6.4.10

Crescimento consolida índice de desemprego em nível mais baixo

06 de abril de 2010

Valor Economico (SP)

Conjuntura: Desocupação média nas seis principais regiões metropolitanas ficou em 7,1% em fevereiro

Sergio Lamucci, de São Paulo

O mercado de trabalho dá sinais de forte aquecimento em 2010. Em fevereiro, a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas ficou em 7,1%, feito o ajuste sazonal, a mais baixa da série histórica iniciada em 2001, segundo a Rosenberg & Associados. A geração de empregos é bastante significativa, com intensa criação de postos com carteira assinada, e há indícios de escassez de mão de obra qualificada em segmentos como a construção civil. A expectativa generalizada é de que a taxa média de desemprego neste ano ficará abaixo dos 7,9% de 2008, até hoje a menor da série - há quem aposte num número na casa de 7%, como a economista Luiza Rodrigues, do Santander.

Com a consolidação de um crescimento mais elevado e menos volátil nos últimos anos, a desocupação parece ter mudado estruturalmente de patamar, rodando bem abaixo dos cerca de dois dígitos que se observavam até 2006. Para a maior parte dos analistas, essa força no mercado de trabalho ajuda a pressionar a inflação, sendo um dos fatores que levarão o Banco Central a elevar os juros neste mês.

A forte geração de empregos é um dos pontos que chamam a atenção neste ano. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que faz o raio-X nas seis principais regiões metropolitanas e capta também o que se passa no setor informal, o estoque de ocupados em fevereiro aumentou 3,5% em relação ao mesmo mês de 2009. "Na média dos três meses anteriores, o número de ocupados em fevereiro subiu 2,2%. A alta neste ano ficou bem acima da sazonalidade do período", diz Luiza.

O supervisor técnico da Pesquisa de Emprego e Desemprego do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Sérgio Mendonça, ressalta que o crescimento recente da economia se dá com mais força em setores ligados ao mercado interno, como serviços, comércio e construção civil. São segmentos que empregam bastante, diz ele, observando que está em curso uma retomada das contratações na indústria, também nos setores mais dependentes do mercado doméstico. "Outra boa notícia é o aumento expressivo dos postos com carteira assinada."

O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, diz que o aumento da ocupação espalhou-se por vários setores, com destaque para a construção civil, "em franca expansão". Pela PME, o número de ocupados no setor cresceu 8,1% sobre fevereiro do ano passado. No setor de serviços, a alta foi de 3,5% e na indústria, de 2,1%.

Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de janeiro e fevereiro também retratam a pujança no começo do ano. No primeiro bimestre, o saldo entre contratações e demissões no segmento formal ficou positivo em 390,8 mil vagas. Na construção civil, foram gerados 89 mil postos formais no período, um número expressivo, que ocorreu após o resultado significativo de 2009 - no ano passado, houve a criação de 297.157 vagas no setor, com as demissões superando as contratações apenas em dezembro, mês em que tradicionalmente há perdas de postos de trabalho. "Esse é um setor em que já falta de mão de obra qualificada", diz a economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thaís Marzola Zara.

No Índice Nacional dos Custos da Construção (INCC) de março, o grupo mão de obra subiu 0,4%, alta pouco expressiva, mas que foge à sazonalidade do indicador. Em março de 2008, o aumento desse grupo foi de 0,15% e em março de 2009, de 0,1%. As maiores elevações desses custos costumam aparecer em maio, refletindo os dissídios da categoria. Em São Paulo, a data-base é 1º de maio.

Um dos fatores que explicam o bom momento do mercado de trabalho é a expectativa de que a demanda doméstica continuará firme em 2010 e, possivelmente, também em 2011, ainda que a um ritmo um pouco mais fraco do que neste ano, diz o economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos. Com a perspectiva de um crescimento expressivo do PIB, entre 5,5% e 6%, as empresas fazem mais contratações, para atender à demanda crescente.

Números da Sondagem da Fundação Getulio Vargas (FGV), apontam para alta de 14,6% na capacidade instalada em 2010, a maior em oito anos. Camargo também aponta uma mudança estrutural recente que colabora para a maior formalização do mercado de trabalho brasileiro. Com a entrada em vigor em 2007 da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, que instituiu o Supersimples, ficou mais barato para empresas de menor porte registrarem os funcionários.

Em fevereiro, a taxa de desemprego ficou em 7,4% na série original (que não retira as influências sazonais), bastante inferior aos 8,5% do mesmo mês de 2009, período em que o Brasil sofria bastante com a crise. Os analistas destacam que a taxa ficou num nível baixo mesmo com o forte aumento do número de trabalhadores em busca de emprego. A população economicamente ativa (PEA) avançou 2,2% sobre fevereiro de 2009, ritmo bem superior ao 1,1% de janeiro. Com o aquecimento da economia, mais pessoas se dispõem a procurar trabalho, numa redução do chamado desalento. Romão vê uma redução estrutural do nível de desemprego no país, dado o crescimento mais forte que se consolidou nos últimos anos.

Com a expansão significativa do emprego e da renda, vários analistas veem pressões inflacionárias provenientes do mercado de trabalho. Para este ano, Luiza prevê uma alta de 5,5% da massa salarial real, resultado da combinação de um aumento de 3% do rendimento acima da inflação e de 2,4% da ocupação. Em 2009, a massa salarial aumentou 3,1%. O consumidor fica mais propenso a aceitar aumentos de preços, e os serviços (como cabeleireiro, aluguel, conserto de automóvel, mensalidades escolares) ficam mais pressionados.

No Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), os serviços subiram 6,85% nos 12 meses até março, acima da alta de 5,09% do indicador "cheio". Thaís e Camargo veem na situação no mercado de trabalho um fator importante para o BC elevar juros.

Romão também vê um mercado aquecido, mas faz algumas qualificações. Se o quadro é apertado na construção civil, parece haver alguma folga na indústria de transformação, avalia. Nesse segmento, observa, as contratações subiram com força a partir de agosto do ano passado, mas ainda faltam 211,2 mil vagas para que se recuperem os postos formais perdidos na crise, especialmente entre novembro de 2008 e março de 2009.

Para ele, a taxa média de desemprego neste ano ficará em 7,7%, mais alta que os 7% ou 7,1% estimados por Luiza. Romão trabalha com uma taxa um pouco mais alta, por acreditar que o número de pessoas em busca de emprego vai crescer com força. Ele aposta numa alta de 2,8% para a PEA, abaixo dos 3,2% do número de ocupados, mas um crescimento elevado. Com isso, a taxa média de desemprego não cai tanto nas contas de Romão.

Em 2008, o BC divulgou estimativas de qual seria a "taxa natural de desemprego" no Brasil - aquela que não acelera a inflação. Dependendo da metodologia adotada, ela ficaria entre 7,4% e 8,5%. A taxa dessazonalizada em fevereiro, de 7,1%, já está abaixo até mesmo do piso dessas projeções, o que indicaria situação de pleno emprego.

A taxa natural de desocupação é um conceito bastante controvertido, atacado por economistas como o ex-ministro Antonio Delfim Netto, que aponta as "variâncias gigantescas" que aparecem nas estimativas. Luiza acha que se trata de um conceito válido, mas acredita que o número pode ter caído para 7% ou um pouco menos. O trabalhador hoje é um pouco mais qualificado, o que o torna mais produtivo, diz ela. Romão observa ainda que, no Brasil, a informalidade é grande e o rendimento médio é muito baixo. Com isso, é mais difícil afirmar que a taxa está num nível que acelera a inflação.

Imposto sobre bancos deve ser criado até o fim do ano, diz Brown

06 de abril de 2010

Folha de S.Paulo (SP)

ECONOMIA GLOBAL


COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

As grandes potências estão próximas de chegar a um acordo sobre a criação de um imposto internacional para os bancos, de acordo com o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown.
Em entrevista ao jornal "Financial Times", Brown sinalizou que a taxação -que deverá custar bilhões de libras aos bancos- pode ser aprovada em novembro, durante a reunião do G20 (grupo que reúne os principais países ricos e emergentes) em Seul, na Coreia do Sul.
"Estamos discutindo o que Reino Unido, França e Alemanha podem fazer juntos", afirmou. "Estamos de acordo em relação à necessidade de criar uma base comum", acrescentou. Os três países esperam que os Estados Unidos se juntem ao projeto.
A Alemanha anunciou na semana passada a intenção de instaurar um imposto sobre os bancos, que alimentaria um fundo de resgate ao setor financeiro em caso de crise. A França e a Alemanha também estudam medidas similares, embora não tenham definido os detalhes.
Embora as eleições no Reino Unido devam ocorrer em pouco mais de um mês, Brown está engajado nos meios diplomáticos para chegar a um entendimento global sobre a indústria bancária. "O relacionamento entre bancos e sociedade tem que mudar", afirmou.

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Com agências internacionais

Contingenciamento adia investimentos de R$ 17,9 bi

06 de abril de 2010

Estadao.com.br

AE Agencia Estado

BRASÍLIA - Como todos os anos, o bloqueio de recursos do orçamento de 2010 vai atingir, principalmente, os investimentos. O decreto de programação orçamentária, divulgado na semana passada no Diário Oficial da União, mostra que o represamento de investimentos deve chegar a R$ 17,9 bilhões, em comparação com R$ 11,16 bilhões na área de custeio da burocracia.

Os ministérios que mais perderam foram os da Agricultura, Turismo, Esportes, Defesa e Cidades. Recentemente, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, anunciou que o contingenciamento seria de R$ 21,8 bilhões neste ano. Pelo decreto, esse valor chega a R$ 29,1 bilhões devido à incorporação de créditos extraordinários aprovados pelo Congresso no decorrer do ano.

Inicialmente, o orçamento de 2010 previa a liberação de R$ 189,02 bilhões, sendo R$ 127,87 bilhões para custeio e R$ 61,15 bilhões para investimentos. Com o ajuste, a dotação orçamentária caiu para R$ 165,22 bilhões, dos quais R$ 116,7 bilhões serão direcionados para custear a máquina pública e R$ 43,19 bilhões para investimentos.

Mas esse corte temporário não deve limitar de forma significativa os gastos do governo. O decreto de programação é, na verdade, um ajuste fino no orçamento, concentrado, principalmente, na revisão das receitas, que estavam infladas. O objetivo é conter uma ampliação ainda maior dos gastos, principalmente, com emendas dos parlamentares durante a tramitação da lei orçamentária no Congresso. Além disso, o bloqueio de recursos não é definitivo. Conforme o comportamento da arrecadação no decorrer do ano, o valor represado pode ser liberado gradualmente. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Prédios "populares" já têm serviços de classe média

06 de abril de 2010

Folha de S.Paulo (SP)

MARIANA SALLOWICZ
DA FOLHA ONLINE

Condomínios com piscina, churrasqueira, salão de festas, espaço gourmet e até biblioteca. Os imóveis voltados à baixa renda ganharam espaço no mercado imobiliário e estão mais equipados. Os lançamentos em São Paulo custam de R$ 75 mil a R$ 145 mil e ficam em bairros mais afastados do centro -a maioria na zona leste-, têm entre dois e três dormitórios e espaços reduzidos, que variam de 45 m2 a 65 m2.
"As construtoras hoje conseguem fazer empreendimentos [para a baixa renda] com os atrativos do alto padrão", diz Maurílio Scacchetti, diretor da consultoria HabitCasa, divisão para o segmento econômico da Lopes. Um dos fatores que tornam isso possível é o tamanho dos empreendimentos, com até mil unidades. Assim, o uso da piscina, por exemplo, é mais "coletivo".
Henrique Bianco, presidente da HM Engenharia, que atua no segmento econômico, afirma que os acabamentos são adaptados para viabilizar o custo. A empresa oferece imóveis com valor médio de R$ 95 mil.
Além disso, a concorrência entre as construtoras tem contribuído para as melhorias. "Com crédito em alta, a disputa entre as empresas cresceu. Quem apresentar mais diferenciais, leva vantagem", acrescenta.
A construtora Cury, que já atuava nesse segmento, viu os negócios se expandirem com o programa Minha Casa, Minha Vida e passou a se especializar na venda direta ao cliente, que demandou condomínios mais estruturados. "Percebemos que havia muito a fazer, como lazer e segurança", afirma o presidente, Fábio Cury.
Os condomínios, de 600 a 1.000 unidades, têm piscina, quadras, churrasqueiras, salão de jogos e, mais recentemente, bibliotecas. "Montamos salas de estudo, e os moradores doam materiais."
A auxiliar administrativa Glaucia Alves da Silva, 25, comprou um apartamento em um condomínio com biblioteca. "Achei muito interessante. Nunca tinha visto em nenhum outro lugar."
Para viabilizar o custo, as empresas constroem em bairros periféricos, em terrenos mais baratos. O valor médio dos apartamentos da Cury é de R$ 75 mil.
Os municípios próximos à capital também concentram os lançamentos, como Guarulhos, Ferraz de Vasconcelos, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Santo André, Embu, Itapecerica da Serra e Taboão. Com valor médio de R$ 145 mil, a Atua Construtora, selo econômico da Yuny, também tem projetos nessas regiões.

Arrecadação sobe 20% no setor de bebidas

06 de abril de 2010

Folha de S.Paulo (SP)

Após controle mais rígido nas fábricas de refrigerantes, cervejas e água mineral, Receita Federal recolhe mais tributos

Para o fisco, novo sistema ajudou a reduzir sonegação; fabricantes dizem que a alta também reflete aumento das vendas do setor

CLAUDIA ROLLI
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL

A arrecadação de impostos federais do setor de bebidas aumentou 20% no ano passado, após a Receita Federal controlar a produção de cervejas, refrigerantes e água mineral com a instalação do Sicobe (Sistema de Controle de Produção de Bebidas) em 108 fábricas no país. No ano passado, a indústria do setor pagou R$ 8 bilhões em impostos federais e estaduais, segundo o fisco federal.
O incremento de 20% na arrecadação de tributos federais -IPI, PIS e Cofins- ocorreu porque o Sicobe inibiu a sonegação fiscal no setor, segundo Otacílio Cartaxo, secretário da Receita Federal.
Para os fabricantes de bebidas, essa alta na arrecadação também é reflexo do aumento das vendas de bebidas e de impostos com mudanças na legislação tributária do setor -em 2009, a arrecadação de impostos passou a considerar preço e volume de vendas; até então, a tributação era feita sobre o volume de vendas das fábricas.
"Houve ganho importante na arrecadação do setor de bebidas com essa forma mais avançada de controle da produção, que é o Sicobe. Na área tributária, existem certos instrumentos de elisão fiscal que, com controles eficientes, como esse, são afastados. Com o Sicobe é possível ter, em tempo real, um controle mais confiável e seguro [da produção de cada bebida]", diz Cartaxo.
Elisão fiscal é quando o contribuinte busca brechas na lei para pagar menos impostos.
Estabelecido na lei nº 11.827, de 2008, o Sicobe permite à Receita Federal acompanhar, em tempo real, a produção de bebidas no país por meio de equipamentos (contadores) que possibilitam o registro, a gravação e a transmissão das informações para a sua base de dados.
Segundo o secretário, o sistema é mais eficiente porque permite fazer o "rastreamento individual" de cada bebida produzida no país. No ano passado, por exemplo, a Receita informa ter controlado a produção de 11 bilhões de litros de cerveja e de 13 bilhões de litros de refrigerantes -o que corresponde a um faturamento de R$ 30 bilhões- nas 108 fábricas, de grande e médio portes, que já contam com o Sicobe.
Desde janeiro deste ano, mais 17 fabricantes instalaram os equipamentos de controle, e outros 25 já foram intimados a colocá-los até o final de junho. "Começamos pelos grandes e vamos descendo na escala, para os médios e os pequenos fabricantes. Em 2011, deve ser concluída a instalação nos pequenos", afirma.
As empresas são intimadas pela Receita para, em uma primeira etapa, preparar os estabelecimentos para receber os contadores de produção. Em seguida, têm prazo de 60 a 90 dias para concluir a instalação, que é de responsabilidade da Casa da Moeda e supervisionada pelo fisco. "[Ser intimadas] não significa que estão sendo fiscalizadas e, sim, que estão em processo de instalação do sistema", diz Cartaxo.
Até o final deste ano, o Sicobe deverá ser instalado em mais 120 fabricantes -sem custo para as empresas, segundo a Receita Federal.

Lula se irrita com equipe econômica

06 de abril de 2010

Estadao.com.br

Presidente fez dura cobrança sobre a necessidade de o Brasil intensificar o financiamento das exportações

Tânia Monteiro, de O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez na segunda-feira, 5, uma dura cobrança à equipe econômica sobre a necessidade de o Brasil intensificar o financiamento das exportações para evitar a perda de mercado que vem permitindo, por exemplo, o avanço dos produtos chineses na Argentina.

Na reunião ministerial realizada na Granja do Torto, umas das residências oficiais da Presidência, Lula disse já ter determinado "mais de uma vez" que a área econômica resolvesse este problema, mas até agora não viu resultado. Segundo o presidente, a China "está fazendo isso nas nossas barbas".

Lula quer que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financie a compra de produtos brasileiros por outros países e que essa ofensiva seja deflagrada o mais rápido possível, principalmente nos países da América do Sul. E desabafou, em tom de cobrança: "tem de resolver isso logo. Eu já falei isso mais de uma vez e não aconteceu nada. Tem de acelerar isso."

A área econômica vem estudando várias medidas para estimular as exportações, entre elas a criação de uma instituição subsidiária do BNDES destinada a financiar a venda de produtos brasileiros ao exterior. Mas até agora, por causa das divergências entre os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, ainda não está definido o perfil desse novo organismo, que seria semelhante aos Eximbanks existentes em vários países.

Lula disse que, se não for possível fazer financiamento das exportações, que se concedam empréstimos aos países compradores para assegurar mercado ao produto brasileiro. Ele lembrou que, quando vendem produtos no Brasil e pelo mundo a fora, os estrangeiros levam seus financiamentos a tiracolo.

O presidente fez a cobrança depois de ouvir relatos do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre o aumento do déficit em conta corrente. Segundo o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, o presidente reforçou a determinação para que a área econômica acompanhe o assunto com atenção, mas com tranquilidade, porque as reservas internacionais elevadas dão robustez à economia para enfrentar qualquer vulnerabilidade externa.

Para Lula, o crescimento do déficit em conta corrente é fruto muito mais do aquecimento da economia brasileira, que demanda mais importações, do que de uma debilidade econômica como a que aconteceu na década passada, "quando o déficit era muito maior do que o atual".

Meirelles chegou a citar que o déficit em conta corrente é hoje da ordem de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), muito inferior aos 6% registrados no governo passado. E previu que ele deve se reduzir, por causa, entre outros fatores, do aumento dos preços internacionais de commodities como o minério de ferro, que fará crescer o valor das exportações.

Durante a reunião, de acordo com Padilha, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, apresentou uma pesquisa mostrando que o Brasil está em primeiro lugar no mundo em relação à expectativa de geração de emprego deste ano.

EUA cedem e Brasil adia retaliação

06 de abril de 2010

Estadao.com.br

Propostas feitas pelo governo americano são provisórias, mas ampliam negociação e provocam adiamento das medidas para 22 de abril


Renata Veríssimo, Fabíola Salvador - O Estado de S.Paulo


BRASÍLIA


A dois dias de iniciar o processo de retaliação contra os Estados Unidos, o Brasil decidiu prorrogá-las para 22 de abril, para ter mais tempo para negociar com o governo americano a retirada dos subsídios à produção e exportação de algodão. Esse prazo ainda pode ser dilatado por mais 60 dias se, nos próximos 16 dias, os EUA adotarem três medidas negociadas com o Itamaraty desde quinta-feira passada.

As propostas são consideradas provisórias, mas podem ser base de uma solução definitiva na disputa aberta pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), que resultou no direito de retaliar os EUA em US$ 591 milhões em exportações de produtos americanos ao País e de US$ 238 milhões na área de propriedade intelectual.

O Brasil nunca escondeu sua preferência por uma solução negociada, mas sem uma proposta concreta dos EUA para cumprir a determinação da OMC deu início ao processo de retaliação no fim de 2009. Uma lista com 102 itens que poderão ter sobretaxa nas importações americanas foi publicada no início de março e entraria em vigor amanhã.

Medidas. Na quinta-feira, uma missão negociadora americana pediu para o Brasil adiar por 60 dias o início da retaliação, com a promessa de entregar até ontem propostas concretas de negociação. As medidas chegaram aos negociadores brasileiros no fim da manhã e estabelecem três frentes de ação. A primeira é a criação de um fundo de US$ 147,3 milhões anuais para projetos do setor do algodão brasileiro. A segunda é a retirada dos subsídios à garantia de crédito pelo governo americano às exportações de produtos agrícolas como o algodão. E, por fim, o reconhecimento, até 16 de abril, de Santa Catarina como área livre de febre aftosa sem vacinação, o que deve permitir ao Estado exportar carne suína aos EUA.

O pedido de adiamento foi examinado no fim da tarde pela Câmara de Comércio Exterior (Camex). "Os ministros decidiram suspender a entrada em vigor da lista de retaliação de bens", anunciou a secretária executiva da Camex, Lytha Spíndola.

Em nota à imprensa, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que, se as negociações até 21 de abril forem bem-sucedidas, existe a possibilidade de um "entendimento mais abrangente". O ministro advertiu, porém, que "qualquer entendimento que esteja aquém da plena implementação das determinações da OMC será, por definição, temporário".