu de que irá emprestar 529 bilhões de euros a instituições financeiras.  A expectativa de o Brasil receber parte do dinheiro forçou uma rodada dupla de intervenções do BC brasileiro no mercado de câmbio local. A operação feita na Europa fez com que o dólar abrisse o dia em firme tendência de queda. Com a moeda na casa do R$ 1,68, o BC voltou a agir. As operações deram resultado e a moeda encerrou os negócios em alta de 0,82%, a R$ 1,7160, maior valor em duas semanas.
Neste ano, o Banco Central, já fez algumas intervenções no câmbio. "A tendência é de que o BC fique ainda mais atuante. Acho que a frequência das ações do governo deve voltar ao que era no primeiro semestre do ano passado com, por exemplo, compras mais próximas à frequência diária", diz o economista da Rosenberg & Associados, Rafael Bistafa.
Dados apresentados ontem pelo BC mostram que a entrada de dólares no Brasil em fevereiro, até sexta-feira passada, ultrapassou as saídas em US$ 5,25 bilhões. O movimento das últimas duas semanas, porém, foi inverso: a remessa para o exterior superou o ingresso em US$ 2,37 bilhões.
A desvalorização do real ante o dólar levou o BC a ter um ganho de R$ 90,2 bilhões com a administração das reservas internacionais no segundo semestre do ano passado. Esse valor será transferido ao Tesouro Nacional nos próximos dias.
IOF
Esta foi a terceira vez que o governo ampliou o prazo mínimo para isenção da cobrança do IOF incidente nos empréstimos de bancos e empresas brasileiras no exterior. Toda operação com menos de 3 anos será tributada em 6%. O prazo anterior, estipulado em abril de 2011, era de 720 dias. A medida visa a reduzir o ingresso de dólares no País e evitar uma valorização excessiva no mercado. O recente fortalecimento do real vinha preocupando o governo. O novo prazo vale para empréstimos tomados a partir de hoje.
O decreto 7.683, publicado hoje no Diário Oficial da União, estabelece que quando a operação de empréstimo for contratada pelo "prazo médio mínimo superior ao exigido", ou seja, acima de três anos, e for liquidada antecipadamente, total ou parcialmente, o investidor ficará sujeito ao pagamento de 6% de IOF, acrescido de juros e multa.
A taxação de IOF em operações externas foi anunciada em abril do ano passado para operações de até 360 dias. Cerca de uma semana depois, o governo ampliou para 720 dias e, agora, subiu para três anos. A medida serve para desestimular a tomada de crédito no exterior a prazos mais curtos e evitar que as empresas façam arbitragem de juros. Na ocasião da implementação da medida em 2011, o governo estava preocupado não só com a valorização do real, mas também com o excesso de oferta de crédito no mercado
doméstico com recursos captados no exterior.
O decreto publicado hoje ainda incorpora um novo inciso isentando de IOF as liquidações de operações de câmbio contratadas por investidor estrangeiro, inclusive por meio de operações simultâneas, relativas a transferências do exterior de recursos para aplicação no País em certificado de depósito de valores mobiliários, denominado Brazilian Depositary Receipts - BDR. A alíquota era de 6%.
(Com Fernando Nakagawa, da Agência Estado)

Horário de verão registra queda no consumo de energia


Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), a economia com horário de verão nesta edição chegou a R$ 160 milhões. Isso terá como consequência a redução da tarifa de energia elétrica para o consumidor.
Os dados da economia foram apresentados pela ONS que apontou uma redução da demanda da ordem de 2.555 MW – 1.840 MW no Sudeste e Centro-Oeste, 610 no Sul e 105 MW no Nordeste – incluindo a Bahia que voltou a adotar o horário alternativo. A redução representa 4,6% da demanda máxima dos três subsistemas.
Segundo o órgão regulador, a redução foi de 0,5 % em todos os subsistemas envolvidos, o que equivale a 8% do consumo mensal da cidade do Rio de Janeiro ou 10% do consumo mensal de Curitiba e 0,5% do consumo mensal de Feira de Santana (BA). Já no caso da cidade de São Paulo, a redução foi de 4,5 % no horário de pico resultando em economia de 985 Megawatts, a maior do país.
De acordo com o diretor do NOS, Hermes Chipp, destacou que a medida aumenta segurança do sistema e diminui os custos operacionais. O Ministério das Minas e Energia já havia adiantado nesta semana que pretende continuar a adotar anualmente o horário de verão.
*Com informações do A Tarde

27.2.12


13.2.12

O cidadão e o ambiente

A crise global tem lá suas virtudes. Entre as raras, lançou os economistas nas hostes da defesa do ecúmeno. Em alguns casos, leio e vejo o tema tratado com respeito. Respeito e sem despeito pelo sujeito que realmente interessa na relação economia–sociedade-natureza, o cidadão e suas condições de vida.

Kenneth Rogoff publicou um artigo implacável sobre o tema, sem flutuar nas indefinições convenientes que opõem genericamente o progresso econômico à preservação ambiental. Progresso e econômico são nominações sem conceito e se prestam a tergiversações ideológicas e álibis interessados. Nessas caixas aconcentuais cabem quaisquer contrabandos, como, por exemplo, o consumismo desaçaimado, introduzido na história como um deus ex machina.

Em seu artigo, Rogoff revela algumas inclinações perigosas num mundo que se acoita nas paliçadas do politicamente correto. Uma delas é dar o nome e endereço dos processos que desataram a agressão ao ecúmeno e à vida civilizada no planeta. “A sistemática e ampla falha regulatória é o elefante enfiado na sala do capitalismo ocidental.” Rogoff diz que a dinâmica político-financeira levou ao ataque cardíaco da economia em 2008, mas está interessado em ir além e investigar as mazelas constitutivas, estruturais, do dito capitalismo ocidental. Cuida da indústria de alimentos e de sua influência “maligna nos padrões de nutrição e na saúde dos cidadãos”. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças constatou que um terço dos adultos americanos é de obesos. Ainda mais chocante: entre seis crianças, uma é obesa. Os custos da obesidade não se restringem aos danos causados aos indivíduos, mas pesam no bolso da sociedade sob a forma de maiores gastos com saúde.

Rogoff não foge das perguntas inconvenientes. Os americanos são naturalmente inclinados a comer porcarias, junk food, ou a indústria de alimentos forra o caixa vendendo a gororoba com aditivos químicos destinados a criar hábitos irresistíveis de consumo? Resposta: os cientistas são pagos para combinar sal, açúcar e aditivos químicos de modo a tornar os últimos instantes da refeição mais atraentes e viciosos; as agências de propaganda são pagas para dominar as preferências dos consumidores e, no fim da linha, a indústria privada da saúde faz fortuna ao tratar das doenças provocadas pelo consumo de venenos. O “capitalismo coronariano”, conclui Rogoff, faz sucesso nas bolsas de valores que negociam diariamente as ações das processadoras de alimentos.

O capitalismo, essa formidável máquina de eliminação da escassez e de controle, libertou o homem moderno dos caprichos da natureza, da fome provocada pela má colheita, das pestes devastadoras. Mas o aprisiona em estruturas técnico-econômicas autorreferenciais e maníacas, governadas por relações de poder que agem sobre o destino dos protagonistas da vida social como forças naturais, fora do controle da ação humana. Estranho paradoxo, a desumanização da natureza, isto é, a degradação do ecúmeno ameaça a vida do homem e ao mesmo tempo impõe a naturalização das relações sociais.

O consumismo é apresentado como um vício moral originário da tentação que expulsou Adão e Eva do Paraíso. Mas essa patranha moralista e inconsequente esconde a deformação do desejo promovida por um sistema social e econômico que se encarrega de “criar” necessidades e de ajustá-las ao impulso incontrolável de ampliar o espaço em que se realiza o desejo maior, a acumulação de riqueza abstrata.

A forma moderna e capitalista do consumo de massa começa a se definir nos Estados Unidos entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Os consumidores estavam abrigados em grandes concentrações nas metrópoles criadas pela Segunda Revolução Industrial do motor a combustão, da eletricidade e das megaempresas. As novas classes médias se deslocaram para os subúrbios das cidades e levaram consigo a difusão dos duráveis. O desenvolvimento do crédito e as técnicas de propaganda inerentes à concorrência monopolista transformaram o consumo e o consumismo em um componente dinâmico da demanda efetiva. No pós-guerra, os desatinos e desperdícios desse “vício sistêmico” foram turbinados pelas novas modalidades de financiamento (cartões de crédito, por exemplo) e, mais recentemente, no mundo da finança desregrada, pela valorização do estoque de riqueza ao longo dos ciclos de crédito, o que desvincula crescentemente o consumo do comportamento da renda corrente.

A valorização do patrimônio líquido das famílias facilita o crédito barato para financiamento do gasto que alimenta a acumulação de lucros e liquidez pela grande empresa. O consumo final e intermediário da economia se abastece dos bens gerados a preços cadentes nas usinas de produtividade dos trabalhadores asiáticos, com ganhos reais para os consumidores e as empresas.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/economia/o-cidadao-e-o-ambiente/?autor=13