1.3.10

Brasil é o líder em crédito bancário

01 de março de 2010

O Estado de S.Paulo (SP)

País é o emergente preferido pelas instituições internacionais

Jamil ChadeM, CORRESPONDENTE, GENEBRA

O Brasil vai no sentido contrário da tendência mundial e recebe o maior volume de crédito de bancos internacionais entre os mercados emergentes e o terceiro no mundo. O País também aproveitou o bom momento no cenário internacional para as economias emergentes para se tornar no fim de 2009 no maior emissor de papéis no mercado financeiro entre os países emergentes e garantir a captação de recursos.

Os dados foram divulgados ontem pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), que indica que entre julho e setembro, US$ 13,2 bilhões em créditos estrangeiros foram restabelecidos ao País. O Brasil, assim, volta a ter níveis de crédito superior ao que registrava em 2007, pré-crise.

O BIS alerta que, apesar dos bilhões de dólares garantidos aos bancos por governos desde o início da crise, os empréstimos continuam caindo no mundo. Um sinal é que bancos estão simplesmente sentando sobre os vastos recursos que hoje dispõem e continuam se recusando a voltar a fazer empréstimos como em 2007 e 2008.

O problema mais recente está com os bancos europeus que, diante da incerteza sobre a situação da Grécia e da zona do euro, vem limitando o volume de créditos. No mund inteiro, os créditos sofreram uma queda de US$ 360 bilhões no terceiro trimestre em comparação ao segundo trimestre. A queda é a menor desde o início da crise.

Alguns dos poucos que registraram altas foi a Bélgica, com expansão em créditos de US$ 23,1 bilhões. Nos Estados Unidos, os bancos voltaram a emprestar e a expansão foi de US$ 134 bilhões. Mas, de uma forma geral, os países europeus registraram perdas importantes, com queda líquida de US$ 138 bilhões.

FLUXO PARA EMPRESAS

O bloco de países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, teve o segundo trimestre de crescimento de créditos, com expansão total de US$ 42 bilhões. A expansão de créditos no País foi a maior desde meados de 2008 e superou as da China, com alta de US$ 8,2 bilhões, e da Índia, com US$ 2,5 bilhões.

Outro ponto considerado pelo BIS é de que mais de 95% da alta no fluxo de créditos foi destinada à empresas no País, e não a outros bancos. A constatação é de que isso mostraria a demanda por empresas para fazer investimentos na produção. O fenômeno de recursos destinados ao setor produtivo, e não aos bancos, é registrado também em outros países emergentes.

Diante de um ambiente favorável aos emergentes, o Brasil ainda emitiu US$ 11 bilhões em papéis no mercado internacional no fim de 2009. Ao todo, 90% das emissões foram feitas por bancos, contra US$ 700 milhões por empresas e US$ 600 milhões por governos. A meta era a de aproveitar o cenário para captar recursos.

Fundos de estatais têm 44% do patrimônio

01 de março de 2010

O Estado de S.Paulo (SP)

Previ (BB), Funcef (Caixa) e Petros (Petrobrás) são os maiores do setor

Renée Pereira

Os três maiores fundos de pensão do Brasil - Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), Funcef (Caixa Econômica Federal) e Petros (Petrobrás) - têm quase metade (44%) do patrimônio do setor. Isso significa uma bolada de R$ 214 bilhões ou 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Na avaliação de alguns especialistas, o arsenal de dinheiro dessas instituições dá um poder extraordinário ao governo federal, que poderia tentar direcionar os recursos para investimentos estratégicos.

O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Nelson Chalfun lembra que a história dos fundos, tanto no Brasil quanto no exterior, está cheia de exemplos em que houve interferência do patrocinador (no caso, as estatais).

Ele avalia que, quando há aquisição de ativos ou mesmo a participação na construção da infraestrutura sem considerar os riscos envolvidos, com base apenas em interesses políticos, há grande possibilidade de prejuízo do fundo. A grande crítica do mercado é que, nesses casos, além dos patrocinadores, os fundos são representados por sindicatos.

Os fundos negam interferência do governo nas decisões de investimentos. Dizem que apenas aplicam em empresas e projetos que possam dar retorno no longo prazo, sem prejudicar o beneficiário. Na avaliação de Luiz Guilherme Piva, economista da LCA Consultores, a única forma de evitar "a tentação que os governos têm de exercer ingerência nos fundos" é uma legislação forte .

Para ele, sempre haverá indicações e sugestões por parte do governo. "O que não pode é impor, influenciar ou direcionar formas de investimento", destaca. Os especialistas avaliam que a legislação do setor vem evoluindo no sentido de reduzir as interferências dos patrocinadores nos investimentos. "Mas ainda se corre o risco de ingerência, especialmente para salvar um empreendimento ou para obter vantagens nessas decisões", completa Chalfun.

Apesar disso, o economista defende o crescimento dos fundos no Brasil. "Os fundos são importantes no financiamento da infraestrutura brasileira, como aeroportos, ferrovias e rodovias, que demandam grandes volumes de recursos para ser realizados."

Os lucros do BB e a escalada das estatais

26 de fevereiro de 2010 | 16h20


José Paulo Kupfer


Com os resultados de 2009, o Banco do Brasil deu um calor nos concorrentes do setor privado e um cala-boca nos que duvidaram do valor da política de expandir crédito, praticando juros menores e cobrando menos spreads. Deixou falando sozinhos os que preconizaram, na época do anúncio da nova estratégia, dificuldades futuras, em razão de uma suposta e inapelável inadimplência, que configuraria gestão temerária dos negócios.

Com (ou mesmo sem) os aportes do fundo de pensão dos funcionários, a Previ, que, afinal, transferiu à instituição patrocinadora, a “gestão temerária” do BB resultou num lucro histórico, que vai garantir um gordo dividendo aos acionistas privados da instituição.

Ao comemorar o resultado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, beliscou os críticos: no período que vai de setembro de 2008, início da crise global, a janeiro de 2010, enquanto os bancos públicos aumentavam a oferta de crédito em quase 50%, os bancos privados nacionais expandiram suas linhas de financiamentos em anêmicos 11,5%.

Não precisou que Mantega interpretasse os números por ele mesmo divulgados. A mensagem é clara: já que os bancos privados, que também registraram lucros excelentes, conseguem ganhar dinheiro sem financiar a expansão da produção (e a conseqüente geração de emprego), os bancos públicos devem assumir esse papel.

Trata-se do mesmo argumento que tem levado o governo Lula a uma crescente interferência pública em mercados já há algum tempo operados por empresas privadas. Se o setor privado teima em não assumir seu papel no desenvolvimento da economia, o governo vai lá e faz o serviço.

O avanço dos bancos públicos é só um desses casos. Tem a volta Petrobras de volta ao setor petroquímico. Tem também a Eletrobrás querendo operar mais, a começar pela disposição de assumir metade da super-usina de Belo Monte. Tem ainda o nebuloso renascimento da Telebrás, para tocar um programa de difusão da banda larga que as teles privadas enrolam e não implementam. E, mais recentemente, o balão de ensaio de uma estatal para a área de fertilizantes. O fato é que notícias de que o governo assumiu ou pretende assumir o controle de alguma empresa passaram a ser cotidianas.

Mesmo que não haja muitas dúvidas sobre o corpo-mole do setor privado, só uma visão antiquada da função do estado na economia poderia sustentar a ideia de que o governo deve simplesmente substituir o setor privado, operando diretamente na produção ou na prestação de serviços. Já sabemos, por nossa própria história recente, que a atuação estatal direta em setores econômicos maduros e não estratégicos está a anos-luz da solução dos problemas do desenvolvimento econômico. Não só não costuma ser a solução como, no fim das contas, é fonte de enormes problemas.

O papel indutor do estado não se dá apenas nos setores ainda engatinhando ou caracterizado por externalidades. Seu esforço também é fundamental na oferta de condições para que o setor privado ocupe de fato o espaço a ele destinado. E, tanto ou mais, tem papel chave na cobrança dessa ocupação de espaço.

São muitos os elementos complicadores envolvidos numa escalada da presença do estado na economia. Em alguns dos setores em que o governo está querendo voltar a interferir com uma ação executora, esse papel indutor e fiscalizador caberia às agências reguladoras. Mas isso, entre nós, também não tem funcionado bem.

Primeiro porque as agências, vamos ser francos, em muitos casos, foram capturadas pelos setores que deveriam regular. Não defende a sociedade, os usuários e consumidores como seria seu papel. E, depois, porque o governo – especificamente o governo Lula – ao se indispor com elas desde o início, retirou-lhes, na prática, parte do poder que caberia justamente ao governo reforçar, para que as agências atuassem de acordo com o objetivo para os quais foram criadas.

É inegável que este é um campo de discussão espinhoso em que as ideologias costumam embaçar a visão do conjunto. Privatistas e estatistas não conseguem enxergar eventuais virtudes de uma ou outra forma de atuação na economia – só as falhas do lado oposto.

Retirados os antolhos ideológicos, é possível perceber que há casos, bem delimitados, em que uma estatal pode fazer sentido, ainda que, no geral, empresas estatais em setores convencionais carreguem contradições difíceis de contornar. Ou bem são exemplos de má administração, que terminam transferindo ao Tesouro os custos de seus erros. Ou bem são geridas como manda o figurino e dão lucros que, em tese, por serem estatais, não deveriam exibir.

Tudo bem considerado, nossa experiência acumulada no assunto indica que não é preciso retroceder ao ativismo estatal para promover o desenvolvimento econômico.


fonte: http://blogs.estadao.com.br/jpkupfer/

País tem uma das tarifas de energia mais caras

Jornal Atarde
28/02/2010 às 15:19

Agência Estado

Em meio a uma sucessão de apagões, o brasileiro paga uma das tarifas de energia mais caras do mundo. Segundo levantamento da consultoria Advisia, por encomenda da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace), as tarifas no País só perdem para as cobradas na Alemanha, numa comparação com 7 países industrializados.

O levantamento aponta que a tarifa paga pelo consumidor brasileiro - seja residencial ou industrial - é mais alta do que as do Canadá, Estados Unidos, Noruega, França e México. O estudo usa dados de 2007, por causa da defasagem nos sistemas internacionais de consulta, como a Agência Internacional de Energia (AIE). Mas, segundo especialistas, a relação não mudou substancialmente.

Na época, a tarifa residencial média no Brasil era de US$ 184 por megawatt-hora (MWh) e a industrial, de US$ 138 por MWh. O valor mais baixo para residências era encontrado na Noruega, de US$ 48 por MWh. No segmento industrial, o Canadá tinha a melhor tarifa: US$ 68 por MWh. Na Alemanha, que tinha as maiores tarifas, os consumidores residenciais pagavam US$ 212 por MWh e os industriais, US$ 84 por MWh.

"Deveria haver alguma relação entre custo de energia e qualidade, até porque boa parte da tarifa brasileira é referente a encargos, incluindo o sistema de transmissão, que está falhando", comenta o presidente da Abrace, Ricardo Lima. Ele cita ainda os Encargos sobre Serviços do Sistema, outra taxa paga para manter a confiabilidade no fornecimento. Ao todo, os encargos e impostos representaram metade do custo da energia comprada pelas indústrias brasileiras em 2007.

A área energética do governo cita justamente a carga tributária como fator preponderante no alto preço da eletricidade, pois o custo da produção de energia está entre os mais baixos do mundo.
A sucessão de falhas, seja em linhas de transmissão ou redes de distribuição, indica que a relação entre custo e qualidade, indicada por Lima, está desproporcional.

Os dados de 2009 ainda não foram fechados, mas especialistas avaliam que os últimos meses foram muito ruins. Esta semana, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou uma multa de R$ 9,5 milhões à distribuidora Light por interrupções no fornecimento nos meses de novembro e dezembro. Nesta semana, o governo de São Paulo voltou a cobrar explicações da Eletropaulo pelo mesmo motivo.

O levantamento da Advisia indica ainda que, entre os países pesquisados, o Brasil teve o maior aumento de tarifas industriais no período, de 21,6% ao ano, ante 12,7% no México e 1,2% na Alemanha. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Rede Tropical deixa o legendário Hotel da Bahia

Tribuna da Bahia


O empreendimento da Bahia perde a direção de uma das principais redes hoteleiras do Brasil, a Rede Tropical Hotéis e Resorts
Como é de conhecimento geral, a Rede Tropical de Hotéis foi e ainda é símbolo da Hotelaria e do Turismo brasileiros, tanto em escala nacional como internacional.

Já há alguns anos a Direção da Rede Tropical de Hotéis vem trabalhando para realizar um processo de gestão integral. Neste sentido, a empresa procura seguir dirigindo a sua energia na administração dos hotéis que fazem parte do patrimônio da organização.

Tornou-se imperativo que o grupo deixasse de atuar na gestão do Tropical da Bahia após 40 anos de atuação neste mercado. A propriedade desse empreendimento hoteleiro pertence ao Instituto Aerus de Seguridade Social (AERUS) e a Rede Tropical de Hotéis realizou grandes esforços econômicos para manter em dia seus compromissos, o que acarretava no desequilíbrio da gestão deste hotel.

Paralelamente, o Tropical da Bahia é um dos últimos notáveis empreendimentos localizados no bairro de Campo Grande, região do Centro Histórico de Salvador. Seguindo uma tendência, a rede hoteleira da capital baiana transferiu-se para outros locais, que oferecem melhores acesso e infraestrutura.

A Rede Tropical de Hotéis irá realizar uma operação ordenada, cumprindo como sempre todos os seus compromissos, primeiramente com os colaboradores da empresa. Uma comissão permanecerá residindo no hotel para assegurar a finalização bem sucedida desse processo. A empresa manter os seus esforços para seguir atuando na gestão de seus quatro hotéis.


Publicada: 27/02/2010 01:30| Atualizada: 27/02/2010 01:06

Refúgio dos ricos

Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel -
28.2.2010
Coluna no GLOBO

Dos empréstimos concedidos no ano passado pelo BNDES, as grandes empresas representaram 9,7% das operações e ficaram com 83% do dinheiro. Há casos espantosos, como o do frigorífico JBS Friboi, do qual o BNDES comprou 99,9% das debêntures emitidas. O maior desembolso foi para o projeto que tem contestação do TCU, mas que o governo resolveu manter assim mesmo: a refinaria Abreu e Lima.

O BNDES é um velho canal pelo qual o Brasil transfere dinheiro para a elite empresarial. O dinheiro é mais barato do que o custo pago pelo Tesouro por sua dívida, ou seja, é subsidiado. Nunca antes na história desse BNDES houve tantas operações de grande volume para empresas grandes por motivos discutíveis.

Nesta crise, o banco voltou a ser hospital de empresas, um papel que havia sido renegado na década passada pelos prejuízos que provocou. No começo do ano passado, logo após receber R$ 100 bilhões do Tesouro, o banco liberou R$ 2,4 bilhões para capitalizar a Sadia, para que a empresa fosse assumida pela Perdigão, formando a BR Foods. A Sadia estava em encrenca justamente por erros dos seus acionistas e administradores na especulação com o câmbio.

E, se não comprasse, o que aconteceria? Nada, a empresa acabaria sendo comprada por um preço mais baixo por qualquer concorrente interessado nos ativos. O fato é que com operações assim, o que o BNDES preservou foi o patrimônio dos acionistas. Foi mais uma vez o refúgio dos ricos.

O caso do Friboi é espantoso. Primeiro, porque é descarada a preferência pelo frigorífico e o financiamento total ao seu projeto de internacionalização. A imprensa fala em R$ 7,5 bilhões aplicados pelo banco na empresa em dois anos. Até o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos, Péricles Salazar, em entrevista ao “Estado de S. Paulo”, disse o seguinte: “O grande pecado do BNDES é o excesso. O país tem outras prioridades. Por que jogar tanto dinheiro numa empresa só?” O BNDES admitiu ter posto R$ 3,2 bilhões e mais R$ 2,5 bi no Bertin, comprado pelo JBS.

O Friboi tem quase 80% da sua receita fora do país. Na operação para a compra do Pilgrim's Pride, um frigorífico americano, a empresa lançou debêntures de R$ 3,4 bilhões, e o BNDES comprou 99,9%. A família Batista, dona da empresa, comprou meros 0,05%. Consultado, o JBS alegou que não tinha técnico disponível para responder às nossas perguntas.

Quando a Aracruz também se complicou com derivativos cambiais, a Votorantim a comprou por R$ 5,4 bilhões, mas o negócio só foi possível porque o BNDES fez um aporte de R$ 2,4 bilhões na VCP, 40% do valor do negócio, deixando assim a família Ermírio de Moraes e as famílias donas da Aracruz com seus patrimônios preservados e engordados. Essas operações de compra de ativos não geram emprego, muito menos a compra no exterior, como fez o JBS Friboi.

O dinheiro dado à Telemar para a compra da Brasil Telecom foi uma extravagância. E, de novo, era um negócio que significava mais concentração e nenhum emprego. Só duas das parcelas foram: R$ 2,6 bilhões, anunciada em 2008, e R$ 4,4 bilhões, em 2009. Consultada, a empresa disse que está em período de silêncio que antecede a divulgação de balanços. O BNDES afirma que só participou com R$ 2,6 bilhões na compra pela Telemar da Brasil Telecom. No balanço de 2009, há R$ 4,2 bi em empréstimos para a Telemar e Brasil Telecom.

O pior empréstimo do BNDES foi para o frigorífico Independência, porque a operação de injeção de R$ 450 milhões no capital foi feita em novembro de 2008. Com esse capital, o banco ficou sócio do frigorífico, do qual 100% das ações pertenciam à família Russo. O banco subscreveu R$ 250 milhões de ações e em março faria outra operação de R$ 200 milhões, mas aí a empresa quebrou e entrou em recuperação judicial. Hoje, vários bancos estão na Justiça, inclusive o JP Morgan, para tomar os bens de acionistas. O BNDES nos respondeu que encaminhou o assunto ao departamento jurídico. O que precisa ser explicado é como ele colocou tanto dinheiro num frigorífico às vésperas de quebrar.

O BNDES montou também uma acrobacia fiscal para tentar garantir a aparência de cumprimento do superávit primário. Transferiu R$ 3,5 bilhões para o Tesouro comprando dividendos da Eletrobrás.

Tradicional financiador de projetos de longo prazo, o banco hoje em muitas operações se distancia desse perfil. Virou sócio de empresas com dificuldades e, além disso, empresta recursos para as mesmas empresas das quais é sócio. Faz operações de alto risco, como a do Frigorífico Independência, e participa de manobras fiscais para edulcorar as contas públicas.

Para as pequenas empresas, o banco destinou 5% do capital; para as micro, 4%; e para as médias, 7%. Pessoa física ficou com 1%. O resto, 83%, foi para as grandes, que são apenas 9,7% das operações. No site da instituição, está registrado que os maiores empréstimos foram para a Refinaria Abreu e Lima, R$ 10 bilhões; Petrobras, com outros R$ 10 bilhões; alguns grandes projetos como Santo Antônio; Jirau; e grandes empresas mesmo estrangeiras como General Motors. No ano passado, na área industrial, o JBS está como a maior operação, com R$ 3,5 bilhões a título de “internacionalização da empresa”. A segunda é de compra de ações da BR Foods, de “até” R$ 1 bilhão. E houve várias operações apenas de concessão de capital de giro, como a de R$ 200 milhões para a Camargo Corrêa, mesmo valor destinado à Positivo Informática. Para as Lojas Americanas, R$ 150 milhões; para a TIM, duas operações de R$ 200 milhões cada. Capital de giro não costuma ser financiamento de longo prazo.

Digamos que tudo isso foi feito numa ação anticíclica. E agora que a crise passou? O BNDES vai manter o mesmo tipo de atuação?

Brasil fica para trás na corrida pela nova economia "verde"

São Paulo, domingo, 28 de fevereiro de 2010





Enquanto EUA e China investem bilhões em tecnologia, país se acomoda com matriz limpa, dizem analistas

Em 2009, grandes economias gastaram em média 16,4% dos pacotes de estímulo com investimentos "verdes'; no Brasil, fatia foi de 5%

NATÁLIA PAIVA
DA REDAÇÃO

Na corrida global por desenvolvimento científico e ampliação de investimentos ligados à economia de baixo carbono, o Brasil começa a ficar para trás.
Enquanto potências como EUA e China investem centenas de bilhões de dólares na área, vista como a nova fronteira do desenvolvimento mundial, o Brasil nem sequer tem um modelo nacional, afirmam acadêmicos e ambientalistas. No setor privado, negócios verdes esbarram em gargalos como estrutura tributária inadequada, falta de marco regulatório e ausência de incentivo.
Nessa corrida, o país tem as vantagens da biodiversidade e de escolhas feitas no passado (como a aposta no álcool e na hidroeletricidade). No entanto, desperdiça o enorme potencial de fontes de energia, como solar, eólica e de biomassa, e avança lentamente em áreas-chave, como etanol celulósico, segundo especialistas.
"Talvez esse conforto esteja trazendo uma reação de certa forma comodista, diferentemente dos países premidos por urgência de mudança energética, que estão fazendo esforços para diversificar suas fontes de energia e mudar padrões produtivos e de consumo", afirma o economista Ricardo Abramovay, do Núcleo de Economia Socioambiental da USP.
Globalmente, uma fatia média de 16,4% dos pacotes de estímulo lançados no ano passado para mitigar os efeitos da crise econômica foi "verde" (US$ 513 bilhões em 17 grandes economias), segundo o HSBC. A Bloomberg New Energy Finance estima que 16% desses fundos verdes sejam destinados a pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas.
No Brasil, só R$ 1,5 bilhão, ou cerca de 5% do total de estímulos fiscais anticrise, focou o setor produtivo "limpo", como o IPI reduzido para carros "flex". E, segundo levantamento do Ministério do Meio Ambiente, feito em todas as pastas a pedido da Folha, em 2009 o governo gastou R$ 2,5 bilhões em ações verdes (R$ 380 milhões diretamente ligados à pesquisa, sem contar atividade espacial).
O montante, fatia de 0,36% do Orçamento executado (descontadas estatais e transferências), é considerado baixo e "questionável" por especialistas, por contar programas que não teriam relação com a área, como Luz para Todos (que leva energia a locais isolados) e Pronaf (de agricultura familiar).
Para o cientista político Sergio Abranches, o país continua sem uma "política integrada de sustentabilidade" e a Política Nacional de Mudança Climática -sancionada em dezembro, mas ainda sem regulamentação- não deverá mudar esse cenário, por se concentrar em combate a desmatamento e "um pouco em agricultura".
A geógrafa da UFRJ Bertha Becker, especialista da questão amazônica, diz que "ainda não estão claramente definidos" o que são "desenvolvimento sustentável" e "economia verde", mas que investimento em pesquisa e ciência "certamente ajudaria" o país a criar modelo de uso inteligente dos recursos.
"Se não investirmos em capacitação científica, para ficarmos na ponta do desenvolvimento de baixo carbono, vamos ficar para trás. No século 20, não fizemos, os asiáticos fizeram. Agora, está zerando de novo a capacidade produtiva. Quem investir mais se destacará", afirma Abranches.

Etanol e solar
Justamente devido a baixos investimentos em pesquisa, o Brasil põe em risco sua liderança em etanol ante seu maior concorrente, os EUA, que investem mais para desenvolver o etanol celulósico (feito do bagaço de cana, por exemplo), o futuro dos biocombustíveis.
"Estamos engatinhando. O Brasil tem tido muito pouca atividade no campo da ciência, embora tenha desenvolvido na prática uma tecnologia bastante desenvolvida", afirma o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, diretor do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais, em Campinas.
Apesar de a cana ser muito mais eficiente e "limpa" do que o milho desenvolvido nos Estados Unidos, caso a tecnologia da segunda geração seja desenvolvida lá, e não haja progressos aqui, os americanos tomariam a dianteira. No Brasil, investimentos públicos e privados em pesquisa de etanol somam R$ 150 milhões ao ano, segundo estima o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira); nos EUA, US$ 1 bilhão ao ano vai só para a pesquisa celulósica.
Um esforço de peso na corrida é o Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, inaugurado pelo presidente Lula em janeiro, com investimentos de R$ 69 milhões. Seus diretores pedem orçamento anual, ainda indefinido, de R$ 50 milhões.
Até 2020, a poluição relativa à energia no mínimo dobrará, estima o próprio governo. Fontes limpas complementares e eficiência energética poderiam atenuar os efeitos do aumento do consumo de energia, diz o físico da USP José Goldemberg.
"O governo está mesmerizado com o pré-sal, há um esforço grande na pesquisa em torno dele. Se você fica fascinado, presta menos atenção a alternativas, que podem até parecer mais caras, mas por isso estímulos poderiam resolver."
A energia solar, por exemplo, segue vista como cara e sem escala. "É a visão de quem não conhece o setor. Indústrias chinesas já têm escala, porque começaram em 2002 com muito incentivo do governo", diz Izete Zanesco, do Núcleo Tecnológico de Energia Solar da PUC-RS.
O grupo acabou de encerrar um projeto de tecnologia nacional, a custo mais baixo, para painéis solares e agora trabalha num modelo de negócios para atrair investidores. Entre 2005 e 2009, o projeto teve recursos de R$ 6 milhões -bem abaixo dos 11 milhões iniciais que o Instituto Fraunhofer de Energia Solar da Alemanha teve para projeto similar, diz Zanesco.