2.12.09

Montadoras reforçam investimentos

02 de dezembro de 2009

O Estado de S.Paulo (SP)

Depois de bater recorde de vendas em 2009, empresas iniciam novo ciclo de investimentos bilionários no País

Cleide Silva

A indústria automobilística brasileira vendeu, até novembro, 2,848 milhões de veículos, um recorde atingido um mês antes de o ano terminar. Até dezembro, o número deve passar de 3 milhões de unidades, consolidando o Brasil como quinto maior mercado mundial. As principais montadoras operam no limite da capacidade e partem para um novo ciclo de investimentos, visto pelo setor como o mais importante desde o final dos anos 90, quando ocorreu um boom de novas empresas no País.

Só os programas anunciados nas duas últimas semanas pela Ford e a Volkswagen somam R$ 10,2 bilhões e novos projetos serão revelados nos próximos meses. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) prepara relatório atualizado do plano de investimentos do setor, incluindo as autopeças. A conta anterior, de US$ 23 bilhões de 2008 a 2012, está defasada, admite o presidente da entidade, Jackson Schneider.

O novo ciclo tem características diferentes dos anteriores. Nos fim dos anos 90 e início dessa década, os investimentos focam focados na construção de novas fábricas. Sete novas marcas inauguraram fábricas locais e cinco das que já atuavam no País construíram novas unidades, além de dezenas de novos fornecedores de autopeças.

No ciclo anterior, que deveria ir até 2012, os esforços foram em modernização, rearranjo de gargalos e produtos. "Os novos programas são mais amplos, pois envolvem aumento de capacidade, produtos e tecnologias", diz Schneider.

Novas fábricas também estão contempladas. A japonesa Toyota vai instalar uma unidade em Sorocaba (SP), num aporte previsto em R$ 1 bilhão. A coreana Hyundai, que após o estouro da crise financeira suspendeu projeto de US$ 600 milhões para uma fábrica em Piracicaba (SP), já fala em retomá-lo. A aposta de que uma fabricante chinesa chegará ao País em breve também é grande.

Na visão de analistas do setor automobilístico, ao consolidar-se como sexto maior produtor mundial de veículos, e quinto maior mercado, o Brasil ganhou mais atenção dos investidores internacionais.

"O mercado automobilístico brasileiro tem potencial para continuar crescendo nos próximos anos, impulsionado pela forte recuperação do ritmo de atividade econômica, pelo aumento da oferta de crédito e também pela entrada de novos consumidores no mercado", diz o presidente da Fiat, Cledorvino Belini.

BNDES analisa 1.500 pedidos de crédito por dia

02 de dezembro de 2009

O Estado de S.Paulo (SP)

Indústrias recorrem ao Finame para comprar máquinas e equipamentos com juro reduzido até 31 de dezembro

Irany Tereza e Débora Thomé, RIO

O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) montou um plano de contingência com equipes extras que estão aprovando 1.500 operações de crédito do Finame (linha específica para aquisição de máquinas e equipamentos) por dia, no plano de financiamento a juros reduzidos que termina no fim do mês. "Estamos assistindo a uma modernização silenciosa que acontece na indústria", afirma o superintendente de Operações Indiretas do banco, Cláudio Bernardo.

Os incentivos do governo, com o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), inverteram o perfil do Finame, antes marcado principalmente por operações de compra de ônibus e caminhões, que ocupavam 60% dos empréstimos. Agora o programa é voltado à aquisição de máquinas para indústria, agricultura e construção.

Do fim de julho, quando entrou efetivamente em operação, até 19 de novembro, o PSI aprovou, pelo Finame, R$ 8,8 bilhões em financiamentos indiretos para a compra de bens de capital, em pouco mais de 33 mil operações. Desse total, R$ 4,5 bilhões se destinaram à compra de máquinas. No total, considerando financiamentos diretos e indiretos, estão disponíveis no PSI R$ 17,5 bilhões para a compra de ônibus e caminhões (também considerados pelo banco bens de capital)e R$ 12 bilhões para os demais equipamentos industriais.

O PSI foi criado para oferecer financiamento com taxas de juros bem inferiores às utilizadas pelo Finame. No PSI elas estão em 4,5% - 1,5% do BNDES e 3% do agente financeiro intermediador - para máquinas e equipamentos. No caso do Finame, os juros totais alcançam os 10% ao ano. Diante de um capital disponível e a custo tão convidativo, as empresas reagiram bem e as aprovações foram aumentando. Em novembro, 90% desse tipo de empréstimo saiu pelo PSI.

"O que estamos identificando é que várias empresas resolveram antecipar investimentos. Acreditamos que essa nova onda de projetos possa ter o mesmo papel modernizador que o Moderfrota teve em outro momento", comentou Bernardo. O Moderfrota foi criado em 1999 para recuperar o setor agrícola com modernização de máquinas e equipamentos. O novo programa para a indústria acaba em 31 de dezembro. O banco não fala sobre uma eventual prorrogação, como a que ocorreu no caso das isenções de IPI para automóveis e eletrodomésticos.

Porém, recurso para isso não deve faltar. Até agora, considerando todos os empréstimos - diretos e indiretos -, foram aprovados R$ 11 bilhões. Isso significa que ainda há R$ 18,5 bilhões disponíveis para financiar bens de capital (cuja dotação no PSI é de R$ 29,5 bilhões) que precisariam ser aprovados em pouco mais de um mês.

O valor médio dos empréstimos por meio do PSI é bastante modesto perto das cifras que o BNDES costuma financiar: ao redor os R$ 260 mil. Para impedir que grandes empresas acabassem estourando o orçamento do programa, houve uma limitação de R$ 1 bilhão por grupo econômico. De qualquer forma, qualquer operação acima dos R$ 20 milhões tem de ser aprovada pela diretoria.

Os empréstimos têm se concentrado sobretudo nos setores de alimentação, construção civil e transportes. A aprovação para compra de caminhões, que costuma ser a maior parte desse tipo de financiamento, foi ultrapassada pela liberação para máquinas e equipamentos.

"Só vivemos um movimento semelhante a esse em 2004, com a busca por equipamentos agrícolas. Vamos ter de fazer um plano de contingência trabalhando inclusive nos fins de semana para conseguir atender a todos os pedidos", diz o superintendente do BNDES. Pelos seus cálculos, nessa reta final estão sendo processados diariamente 1.500 pedidos. Em princípio, os financiamentos do PSI terão de ser aprovados até 31 de dezembro, mas eles têm 2 anos para serem executados.

FRASES

Cláudio Bernardo
Superintendente de Operações Indiretas do BNDES


"Estamos assistindo a uma modernização silenciosa que acontece na indústria"

" Só vivemos um movimento semelhante a esse em 2004, com a busca por equipamentos agrícolas. Vamos ter de trabalhar até nos fins de semana para atender a todos os pedidos"

EUA culpam Amorim por impasse em Doha

02 de dezembro de 2009

O Estado de S.Paulo (SP)

Americanos exigem do Brasil as mesmas concessões dos ricos

Jamil Chade, CORRESPONDENTE, GENEBRA

O governo dos Estados Unidos e as maiores associações industriais do país acusam o chanceler Celso Amorim de estar "condenando a Rodada Doha ao fracasso" e diz que Brasil, China e Índia precisam fazer as mesmas concessões que os países ricos fizeram nos anos 90 nas negociações comerciais. Para o Itamaraty, porém, é o governo americano que está em uma situação de isolamento cada vez maior na Rodada Doha.

Hoje a OMC conclui sua reunião ministerial sem decisão nem agenda clara para encerrar Doha até 2010. Na segunda-feira, o representante de Comércio dos EUA, Ron Kirk, deixou claro que a negociação só teria desfecho se Brasil, Índia e China abrissem seus mercados aos produtos industrializados dos países ricos. Amorim respondeu que pedir isso seria "irracional".

Até a noite de ontem, não havia nem sequer um acordo sobre a convocação de uma nova reunião março, para determinar se a Rodada deveria ser mantida ou abandonada. O governo americano rejeitava a ideia de um novo encontro. Outros, como a China, diziam que a nova reunião somente deveria ser convocada se os Estados Unidos se comprometessem a não pedir mais concessões.

Enquanto isso, Kirk subiu o tom dos ataques. "Se tomarmos a forma de pensar de Amorim, estaremos condenando Doha ao fracasso, porque todos estamos dizendo que queremos mudanças, mas não queremos fazer nada diferente."

O americano criticou a insistência do Brasil em seguir o mesmo caminho nas negociações há oito anos. Já o Itamaraty alega que são os americanos quem estão tentando mudar a agenda para garantir maior acesso ao mercado dos países emergentes. "Só faremos progresso se estivermos dispostos a sair de nossa área de conforto. E todos terão de fazer isso."

O representante da Casa Branca tentou amenizar sua posição, alertando que não está pedindo a abertura dos países pobres. "É das economias em desenvolvimento mais avançado que estamos pedindo. Os emergentes têm a oportunidade de subir ao pódio como Estados Unidos e Europa fizeram na Rodada Uruguai e tomar decisões difíceis que serão exigidas para um acordo."

A Associação da Indústria Manufatureira Americana, que engloba as maiores empresas dos Estados Unidos, também fez duras críticas a Amorim, alegando que o comportamento do Brasil impossibilitará a conclusão da Rodada. Já o chanceler insiste que há um só país que hoje não está de acordo com a Rodada: os Estados Unidos. "A questão é simples aqui. Dos 153 países da OMC, 152 já estão de acordo. Claro que o mais poderoso do mundo não está."

Para Amorim, há espaço para "algum ajuste na proposta". "Mas, se quiserem mexer muito no acordo, ou tudo será quebrado ou a mudança será tão grande que será outra rodada." Segundo ele, "o mundo mudou: o poder militar ainda está concentrado, mas no poder econômico há uma mudança".

Economia informal cresceu na crise, diz FGV

02 de dezembro de 2009

Folha de S.Paulo (SP)

No período de 12 meses completados em junho, a geração de riqueza no chamado segmento subterrâneo cresceu 21,5%

Exportações em queda e uma maior percepção de corrupção contribuíram para esse desempenho do setor, aponta estudo

SAMANTHA LIMA
DA SUCURSAL DO RIO

A queda nas exportações e a maior percepção de corrupção contribuíram para a disparada do desempenho da chamada economia subterrânea, no período de um ano até junho, mostra pesquisa da FGV.
Nessa fase, que englobou o pior da crise, a geração de riqueza -o chamado PIB- no segmento cresceu 21,5%. Sua fatia na economia brasileira engordou 22,6%.
Entende-se como economia subterrânea o segmento formado por empresas e profissionais que não informam ao governo suas receitas e rendas.
Para a FGV (Fundação Getulio Vargas), que calcula o indicador, esses fatores influenciaram mais esse segmento informal do que a desaceleração na economia geral, decorrente da crise, entre o fim do ano passado e o início deste ano. A FGV não calcula o tamanho da economia subterrânea no PIB, mas estima algo entre 10% e 20%.
Nos primeiros meses pós-crise, o mercado informal ainda se beneficiava do aumento da renda do brasileiro, anterior à crise -a massa salarial no país subiu 2,8% nesse período, segundo o IBGE.
"A crise não teve um impacto direto na economia subterrânea inicialmente, já que o efeito imediato foi a menor oferta de crédito. Esse mercado não depende de crédito. Além disso, a massa salarial alta manteve aquecida a demanda por bens e serviços desse mercado", diz o economista Fernando Holanda Barbosa Filho, da FGV.
"A atividade de exportar exige das empresas uma maior legalização, o que funciona como inibidor da informalidade", diz o economista. A crise reduziu a venda de mercadorias brasileiras ao mundo em 22% entre janeiro e junho.
"Já a percepção de corrupção dá a empresas e trabalhadores liberais a sensação de impunidade, sendo um incentivo para o não cumprimento de regras", diz o economista.
O desempenho da economia subterrânea entre julho de 2008 e junho de 2009 é o maior desde 2003 para esse período de comparação: cresceu 35%. Sua fatia no PIB avançou 17%.
Agora, porém, o efeito da crise já fica mais evidente. No segundo trimestre, o segmento cresceu apenas 1,1% -sua fatia no PIB encolheu 0,8%. Para os próximos meses, a expectativa da FGV é de crescimento maior da informalidade. "A economia formal está se aquecendo e vai puxar a subterrânea junto", diz Barbosa Filho.
Ruy Quintans, professor do Ibmec-Rio, porém, atribui o aumento atual da economia subterrânea ao desemprego. Mas Quintans concorda que a tendência seja de alta. "Se o país crescer mas não resolver problemas como custo da contratação, alta taxa de juros, educação deficiente, a economia subterrânea vai explodir."

Brasil e China viram porto seguro para investidores na crise

02 de dezembro de 2009

Folha de S.Paulo (SP)

Após crise em Dubai, aplicadores procuram refúgio em títulos de países emergentes, que têm situação fiscal mais saudável

Tensão sobre moratória de emirado afeta mais nações europeias como Irlanda e Grécia, devido ao seu alto grau de endividamento

DAVID OAKLEY
DO "FINANCIAL TIMES"

Grécia, Irlanda e Hungria -países cujos níveis de endividamento são vistos como perigosamente altos e ascendentes- estiveram entre os mercados mais prejudicados pelo pânico com relação à moratória de Dubai, devido ao medo de contágio entre os investidores.
Mas a regra de investimento que dispunha vender ativos de mercados emergentes e comprar papéis dos mercados desenvolvidos, tradicionalmente mais seguros, nos momentos de crise parece ter sido virada de cabeça para baixo depois do impasse sobre a dívida do emirado do golfo Pérsico surgido na semana passada.
Os títulos de mercados emergentes como Brasil e China registraram pesado fluxo de recursos e estão sendo tratados como refúgios pelos investidores, devido à situação mais saudável das finanças públicas nos dois países, enquanto os mercados de títulos de dívida da Grécia e da Irlanda viram uma forte onda de vendas.
Esse fator sublinha a mudança na dinâmica da economia mundial. Os riscos do alto endividamento dos países industrializados se tornaram uma das maiores preocupações para os investidores.
Muitas economias emergentes, devido ao seu baixo endividamento e à gestão econômica prudente, parecem ter sobrevivido à crise de maneira mais efetiva que os países mais ricos.
Em 2010, a relação entre dívida pública e PIB deve subir a 111% e 80% na Grécia e na Irlanda, respectivamente. Em contraste, as projeções para a relação dívida/PIB na China e no Brasil estão estáveis em 46% e 65%, respectivamente.
Nigel Rendell, estrategista sênior de mercados emergentes na RBC Capital Markets, diz que "muitos dos países com as mais altas dívidas públicas estão no grupo dos industrializados. Grécia e Irlanda têm alto endividamento e é por isso que seus títulos passaram a sofrer pressões no mercado nos últimos dias".
O Japão tem a maior relação dívida/PIB no mundo. A projeção é que ela supere os 200% em 2010, enquanto para os EUA e o Reino Unido a projeção é de alta para 97% e 89%, respectivamente.
Gary Jenkins, diretor de pesquisa sobre mercados de renda fixa na Evolution, diz que "os governos dos países industrializados na prática se hipotecaram até o limite a fim de escapar da crise financeira. Essas dívidas terão de ser pagas um dia, e isso significa preocupação continuada quanto à situação delas, para os investidores, até que o valor seja reduzido".
Muitos analistas afirmam que o pânico quanto à moratória de Dubai deve passar logo, porque se trata de uma economia minúscula cujos problemas ficam confinados ao emirado. Mas o impasse quanto à sua dívida redespertou uma das maiores preocupações dos investidores: o elevado endividamento de muitas economias.
Caso os níveis de dívida não sejam reduzidos, economias como as da Grécia e da Irlanda continuarão vulneráveis a futuros choques financeiros, e é provável que seus mercados venham a sofrer novas pressões.

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Tradução de PAULO MIGLIACCI

IOF derruba negociação externa na Bolsa

02 de dezembro de 2009

Folha de S.Paulo (SP)

Participação de investidor estrangeiro no total girado na Bovespa atinge o menor patamar desde dezembro de 2004

Recuo foi de 33,7% em outubro para 28,1% em novembro; fundos e pessoas físicas passam estrangeiros na movimentação do mês

FABRICIO VIEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

No primeiro mês fechado após o início da cobrança de IOF sobre o capital externo destinado a operações com ações brasileiras, a parcela dos estrangeiros nos pregões da Bovespa desceu a seu mais baixo patamar em quase cinco anos.
Os investidores externos responderam por 28,1% do total movimentado na Bolsa brasileira em novembro -até o penúltimo pregão do mês. É o menor percentual desde os 27% de dezembro de 2004. Em outubro, a categoria respondeu por 33,7% do total. O encolhimento na movimentação externa se refletiu no número de transações totais realizadas em pregão, que teve redução de 12,6% de outubro para novembro.
Quando o governo anunciou que passaria a cobrar 2% de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) do capital externo que aplicasse em ações, na noite de 19 de outubro, o diretor-presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, reclamou que a medida espantaria o estrangeiro e prejudicaria o mercado local. Isso porque a Bolsa tem importante renda nas taxas que cobra nas operações.
Carlos Constantini, diretor da Itaú Corretora, diz que, quando foi anunciada, a medida "parecia ser muito nociva" e "gerou uma correção importante". Tanto que o governo acabou anunciando a cobrança de 1,5% de IOF de certas operações com ADRs -recebidos de ações brasileiras negociados em Nova York. Dessa forma, buscou evitar que os estrangeiros trocassem as ações locais pelos ADRs, como começou a ocorrer, segundo operadores, no início de novembro.
Com a diminuição da participação dos estrangeiros, categorias locais reassumiram a posição de líderes de negociação. A pessoa física respondeu 30,9% das operações de novembro, enquanto o investidor institucional ficou com 28,4%.
Em tese, se a Bolsa tem uma dependência maior do capital externo, fica mais exposta aos humores internacionais. No ano passado, quando a crise global atingiu seu auge, a fuga de recursos externos da Bolsa foi recorde -saíram líquidos R$ 24,6 bilhões. E a Bovespa registrou sua mais expressiva queda (41,22%) desde 1972.

Mudança de regras
"Um reflexo importante do IOF, talvez mais até do que o custo em si, é o aumento das incertezas dos investidores, por significar mudança de regras. Cria-se também o temor de que novas medidas sejam adotadas no meio do caminho. Mas esses efeitos, desde que nada de novo ocorra, tendem a ser temporários, por dois ou três meses", disse Roberto Padovani, estrategista-chefe do WestLB.
O número de participantes internacionais na Bolsa brasileira cresceu substancialmente nos últimos anos. Segundo o diretor-presidente da BM&FBovespa, o número de clientes estrangeiros saltou de 2.000 em 2006 para cerca de 5.000 hoje.
Ao decidir criar a taxação, o governo estava, na realidade, preocupado com a depreciação do dólar, e não com os movimentos da Bolsa de Valores. Em outubro, o dólar bateu em R$ 1,70 e aumentou a chiadeira do setor exportador, prejudicado pelo real forte.
Desde lá, a moeda norte-americana não desceu abaixo de R$ 1,70. Mas também não ganhou muito fôlego, tendo encerrado ontem a R$ 1,723.
Constantini diz que já nota um retorno mais forte dos estrangeiros. Para ele, as projeções cada vez melhores de crescimento da economia brasileira em 2010 mantêm a Bovespa no radar do capital externo.

30.11.09

Venceríamos todos...

Autor(es): Carlos Lessa
Valor Econômico - 30/11/2009

É insólito o ministro falar da necessidade de uma desvalorização cambial de 34%

Dia 18 deste mês, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, proclamou que, "se o dólar no Brasil estivesse a R$ 2,60, venceríamos todos". Prosseguiu afirmando que, assim, "a indústria nacional poderia enfrentar a concorrência dos chineses e coreanos" e enfatizou: "a indústria brasileira tem muita competência e capacidade, mas nós temos uma desvantagem cambial".

Concordo inteiramente com o ministro, pois após a crise, o yuan chinês se valorizou apenas 3% em relação ao dólar, enquanto o real brasileiro se valorizou quase 30% (um primeiro lugar altamente negativo). Porém, fiquei perplexo: é insólito para o mercado de capitais e financeiro atrelado ao câmbio flutuante um ministro da Fazenda falar da necessidade de uma desvalorização cambial de 34%, mas praticamente nada aconteceu. Essa é outra surpresa. De duas, uma: ou "o mercado" não escuta a Fazenda ou teria acontecido outra notícia neutralizando a declaração. Creio que a última hipótese ocorreu, pois no mesmo dia, Mário Torós abandonou a diretoria do Banco Central e o dr. Meirelles disse que, a pedido de Lula, ficará no cargo até o fim de 2010. Se alguém tinha qualquer dúvida sobre quem comanda "o mercado", percebeu que vivemos sob o Império do CMN e do Presidente Meirelles: no mesmo dia, correu a notícia de que os membros do CMN escolheram o substituto do demissionário Torós. Nada de novo no Quartel de Abrantes?

Obviamente, por trás da declaração de Mantega está sua inequívoca preocupação com a atrofia das exportações de produtos manufaturados e a explosão de gastos pouco prioritários, como no turismo. Deve prevalecer a preocupação com a brutal perda financeira que o Brasil tem ao comprar dólares que afluem em busca dos juros a 8,75% a.a. e são aplicados, pelo BC, em Títulos do Tesouro americano, que rendem cerca de 1% a.a. O ministro da Fazenda sabe que, nessa absurda operação, o Brasil perde mais que os gastos federais em Saúde e Educação. Sabe, também, que num mundo em crise o Brasil é o paraíso dos aplicadores de capitais de curto prazo, atraídos pelos juros reais que o BC paga, pela ausência de tributação, pela cláusula cambial e pela facilidade de retorno. Essa cadeia de felicidade para os especuladores se realimenta, pois o afluxo de dólares valoriza o real e aumenta os ganhos especulativos dos pioneiros da cadeia. O coro que apresenta o Brasil como "uma ilha de felicidade no oceano da crise mundial" reforça a atratividade da aplicação suicida dos dólares afluentes. Quero crer que o ministro Mantega não aprova essa política do Presidente Meirelles, mas tem que agüentar a versão tupiniquim da Doença Holandesa e perceber a atrofia da renda da agropecuária e o desestímulo à atividade industrial.

Imaginei que, nas catacumbas da política econômica, alguma alquimia estivesse sendo desenhada. Alguns sinais já haviam sido emitidos: a aplicação do IOF de 2% aos capitais estrangeiros afluentes (um modesto ensaio de freio), o boato de que os brasileiros poderiam manter contas em dólar em bancos no Brasil (remuneradas a 8,75%? ), e o rumor cada vez mais insistente de que o BC estaria avaliando a possibilidade de os bancos que operam no Brasil poderem fazer operações de derivativos a partir daqui. Desatar as regras de estruturação e derivativos a partir do Brasil "seria uma simplificação burocrática" e soaria como avant première de que o Brasil estaria dissolvendo qualquer "amarra cambial", estaria dissolvida qualquer "pérfida reminiscência de uma passada situação de escassez de moeda estrangeira". Estaria em estudo a autorização para que fundos multimercados possam aplicar recursos no exterior - afinal de contas, as exportadoras já mantêm mais de US$ 10 bilhões no exterior! Houve a elevação da nota do Moody´s e estaríamos vivendo a "era da fartura de dólares".

A idéia da superação da crise e de que a nau brasileira navegará com as velas enfunadas em um oceano esplêndido é a mais espetacular invenção tupiniquim. Sem esgotar sinais, apenas citando alguns veiculados pela mídia no último mês, vejamos a qualidade da meteorologia futurística do BC e da onda esfuziante de autocongratulações pré-sucessórias do Governo: todos os analistas americanos falam da ameaça de uma bolha de cartões de crédito, deploram o "empobrecimento" das famílias americanas, sinalizam debilidades estruturais nas entidades financeiras (nas últimas semanas, a CIT, maior financiadora de varejo, vacilou), o FCC esgotou sua possibilidade de apoiar agentes financeiros norte-americanos vacilantes etc.

A Europa ainda em recessão, do Japão não vêm boas notícias. A China é exceção, porém é uma economia fechada à especulação internacional, mantém o yuan sintonizado com o dólar e está realizando um gigantesco investimento público em infraestrutura (o contrário do Brasil). No G-2, a atrofia norte-americana abre caminho para uma neo geopolítica chinesa, vitoriosa na Ásia, fortemente instalada na África subsaariana e em rápida penetração no Cone Sul do continente americano.

Agora Dubai pré-anuncia um calote; o Dubai World pediu uma moratória de seis meses. Dubai deve US$ 80 bilhões e anunciou o fechamento de seu mercado financeiro. Nesse país, um mar de areia sobre um leito de petróleo, estourou uma bolha imobiliária e seus hotéis imaginosos estão vazios. Espero que não prospere, com alicerce no Pré-Sal, um trem-bala-bolha equivalente à torre hoteleira instalada em águas salgadas com mais de 20 andares formatados com inspiração de velas.

O mar tempestuoso da crise mundial poderá fazer da "nau brasileira" a repetição da sinistra caricatura que o governo FHC fez da lancha travestida de caravela, que enguiçou antes de chegar a Coroa Vermelha para replicar as naus cabralinas. O Brasil do Presidente Meirelles e do Ministro Mantega parece estar sendo preparado para mergulhar, sem bóia, num mar tempestuoso.

Em tempo: Os depósitos de exportadores brasileiros no exterior não evidenciam retenção de dólares; pelas alquimias do sistema financeiro e pelas facilidades dos anonimatos dos paraísos fiscais, é sabido que uma parcela substancial dos "capitais estrangeiros" de curto prazo pertencem, de fato, a brasileiros que se sentem mais confortáveis tendo fantasia de estrangeiro. Desconheço o tamanho da diáspora de dólares de brasileiros que retornam travestidos em busca dos juros do Presidente Meirelles. Na Argentina, o governo estima que estão no exterior US$ 90 bilhões de dólares de argentinos. Com a abertura cambial total, sem salvaguardas e com uma pseudo-ingenuidade, nada mais fácil que operar transmutações financeiras alquímicas e desfrutar ganhos de arbitragem. Sai de vez o povo brasileiro e, parafreaseando João Ubaldo, "Viva o BC brasileiro" e sua constelação de clientes!

Carlos Lessa é professor emérito de economia brasileira da UFRJ. E-mail: carlos-lessa@oi.com.br